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1 de fevereiro de 2010

Coração sem espinhos

Foi emocionante quando o carteiro me entregou o pacote. Era uma caixa simples, coberta por papel madeira, carimbada com um aviso de “frágil”. Abri-a com as mãos tremendo, como se soubesse (ou sentisse) do que se tratava, e encontrei uma segunda caixa. Essa já não era tão simples: vermelha, envolvida com cetim e fitas douradas, parecia um presente de natal. Desatei os laços bem devagar - talvez pra prolongar o momento -, retirei a tampa e, dessa vez, encontrei um relicário antigo, já meio oxidado, mas muito bonito mesmo assim. Ele estava trancado com um cadeado de diário, daqueles que qualquer chave abre, e eu entendi o recado imediatamente: tu sempre me disseste que é muito fácil amar alguém de vez em quando, mas que amar alguém o tempo todo, com mau humor matinal, remela nos olhos, mau hálito, TPM, ronco, estresse e rotina repetitiva, é muito complicado. E eu, aparentemente, havia passado no teste, pois nosso amor estava resistindo aos desafios diários da convivência sem grandes dificuldades.
Logo que abri o relicário com a chave do meu diário, uma lágrima desapontou em meus olhos. Lá estava o teu coração, embrulhado em um plástico-bolha, pulsando, pulsando, pulsando. Tomei-o nas mãos – era macio e escorregadio - e aproximei-o do meu próprio coração para que eles pulsassem juntos. Uma felicidade sem tamanho me invadiu – e como poderia ser diferente? Aquela era a maior prova, não só de amor, que alguém já tinha me feito. Era uma prova de confiança e entrega absoluta. Naquele momento, certo do teu amor, eu tive certeza de que tu me farias feliz. Por isso, na mesma noite, pedi tua mão em casamento. Tu aceitaste sem sequer pestanejar, abraçou-me forte e disse baixinho em meu ouvido “cuida bem do meu coração”. Eu, quase ofendido com aquela recomendação, respondi que “quando a gente gosta, é claro que a gente cuida”.
E por muito tempo nós vivemos juntos e bem. No início, eu protegia teu coração como se ele fosse de vidro; andava com ele sempre pertinho do meu, pra garantir que continuasse a bater por mim. Quando, um dia, eu esqueci de levá-lo ao trabalho comigo, fiquei nervoso a tarde inteira, suando frio, com medo que ele parasse por causa da solidão; mas descobri, ao chegar em casa, que mesmo distante ele continuava a bater – e que o compasso das batidas chamavam meu nome. Passei então a deixá-lo em casa, por ser mais seguro e mais cômodo (pra mim e pra ele); mas sempre antes de dormir ao teu lado, eu checava se teu coração estava bem. Entretanto, como ele só batesse mais forte a cada dia, passei a checá-lo de dois em dois dias, depois de semana em semana, de quinze em quinze dias...
Nós já estávamos casados há alguns anos, quando eu te notei triste, desanimada, quieta demais. Perguntei se tinha acontecido alguma coisa, e foi quando tu me disseste que teu coração estava sofrendo. Na hora eu fiquei em choque: “como assim sofrendo?”. Tentei lembrar da ultima vez que eu o tinha checado, e quando não consegui, a culpa me tomou. “Estou me sentindo muito sozinho” diria teu coração, se pudesse. Corri até o quarto, abri o relicário - agora verde de tão oxidado - e peguei-o delicadamente. Continuava corado, saudável e batendo forte como se nada tivesse acontecido - como poderia estar sofrendo? Fiquei irritado. Achei que tu estavas cobrando muito de mim, enquanto eu passava os dias trabalhando arduamente para sustentar nossa família.
Ainda com teu coração em mãos, levei-o até você. “Olha aqui, ele está perfeito!” Eu disse em tom de revolta. Estava tão cego de raiva, que só percebi que havia apertado ele com força demais, quando tu colocaste a mão no peito e teus olhos se encheram de dor. Olhei pra minha mão, e vi que o teu amor escorria entre meus dedos. Escorria com o sangue que espirrava em minha blusa, e escorria vermelho, como o cetim da caixa.
Teu coração ficou bem, depois de costurado, mas teu amor escorreu tanto que acabou. Dias depois tu foste embora, levando consigo nossos filhos e até o plástico-bolha que eu gostava de usar como terapia. E fui eu quem ficou sozinho, lembrando de como eu tive certeza de que tu me farias feliz – e, Deus, como tu me fizeste feliz! -, sem jamais me preocupar retribuir a dedicação. Descobri que ser amado é, quem sabe, mais difícil que amar. Pois quando o amor oferecido é demais, a gente se acomoda, a gente se descuida, e a gente se esquece que coração sem espinhos, como me era o teu, é mais fácil de esmagar.

25 de janeiro de 2010

Um drinque.

- Um drinque, por favor.
- Você é maior de idade?
- Sou.
- Pode me mostrar algum documento que comprove?
- Bom, é que eu acabei de ser assaltada e...
- Ah, sim, claro.
- É sério!
- Eu sei.
- Então vai me dá um drinque?
- Não.
- Por que não? Eu juro que fui assaltada. Eram dois, não, eram três homens enormes, e eles queriam me seqüestrar, mas eu estava muito desesperada, chorando e gritando demais e eles acharam que chamaria muita atenção, por isso só levaram minha carteira.
- Qual era a cor da camisa do homem mais alto?
- Azul.
- E do mais baixo?
- Azul também.
- Estavam todos de azul?
- Não, o do meio estava de branco.
- Mas não eram os três enormes?
- Eram, mas até o mais baixo era enorme em sua pequeneza.
- O mais alto devia ser muito grande então...
- Ele era gigantesco! Devia ter uns dois metros.
- Nossa, você deve ter ficado com muito medo.
- Por que você acha que eu quero um drinque?
- Não sei...
- Vamos lá, por que eu mentiria pra você?
- Pra conseguir um drinque?
- Não... Seduzir você seria mais fácil.
- E porque não me seduz?
- Porque eu prefiro os caras com namorada.
- Eu não posso ter uma namorada?
- Pode, mas não tem.
- Explique-se.
- Se você tivesse uma namorada, não estaria falando comigo esse tempo todo.
- Eu não posso ser um canalha?
- Pode, mas não é.
- ...
- Se você fosse um canalha, você tentaria me embebedar e...
- Te daria um drinque.
- Exatamente.
- Qual era mesmo a cor da camisa do cara que te assaltou?
- Azul.
- Não eram três?
- Você vai me dá o drinque ou não?
- Não.
- Idiota.
- Ei!
- O que é?
- Quer tomar um drinque comigo amanhã?
- Quero.
- Traga sua certidão de nascimento.

20 de janeiro de 2010

Não amo ninguém!

Ela se apaixonava rápido. Não porque fosse fácil ou desesperada, mas porque estava sempre com o coração desocupado. É que ela também se desapaixonava rápido; não queria passar tempo demais esperando pela paixão errada.
Estava sempre a procura de uma paixão em potencial. Se encontrava algum rapaz bonito, que lhe desse atenção ou lhe sorrisse com ternura, dizia pra si mesma que podia ser ele, a paixão que procurava, e se apaixonava loucamente pela possibilidade de se apaixonar de verdade. Escrevia o nome dele no caderno, desenhava corações na porta dos banheiros, ouvia músicas pensando nele e fazia poesias, tudo para se convencer de que o amava. E quando percebia que se enganara outra vez, era como se sua nuvem de sonhos chovesse, e ela chorava copiosamente a morte do amor que aprendera a sentir.
Durante anos ela seguiu assim: sempre amando ou sofrendo. A maioria das paixões que ela tinha era platônica, mas houve duas ou três que evoluíram para algo mais sério, embora não tão sério quanto ela queria. Porque ela não se contentava em gostar, ela precisava amar, e amor demais assusta. Gostar é pra coisas – diria se perguntassem - pessoas são feitas para amar. Ela gostava de amar pessoas. Gostava de dizer “eu te amo” mesmo que a recíproca não fosse verdadeira, e gostava de deitar na cama e ter em quem pensar, mesmo que não passasse disso.
Um dia, durante uma caminhada na praia, uma amiga já casada e com filhos questionou o motivo de ela jamais ter se casado. “Mas você ama alguém de verdade?”, indagou a moça. E ela respondeu cantando... “Se todo alguém que ama, ama pra ser correspondido. Se todo alguém que eu amo, é como amar a lua inacessível, é que eu não amo ninguém. Não amo ninguém. Eu não amo ninguém, parece incrível. Não amo ninguém. E é só amor que eu respiro.”

13 de janeiro de 2010

Ob.sessão da Noite.

Era por uma janela que ele a espiava todas as noites. Sentava-se na varanda, abastecia-se de suprimentos, binóculos, e esperava que ela, em algum momento, abrisse a cortina. Quando as noites eram de lua cheia, colocava também uma música instrumental para orquestrar a tão esperada aparição. Sim, porque nessas noites – em especial – a aparição era definitivamente devastadora: a persiana se abria lentamente, revelando inicialmente apenas fatias aleatórias da mulher; mas à medida que a cortina ia sendo puxada, um corpo feminino completamente nu ia se revelando, como uma lua crescente que crescesse em questão de segundos. Não era todo dia que se via duas luas assim, uma ao lado da outra, competindo para ver quem tinha o brilho mais ofuscante.
Naquela noite de lua cheia, entretanto, ela não apareceu. Ele se levantou da cadeira, sentindo uma mistura de decepção e preocupação, e conferiu o calendário na porta da geladeira: não era domingo, nem segunda, nem quinta, portanto ela não estava no Ballet, na academia ou jogando baralho com seu grupo de amigos fúteis e desocupados. Os pais dela já estavam mortos, e também não havia irmãos ou tios que pudessem importuná-la tão tarde da noite.
Teria arranjado um novo namorado? Mulheres bonitas, como ela, eram sempre cheias de admiradores, como ele, e não seria de se estranhar que algum deles houvesse se declarado. E menos de se estranhar ainda que ela houvesse aceitado, já que andava muito triste e carente desde a morte inesperada do seu último namorado. O coitado fora atropelado por um opala antigo na saída do trabalho. Os policiais não encontraram o responsável, pois o veículo fora rapidamente abandonado e não havia placa ou digitais que pudessem identificar o proprietário. Testemunhas oculares afirmaram ter visto um homem bastante gordo, só de cueca e careca caminhar pelas redondezas, mas afirmaram também que seria impossível que alguém daquela largura tivesse saltado do carro com tamanha agilidade, a ponto de não ser flagrado por ninguém. Os policiais prometeram não desistir do caso, uma vez que ela aparecera aos prantos na delegacia, usando uma calça legging e um top de ginástica – era segunda feira, dia de academia. Desde então, ela só vestia preto e não parava de ouvir as músicas muito ruins que o falecido namorado gostava de ouvir, que ela costumava odiar, e cujos CDs desapareceram misteriosamente – ela tivera que comprar todos novamente. Portanto, realmente não seria de se estranhar se ela tivesse decidido romper com o luto, e seria até bom que ela voltasse a usar lingerie vermelhas, mas ele preferia não pensar na idéia de sua musa estar com outro rapaz tão cedo.
Ainda frustrado, ele abriu a geladeira. Retirou uma torta de chocolate particularmente apetitosa e devorou metade dela em alguns minutos, enquanto mantinha o olhar fixo em algum ponto nulo na parede da cozinha. Ela tinha que ter escolhido aquela noite para não aparecer? Justamente aquela noite, pela qual esperou ansiosamente desde a manhã anterior, quando acordara imerso em suor. Ele sonhara com ela. Sonhara que ela vinha à sua casa vender biscoitos para arrecadar fundos para a formatura. Ela usava um short curto de barra desfiada e uma blusa branca. Lembrava-se de ter desejado – no sonho – que começasse a chover ali mesmo, no corredor do prédio, só para que pudesse notar os mamilos dela se enrijecendo. Contudo, na falta da chuva, ele a tomou nos braços e carregou até o chuveiro, deixando rastros de biscoito por toda casa. Depois disso, ele só lembrava de ouvi-la gritando desesperadamente, chamando-o de ogro tarado. Em outro momento ele se sentiria ofendido e provavelmente se afastaria, envergonhado de si mesmo, mas ele olhou pra aquele corpo sinuoso, tão próximo ao seu – volumoso e pesado –, e todo receio foi embora pelo ralo, junto à água quente que caía do chuveiro enchendo o banheiro de vapor.
Assim que ele engoliu o ultimo pedaço de torta, sua visão foi gradativamente recuperando o foco, e todas as imagens esfumaçadas que preenchiam sua mente, em forma de sonho, foram se tornando mais nítidas; as lembranças foram se tornando cada vez mais reais. Subitamente os olhos dele se arregalaram. A garganta se fechou para que toda a torta, animalescamente devorada, não voltasse à boca de uma só vez. Em um surto de tremedeira, ele cambaleou até o banheiro, apoiando-se nas paredes. Abriu a porta devagar – como se procurasse uma fenda no tempo. O ranger das dobraduras assemelhavam-se aos ruídos que advinham do seu próprio cérebro, que maquinava freneticamente, tentando assimilar o redemoinho de informações que se revelava de forma tão inesperada. Quando a porta finalmente se abriu, o choque: o corpo dela, esparramado sobre os azulejos encardidos do banheiro. As roupas estavam rasgadas, as pernas em uma posição no mínimo improvável (até mesmo para a melhor das bailarinas). E por fim, o rosto branco com olhos saltados às órbitas confirmaram a total ausência de vida.
Desesperado, ele se afastou do cômodo. Chocou-se ainda com a parede antes de correr para o quarto  e pegar um molho de chaves. Desceu para o estacionamento exatamente como estava: apenas com roupas de baixo. Com as mãos trêmulas, escolheu a chave para um dos carros antigos que fazia parte da sua coleção. Entrou no veículo, girou a chave na ignição e foi embora, ouvindo uma música muito ruim.

16 de dezembro de 2009

Kiss me

Eu tinha dezesseis anos. Todas as minhas amigas já tinham beijado, menos eu. Não porque eu fosse feia e nenhum garoto quisesse me beijar, mas porque eu tinha muito medo.
Eu sabia todos os passos, desde o grau de inclinação da cabeça à altura de elevação do pé. Eu já tinha assistido centenas de filmes, treinava com gelo, laranja, manga, e fazia todos os testes de “você está preparada pra beijar?” da Capricho, Atrevida, Tititi e qualquer outra revista teen que pudesse me alienar do mundo. No espelho eu ficava ensaiando uma forma sexy de fechar os olhos - sem forçar demais, pra não parecer que não estava gostando, mas sem forçar de menos, pra não ficar piscando. Eu sabia que não podia fazer muito biquinho pra não parecer iniciante, e não podia ficar girando a língua feito hélice de helicóptero também. Levava na bolsa pastilhas de menta, hortelã e canela, além de escova de dentes e fio dental. Quando saía, nunca comia coisas com cebola, alho ou ovo. E o principal: eu sabia de cor a lista de meninos que eu supostamente havia beijado, porque se assumir como “BV” é suicídio pra meninas de dezesseis anos.

Eu tinha passado os últimos quatro anos evitando qualquer aproximação com o sexo oposto. Sempre que algum garoto demonstrava interesse em mim, eu inventava um namorado lindo que morava no acre. Isso até conhecer Marcos Alexandre, o novo amigo do meu irmão mais velho. Ele não era bobo como os meninos da minha sala. Era alto, forte, e tinha barba. Toda vez que eu olhava pra ele, eu imaginava a barba dele roçando no meu rosto, me fazendo cócegas, enquanto ele sussurrava barbaridades em meu ouvido. Quando eu pensava nisso dava um arrepio no corpo todo, uma agonia quente que vinha subindo desde o pé, e eu tinha que cruzar as pernas pra conter a onda de... tesão. Eu sei que é estranho uma menina que nunca beijou falar em tesão, mas eu tenho pra mim que sexo é bem mais fácil que beijo (e espero que seja mesmo).

As coisas com Marcos Alexandre ficaram mais complicadas quando ele começou a reparar em mim. Ele passava na minha casa à procura do meu irmão, mas quando meu irmão não estava, em vez de ir embora, ele ficava conversando comigo durante horas. Nós ríamos muito, e quase nos beijamos uma vez, mas eu não tive coragem. Me fiz de doida e virei o rosto. Fiquei me sentindo uma idiota na hora, mas depois achei que tinha sido melhor assim. Eu estava há muito tempo sem escovar os dentes, e nós tínhamos comido amendoim com casca enquanto assistíamos à sessão da tarde – imagina se tivesse uma casca de amendoim bem no meu dente?

Um dia Marcos Alexandre me chamou pra ir a uma festa com ele. Na hora eu fiquei surpresa que um homem de vinte e um anos quisesse aparecer em público com uma menina de dezesseis. Isso me fez pensar que ele gostava mesmo de mim, o que era um sério problema, porque eu também gostava muito dele, e não queria de jeito nenhum perder a chance de dar meu primeiro beijo em alguém que eu gostasse. Prometi pra mim mesma que não teria mais medo. Vesti um vestido vermelho super decotado, prendi o cabelo – pra que ele pudesse beijar meu pescoço depois – e coloquei perfume nos lugares mais estratégicos. Escovei os dentes tantas vezes que minha boca ficou dormente, enchi minha bolsa de trident, e fiquei cantarolando uma música da Sixpence None The Richer até ele chegar.

Ele me pegou em casa, e quase nos beijamos novamente quando entramos no carro, mas eu quebrei o clima pra avisar que eu tinha que estar em casa antes das duas da manhã. Marcos Alexandre riu. Tenho quase certeza que ele já estava arrependido por ter chamado a mim pra acompanhá-lo, em vez de uma menina madura que o deixasse beijar em paz. Mas se ele estava mesmo arrependido, não demonstrou. Quando chegamos, e eu vi toda aquela gente se beijando, eu decidi que precisava de uma ajudinha. Esperei o garçom passar com as bebidas e virei um copo inteirinho de sei-lá-o-quê. Eu nunca tinha bebido na vida, então fiquei tonta na mesma hora, mas senti uma sensação tão boa de “eu sou dona do mundo” que virei mais três copos depois. Marcos Alexandre, que parecia impressionado com a minha performance de adolescente irresponsável, me chamou pra tomar um ar lá fora. Eu fui. Fui andando atrás dele, pra dar tempo de colocar um trident na boca, e quando chegamos à varanda – a noite estava linda – ele colocou a mão em volta da minha cintura e avisou: “vou te beijar agora”.

Parecia que um elefante dançava no meu estômago quando ele disse isso. Eu achei estranho que não fossem borboletas, como nos livros, mas só entendi o porquê quando senti todo o meu café da manhã, almoço e jantar subirem pelo meu esôfago diretamente pra minha boca. Marcos Alexandre já estava bem próximo a mim quando eu o empurrei pra frente e vomitei nos nossos pés.

Aquele foi o momento mais constrangedor da minha vida. Olhei-o como uma criança que acaba de quebrar o jarro mais caro da mãe, cobri o rosto e comecei a chorar, implorando – entre um soluço e outro – que ele me perdoasse por ter estragado seus sapatos. Foi quando eu senti uma mão erguendo meu queixo. Ele retirou minhas mãos, me puxou contra si, e me surpreendeu com o melhor primeiro beijo com gosto de vômito e temperado com lágrimas que alguém poderia me dar. Eu não tive tempo para fechar os olhos, meu pé estava nojento demais pra fazer qualquer movimento, e Marcos Alexandre, que nunca fazia a barba, decidira fazê-la justo naquela noite. Mas começou a tocar aquela música da Sixpence, e nós dançamos juntinhos sobre um chão de vômito que mais parecia um chão de estrelas... 
“Oh, kiss me beneath the milky twilight
lead me out on the moonlit floor
lift up your open hand
strike up the band and make the fireflies dance
Silver moon's sparkling, so kiss me”.

9 de dezembro de 2009

Noites de um verão qualquer

Era uma noite escura de verão, quase não havia vento, e o mar dormia tranqüilo, coberto pelo manto negro. Mas algo me tirava o sono. Abri a escotilha para espiar a estrela do norte: ela brilhava no céu de poucas nuvens, olhando por mim como uma protetora silenciosa.
Como não conseguisse dormir, eu subi ao convés. Fingi para mim mesmo que queria apenas ver minha estrela guia mais de perto, mas eu sabia que não era isso. Meu corpo todo se arrepiava apesar da ausência de vento, meu coração batia na ponta dos dedos e minha respiração ofegava sem qualquer motivo aparente. Eu pensei que fosse algum pressentimento ruim; uma tempestade silenciosa que se aproximava, um monstro marinho faminto por minha carne dura. Pensei até em fazer uma prece – nesses momentos, acreditar em Deus parece conveniente –, mas minha atenção foi absorvida pelo canto que me inundou de repente. Era um canto diferente de tudo que eu já tinha ouvido. Não era doce, nem agressivo, nem melodioso, não era sequer afinado, era apenas uma profusão de notas e subnotas, indo e vindo dentro da minha cabeça, como ondas do mar. Era isso. O canto não me adentrou os ouvidos hora nenhuma, ele estava dentro da minha cabeça o tempo todo, feito fosse minha consciência acalentando meu cérebro cansado.
Eu sei o que vocês estão pensando. Eu também pensei que estivesse ficando louco. Não precisava ser grande intelectual pra saber o que aquele canto significava e pra saber que era impossível. Mas impossível é uma palavra abstrata, sem valor algum. Tudo é possível, mas o egocentrismo do homem transformou em mentira tudo aquilo que ele não sabe explicar, nomeou de impossível todas as possibilidades mais fantásticas. Mas eu sei disso agora. Naquela noite eu nada sabia.
O barco foi seguindo um rumo próprio, movimentando-se rápido e só, contra o vento e contra a correnteza, contrariando todas as leis físicas que eu tinha como certas. Eu vi a estrela do norte ficando pra trás e soube imediatamente que deveria fazer algo para impedir. Mas o canto em minha cabeça me chamava, e eu ia como um rato farejando queijo, mesmo ciente de que estava indo direto para a ratoeira. Era uma consciência inconsciente, entende? Não adianta saber das coisas, se não há força para resistir e controlar a situação.
O mar a noite é escuro, nada se vê através das águas negras senão o reflexo da lua. Mas naquela noite sem lua, outro astro tomou seu lugar. Era uma estrela-do-mar, por assim dizer. Uma fada das águas, meio peixe, meio gente. A lenda que todo pescador sonha em encontrar, e estava ali, diante de mim, flutuando sobre as águas. Os cabelos dela eram de uma cor entre marrom e o dourado, a pele era branca feito folha de papel, e os olhos eram notívagos e hipnóticos. Eu a olhei por um minuto – que passou lento como se fosse um ano –, e quando o fiz o canto ficou mais alto e mais claro. Ela estava tentando me dizer algo, embora sua boca nem fizesse menção de se abrir.
“Feche os olhos” Eu a ouvi dizer dentro da minha cabeça. E assim eu fiz. Fechei os olhos pensando que ia ver tudo preto, mas minhas pálpebras pareciam que eram transparentes. Eu estava de olhos fechados, mas continuava a vê-la. Seus cabelos dançavam no vento, e os reflexos nas gotas de água que espirravam em volta dela lembravam confete de carnaval recortado em papel laminado. Eu estava maravilhado, quando percebi que ela se aproximava de mim, mais e mais. Senti que uma escola de samba passava no meu peito, quando os lábios dela tocaram os meus. Tinha o gosto do meu doce preferido, e os cabelos dela, que se enroscaram no meu corpo todo, tinham cheiro de praia. Ela me envolveu naqueles braços finos e eu me entreguei como uma virgem que se submete ao macho impassível.
Acordei estirado na areia, com o sol cegando meus olhos. Meu barco nunca foi encontrado, e ninguém sabe como eu cheguei á costa. Mas eu ainda sinto na boca o gosto do meu doce preferido, e quando fecho os olhos imagino a figura dela, sugando a minha existência para algum paraíso secreto nos sete mares. Sei que jamais a encontrarei novamente. Sereias são promíscuas, se aninham nos braços de qualquer pescador e roubam seus corações para si. Ela ficou com o meu. E eu fiquei apenas com a lembrança de uma noite de verão.
Essa não é mais uma história de pescador. Aconteceu de verdade comigo. Mas eu sei que você não vai acreditar...
"A paixão pode ser avassaladora.
Muitos amores começam logo os gatos saem a noite,
e acabam-se com o canto do cotovia"

Desafio coletivo: um amor de verão.
Leia também as histórias de Pâmela, Maria Fernanda,  
Andrey, Fernanda, Matheus, Charlie e Alan Félix.

Quer participar também? Escreva e avisa pra gente.

2 de dezembro de 2009

Variações sobre um mesmo tema

Alice conheceu Renato e se apaixonou. Renato era alto e forte, apesar de meio burro. Mas sua falta de inteligência era compensada pelo romantismo. Ele mandava mensagens no meio da noite, flores no meio da tarde, e a acordava com muitos beijos e muito carinho. Era tudo perfeito. Mas alguma coisa aconteceu e Renato ficou distante. Ele não ligava mais, não mandava mais presentes, até os beijos perderam a intensidade. Era como se a paixão tivesse esfriado e o amor tivesse acabado como o leite em pó de uma lata. Alice então chorou. Chorou tanto, que seu travesseiro mais parecia uma esponja. Ela prometeu que não amaria novamente, até que

Alice conheceu Paulo e se apaixonou. Paulo também era alto, mas era muito magro. Sua falta de músculos, entretanto, era compensada pela alegria contagiante que ele expirava. Com Paulo, mesmo nos dias mais cinzas e mais tristes, havia sempre razão para sorrir. Ele fazia surpresas e a levava ao parque. Eles comiam algodão doce, pipoca, chocolate, maçã-do-amor, e voltavam para casa rindo da imensa vontade que tinham de vomitar um no outro. Era tudo perfeito. Mas alguma coisa aconteceu, e o sorriso de Paulo foi minguando. Ele já não fazia piadas, eles não já não faziam passeios divertidos, nem comiam mais doces juntos. Era como se a paixão tivesse morrido, e o amor se escondido atrás de uma nuvem escura que não chovia nunca. Alice então gritou. Gritou tanto que perdeu a voz, mas prometeu, em silêncio, que não se envolveria com mais ninguém, até que

Alice conheceu José e se apaixonou. José era um rapaz humilde, vindo do interior. Era baixo, meio entroncado, mas tinha força e inteligência. Eles estudavam juntos a tarde inteira, e era tão bom que parecia que tinham passado a tarde fazendo sexo. Era uma espécie de orgasmo mental. Ele tirava todas as dúvidas dela, e quando as notas eram boas, ambos eram recompensados com beijos, abraços e amassos de tirar o fôlego. Era tudo perfeito. Mas alguma coisa aconteceu e José mudou. Ele agora dizia que preferia estudar só, porque aprendia mais; também não tinha paciência para tirar dúvidas, e se não havia notas boas, não havia recompensa. Era como se a paixão tivesse fugido do coração atrofiado pelo crescimento do cérebro. Alice então sofreu. Sofreu dias a fio, mas prometeu que seria a última vez, até que

Alice conheceu Gabriel e se apaixonou. Gabriel era evangélico fanático, andava sempre com a bíblia embaixo do braço. Mas seu dinheiro compensava qualquer infortúnio causado pela promessa de virgindade. Ele a levava para os restaurantes mais caros da cidade, e enviava vestidos, sapatos e colares dos mais variados tipos, para que ela usasse em seus encontros, enquanto uma orquestra particular tocava para eles uma serenata. Era tudo perfeito. Mas alguma coisa aconteceu, e Gabriel ficou diferente. Ele passou a reclamar dos gastos, e fazia pregações diariamente, tentando encaixar Jesus em suas vidas. Era como se Jesus jogasse água na paixão toda vez que ela esquentava. Alice então rezou. Rezou muito para que Deus a poupasse de mais uma desilusão, e prometeu jogar São Pedro no lixo, até que

Alice conheceu Adamastor e se apaixonou. Adamastor, de feio, só tinha o nome. Ele parecia um Deus grego, um galã de novela recém saído da revista caras. Era o sonho de qualquer mulher, e era uma máquina na cama – e na mesa, no chão, na parede, no balcão, e etecetra e tal. Era tudo perfeito. Mas alguma coisa aconteceu: Adamastor conheceu Gabriel e se converteu. Agora não tinha mais sexo, nem abraço e nem mesmo beijo, porque ele estava em fase de purificação. Era como se a paixão tivesse sido enviada para queimar no fogo do inferno por algum pecado que cometeu. Alice então ficou irada. Ficou irada e abandonada, enchendo a cara de cachaça e vomitando pela casa, mas prometeu que assim o porre acabasse, entraria num convento. Até que

Alice conheceu Penélope, irmã de Renato, ex-namorada de Paulo, vizinha de José, da igreja de Gabriel e conhecida de Adamastor. Penélope era feia e chata: tinha cabelo estirado, dentes tortos, barriga de cerveja, hálito de cigarro e papo de gente bêbada. Mas Alice se apaixonou.

1 de dezembro de 2009

[a]Margarida

Margarida era a moça mais bonita que meus olhos tiveram o prazer de ver. Pra falar a verdade, depois que eu a vi, aquele dia na padaria, todas as outras moças me pareciam feias e sem graça nenhuma. Margarida não, Margarida tinha graça de sobra. Acho que Deus deu a graça de umas vinte pessoas só a Margarida, e, por isso, por onde ela plantava sorrisos, ela colhia suspiros. Pelo menos comigo era assim. Eu lembro que até esqueci de respirar uma vez, quando a vi se inclinar sobre o balcão para pedir dez pães francês ao padeiro. Aquela voz de veludo, a forma como ela unia os lábios para falar “pão”, era a melhor música do mundo pra mim. Ah, como eu queria que ela falasse “pão” no meu ouvido! Eu queria ter falado com ela, mas quando ela passou por mim, abraçando aquele saco de papel, eu esqueci também como se falava, só pensava em como eu queria ser um saco de papel.

Depois daquele dia, eu virei o maior comprador de pão daquela padaria, que nem era perto da minha casa. Eu tinha entrado lá por acaso, pra me esconder do meu irmão mais velho, que queria bater em mim. Meu irmão mais velho sempre batia em mim para aliviar as tensões, e ele estava bem tenso naquela semana, porque – eu descobri ouvindo ele falar no telefone – ia ter um encontro com uma menina linda. Sorte a minha que ele não me alcançou, porque assim eu pude ver Margarida, o que se tornou um ritual para mim. Todo dia eu ia vê-la, não importava o que eu estivesse fazendo.

Mas um dia ela não apareceu na padaria. Eu fiquei esperando a tarde toda, porque era comum ela se atrasar, mas foi em vão. A padaria fechou sem que Margarida comprasse pão, e foi como uma noite sem estrelas pra mim. Cheguei em casa cabisbaixo, borocoxô que só eu, quando ouvi um grito vindo do andar de cima.

“Por favor, pare, por favor” Eu ouvi alguém gritando, e soube imediatamente de quem se tratava. Eu não podia estar enganado, porque eu sempre sonhava com Margarida sussurrando palavras começadas em “P” no meu ouvido. Era ela. Eu larguei a mochila no chão e subi as escadas correndo, correndo muito, como se minha vida dependesse daquilo. Mas era tarde demais. Quando eu entrei no quarto, Margarida estava encolhida no chão, com as roupas meio rasgadas, e chorando bem baixinho – quase não dava para ouvir. Eu olhei pra frente e vi meu irmão com mais dois amigos rindo alto e fechando o zíper da calça. Eu não sei o que me deu, mas me subiu uma fúria tão grande, mas tão grande, que eu pensei que fosse matar aqueles três ali mesmo, à abajurzadas (foi o primeiro objeto que eu vi). E, na verdade, eu realmente teria feito isso, se não fosse pequeno e fraco demais. Me odiarei o resto da vida, por não ter conseguido dar a eles a lição que eles mereciam. No final do acontecido, eu também estava encolhido no chão, com a impressão de que meus ovos tinham sido arrancados a dentadas, mas eu chorava alto e soluçava. Ainda assim, chorando e soluçando, eu ajudei Margarida a se levantar. Peguei uma roupa pra ela e liguei pra ambulância, porque o chão tava cheio de sangue.

No outro dia eu fiquei sabendo que ela não estava ferida, e que o sangue não era nada demais. Mas Margarida nunca mais voltou a ser a mesma. Nem eu. Nós nos tornamos amigos, e eu pedi desculpa milhares de vezes, por não ter chegado a tempo. Ela sempre dizia que não tinha sido minha culpa, mas eu sei que foi. Eu sabia que meu irmão ia sair com uma menina linda, e o conhecia bem o bastante para saber o que ele pretendia, mas eu fui omisso e não fiz nada. Eu simplesmente pensei “coitada dessa menina linda que vai sair com ele”, e não fiz nada. Nada, nada, nada.

Agora Margarida não planta mais sorrisos, nem vai mais a padaria. Margarida agora passa os dias em casa, assistindo televisão, fazendo costura. Ela engordou, entristeceu, nunca casou. Margarida perdeu a graça, caiu em desgraça. E ninguém nem lembra dela, de como ela costumava ser, apenas reclamam dela ser amarga e rabugenta, e de não deixar as crianças brincarem em seu quintal. Agora Margarida só tem a mim. Eu, que olho pra ela e vejo, no fundo dos olhos, aquela moça bonita que ganhou meu coração comprando pão.

26 de novembro de 2009

Caindo

Aquele dia estava sendo realmente ruim. Um dia realmente ruim entre uma seqüência de dias realmente ruins. Na verdade, ele não lembrava a última vez que seu dia fora somente ruim.
Chovia um pouco. O trânsito estava parado na avenida, mas ele não se preocupava com isso, pois seu carro fora tomado na semana anterior para quitar algumas dívidas. Sua casa também fora hipotecada e estava por um fio. Ele tinha sido recusado em mais uma entrevista de emprego, enquanto seus antigos amigos estavam casados e bem sucedidos. Seu pai não telefonava há meses, parecia estar decepcionado demais com a ruína do único filho. Sua única namorada fugira com seu primo de segundo grau e o deixara só, mas – de certa forma – ele estava contente por não ter filhos - não queria mesmo propagar sua espécie fracassada.
Sufocado pelas paredes, ele decidiu que precisava de ar fresco. Saiu de casa, ignorando o rapaz de macacão azul que viera cortar a luz, e saiu pela calçada. Há muito tempo já perdera sua verdadeira luz. E há muito tempo perdera também qualquer estímulo para continuar vivendo.
Ele olhou em volta.
E seguiu em frente.
Olhou para os carros, as vitrines, os semáforos.
E seguiu em frente.
Olhou para as pessoas na rua, caminhando alegremente.
E seguiu em frente.
Olhou para casais, amigos, famílias.
E viu como estava tão só.
Foi aí que tudo veio à tona – toda sua dor. Lembrou-se do pai gritando, chamando-o de moleque inútil. Lembrou do seu primeiro F. Da primeira vez que se declarou a uma garota e levou um fora. Lembrou da primeira vez que seu currículo foi devolvido. E perdeu a conta, ao tentar lembrar-se de quantas vezes esse ciclo se repetiu. Ele percebeu que estava cansado de perder. Estava cansado de todo aquele sofrimento. Estava cansado do peso que era carregar a própria existência nas costas, sem nunca receber nada – de bom – em troca. Ele percebeu que estava cansado demais para continuar seguindo em frente.
Inconscientemente, chegou ao prédio da Faculdade (onde havia se formado). A cada andar que subia, tinha mais certeza de que queria acabar de uma vez com tudo.
Ele chegou na cobertura, caminhou até a borda.
E depois caiu...
 - Não é bonito?
Ele se virou.
- Como?
- O arco-íris. Não é bonito?
E olhou pra menina que apontava para frente.
- E as árvores? Nem parece que são tantas, lá de baixo. Você não acha esse lugar agradável? Gosto de sentir o vento... E de ver as árvores, é claro. Parece um mar verde, não parece? Verde é uma linda cor. A minha preferida.
- Verde?

- Ah, e veja só o céu... Não parece um mar de cabeça pra baixo? Tudo pode parecer mar. E o azul é tão tranqüilo... Azul é definitivamente a minha cor favorita.
- Azul? Mas...
- É verdade, eu disse que era verde. Mas quer saber? Gosto das duas.
Ela sorriu, e só então ele percebeu que não tinha caído. Tinha apenas olhado pra baixo e imaginado a queda. Esquecera, entretanto, de olhar também o arco-íris, e as árvores, e o céu. Esquecera de sentir o vento. E esquecera até mesmo de olhar em volta para se certificar que não tinha mais ninguém.
De repente ele resolveu olhar pro passado também. O que mais havia deixado de olhar?
E ele viu seu pai ensinando a jogar futebol. Viu a satisfação no rosto da sua mãe quando ele tirou aquele B sofrido no colegial. Viu seu professor aplaudi-lo pelas costas em sua formatura. Viu sua primeira paixão lhe sorrindo. Viu-se entre amigos, jogando conversa fora...
- Porque você não sai daí? Eu sei que a vista é melhor, mas é bem perigoso.
Ele segurou forte a mão que ela estendeu.
E depois seguiram em frente - juntos.

2 de novembro de 2009

Choveu

Quando o céu escureceu, encoberto por uma espessa camada de nuvens cinza, ele adorou. A chuva era a única coisa que ainda o fazia sentir realmente feliz. Havia algo sobre o cheiro de terra molhada. Havia algo na melodia suave das gotículas de água cortando o vento, beijando o chão. Tudo parecia tão limpo depois da chuva... As monções eram uma das poucas boas lembranças de sua infância. Sua mãe fazia seu prato preferido, seu pai voltava mais cedo pra casa, e o telhado sussurrava canções de ninar a noite inteira. A vida era boa quando chovia. Ele sempre tinha vontade de sair e dançar da chuva, mas era difícil faze-lo, devido ao excesso de proteção em casa. A primeira vez que ele havia dançado na chuva foi – quando estava longe de casa – jogando futebol com os amigos. Definitivamente, a chuva tinha dado a ele os momentos mais memoráveis de sua vida.

Estava chovendo agora. Ele estava sozinho em sua casa – um homem de setenta anos –, sua esposa morrera há vinte anos. Ele a amava muito, mas o destino o traíra – ao leva-la em um acidente cruel. Seu filho estava ocupado demais com sua própria vida para se preocupar muito com um homem mimado de idade, quiçá para pensar em visitá-lo. Ele tinha cansado da vida da cidade e havia se mudado para o campo logo após a aposentadoria. Tinha amigos lá – desde infância. Um deles tinha cansado (ao contrario dele) das colinas, por isso se ofereceu para lhe vender a casa. Era um bangalô calmo – com vista para um pomar de laranja. Ele tinha se apaixonado pela casa a primeira vista e tinha comprado. Além disso, chovia muito por ali...

Era seu aniversário – ele tinha virado um setenta. O cozinheiro (um homem cuja família inteira tinha vindo a servir às gerações da família do velho) tinha preparado sua comida preferida (o cozinheiro era bom, mas não tão bom quanto sua mãe), mas não o fez companhia no jantar. Após a – solitária – refeição, o velho saiu de casa. Foi sentar-se na varanda. O sol se põe cedo nas montanhas, por isso já estava escuro, e o céu começava a se derramar sobre a grama. Ele olhou para as nuvens com um sorriso nos lábios – como quem agradecia pelo presente – e começou a olhar para trás, para sua vida. Ele tinha sido bem sucedido – de fato, muito bem sucedido. Um estudante brilhante, um trabalhador assalariado – muito respeitado – para, em seguida, abrir seu próprio negócio e receber elogios em toda parte. Costumavam falar dele como “o homem com o toque de ouro” –, ele podia transformar quase todo negócio falido em um negócio lucrativo. Mas a morte de sua esposa mudou tudo isso. Ele perdeu o seu toque. Ele perdeu o entusiasmo pela vida, perdeu sua autoconfiança e começou a desistir do seu trabalho. Foi muito irônico: o homem que tinha tudo, perdeu tudo. Dizem que ele foi para o campo para fugir do que perdera – dos fantasmas dele.

As gotinhas continuavam a bater, sem tréguas, contra o gramado a sua frente. Ele olhou-as com um espanto repentino: aquilo era sobre viver em ciclos. A água descia, evaporava, subia, depois descia novamente. Ele fez uma pausa para pensar – “essas gotas nunca se cansam?”.

Uma tempestade estava chegando (ele podia sentir em seus ossos), e o cozinheiro o tinha alertado sobre ficar fora até tarde – mas o velho era persistente. Ele estava indo sentar-se na chuva. Na chuva, que fora uma segunda mãe pra ele.

O vento uivava. O velho tinha deslizado lentamente para o sono, e agora sonhava. Sonhava com sua esposa. Ela estava lá fora, na chuva, chamando-lhe com um sorriso no rosto. Ele queria chegar até ela, mas não conseguia. Ele estava tentando uma e outra vez – mas suas mãos estavam fora de alcance. Seu olhar lentamente mudou para um de desânimo. Não podia suportar perdê-la novamente. Ele fez outra tentativa – de alguma forma, desta vez, ele conseguiu romper a barreira que o puxava de volta e segurou a mão dela. Ela não falava nenhuma palavra – seu sorriso dizia tudo. Ele olhou para o céu e teve a impressão de que as nuvens estavam sorrindo para ele também. Tudo ao seu redor era feliz, e o júbilo invadiu suas feições – outrora desanimadas.

O cozinheiro encontrou seu corpo na manhã seguinte. Ele ainda estava na varanda. Seu corpo estava duro e frio. Seus olhos estavam fechados. Ele tinha partido durante o sono –, pensou o cozinheiro. Mas havia algo estranho em seu rosto. O que era? Sim, tinha que ser aquele sorriso. Era tão extraordinário...

20 de outubro de 2009

Beatriz

Beatriz tinha um marido. Um marido bonito, robusto, de aparência muito imponente. Era Benedito, mais conhecido como “bendito Benedito" pelas outras mulheres de bairro.
Embora tivesse um bom coração, Benedito ainda era um homem rude e antiquado, com costumes bastante ultrapassados.
Benedito não deixava Beatriz trabalhar. Para ele, lugar de mulher era em casa, cuidando do fogão e cuidando dos filhos. Mas ele não se importava que Beatriz não pudesse ter filhos (retirara o útero por engano, numa cirurgia de varizes); para ele isso era até bom, pois sobrava tempo para ela lhe fazer massagens quando chegava cansado do trabalho.
Entretanto, Benedito era um ótimo marido. Não passava um dia sequer, sem que ele enviasse flores à sua esposa. Ele a levava ao parque, ao teatro, ao mercado, e a qualquer outro lugar que ela desejasse – desde que com ele. Às vezes também saiam para dançar, e tudo que se ouvia eram suspiros das mulheres que sonhavam estar no lugar de Beatriz. Benedito era um pé de valsa, e até as melhores amigas de Beatriz já haviam tentado rodar com ele uma ou duas vezes. Tentavam em vão, é verdade, porque Benedito só tinha olhos (mãos e pés) para a sua adorada.
Mas Beatriz andava insatisfeita. Sabia que tinha tudo para ser uma mulher muito feliz, mas sentia-se sufocada pelo amor super protetor de Benedito. Ela queria trabalhar, queria sair sozinha e usar minissaia como as outras moças da cidade. Casara-se muito cedo, por desejo de seu pai – que não queria arriscar a dignidade da filha –, e ficara muito animada ao ver que seu noivo era Benedito. Ela, que estava num fogo brabo desde que Rosinha lhe contara sobre a lua de mel, quis logo adiantar os preparativos do casório. Casaram e pronto, foi uma grande festa. Viajaram para uma cidadezinha bonita, no interior de Pernambuco. A cidade não tinha nada especial, mas o hotel era uma beleza, e o casal voltou numa felicidade só. Só que a felicidade fora embora assim como chegara: de repente.
Ninguém entendia porque Beatriz insistia em dizer que estava cansada daquela vida. Mas Beatriz tinha seus motivos. Antes de casar com Benedito, ela era sempre o centro das atenções. A moça mais bonita do bairro, a aluna mais inteligente da sala, a melhor dançarina do clube, a jóia rara dos pais... Agora ela era apenas a mulher de Benedito. Até sua mãe vivia se exibindo por causa do genro.
Outro dia, quando passava na rua, com Benedito, Beatriz ouviu duas amigas (que costumavam ser suas amigas também) conversando:
– A Beatriz é mesmo muito sortuda!
– Que Beatriz?
– Aquela, que casou com Benedito...
Ela ficou tão triste que passou o resto do dia pensando em uma forma de recuperar a sua identidade. Pensou em fugir com o circo, ter um caso com o jardineiro da vizinha, andar pelada na rua... Mas todas essas coisas seriam rapidamente esquecidas. Nada que fizesse poderia enturvar a imagem perfeita que Benedito tinha. Foi então que Beatriz soube o que precisava ser feito. E durante a noite, ela sufocou Benedito com um travesseiro.
A mãe de Beatriz nunca mais falou com ela, o pai de Beatriz pagou um médico para dizer que Benedito morrera de infarto – a vizinhança custou a acreditar que Benedito, aquele moço tão bonito e saudável fosse morrer assim do nada, mas depois de um tempo parou de comentar. Beatriz nunca encontrou outro marido, e as mulheres que cobiçavam Benedito agora estavam casadas e com filhos.
Mas, num dia desses, Beatriz ouviu duas amigas (que costumavam ser suas amigas também) conversando:
– Lembra de Beatriz?
– Que Beatriz?
– Aquela, que matou Benedito...


Nota de agradecimentos: ao (meu) César, por dizer pra Dora matar Benedito, ao Charlie, por mudar o nome de Dora pra Beatriz, e a Marina pelo "fogo brabo". Pra mais sugestões, usem os comentários.

26 de setembro de 2009

Triângulo amoroso

João amava Maria que amava Pedro que amava Maria também.
João morreu afogado
Pedro teve um infarto.
João doou o coração para Pedro
E foram todos felizes
Maria, Pedro e João.

12 de setembro de 2009

Amor de pedra

– Diga, dona pedra, tua vida não é muito monótona? Como tu consegues viver sempre parada e calada? Não te dói não poder dizer "eu te amo"?

– Minha querida, ser pedra é muito difícil, mas monótono não. Às vezes sentam em mim, às vezes me chutam pra longe, às vezes até me jogam no rio só p'ra ver a água espirrar. Mas a cada um é dada a habilidade que o compete. Por isso eu sou dura, forte e quase inquebrável, para que eu possa suportar tudo isso e ainda alicerçar o chão daqueles que eu amo, sem deixá-lo ceder jamais. Portanto, eu não preciso dizer "eu te amo" a ninguém. Vivo apenas a acreditar e esperar que meus amores saibam que estou sempre a zelar por eles - daqui do meu lugar, aqui no meu silêncio.

7 de setembro de 2009

abajur.

A noite engolira o dia tão rápido que parecia que o sol saíra fugido de alguém. Num minuto estava ali, noutro não estava mais. A tarde tivera morte súbita - simplesmente desbotou.
Os postes todos se acenderam, então. As lâmpadas incandescentes atraíram mariposas, que permaneceriam a voar em círculos incansavelmente. O que querem as mariposas? Perguntei-me apenas por perguntar [a resposta não era importante].
Mas a fome da noite é grande, e não satisfeita com o dia, passou a engolir as praças, os bancos, os carros, as gentes e, por fim, os postes. Restou apenas eu e as mariposas, correndo atrás da lua.

Pessoas, mariposas, todos querem a mesma coisa: luz - mesmo que seja apenas uma no fim do túnel.

11 de agosto de 2009

Raimundo

Podia ser João, José ou Roberto; mas olhando pra ele, acho que é Raimundo. Os olhos são sagazes, embora transmitam cansaço e pesar. Os pés, descalços, estão cheios de calos; e eu me pergunto por quanto asfalto quente ele já não caminhou.

Eu gostaria de saber da história de Raimundo, mas não tendo coragem de perguntar, eu invento. Não que eu tenha medo dele, dele não; tenho medo de descobrir que ele está aqui porque matou alguém e fugiu pra não ser preso - ou qualquer coisa do tipo. Tenho medo de descobrir que toda essa penúria é conseqüência de uma única escolha errada, cuja responsabilidade cabe apenas a ele. Tudo fica mais difícil, se não podemos culpar ninguém. E pra que deixar as coisas ainda mais difíceis do que já são?
Por isso, eu gosto de inventar. Olho pra Seu Raimundo e penso que ele está esperando alguém. Um grande amor, talvez. E ele está com medo de que ela apareça justo quando ele for embora. E, temendo, fica sempre aqui, nessa praça, debaixo de chuva e sol. Sem reclamar.
Enquanto espera, Raimundo também inventa histórias. Quando chove, ele inventa que Luísa - Luísa parece um bom nome para um grande amor - está presa por causa da enchente. Quando faz sol, é culpa do carro que quebrou no meio da estrada e está difícil de consertar.
Raimundo às vezes chora, quando não tem ninguém passando. É a tristeza de pensar que talvez Luísa tenha sido mordida pelo bicho da morte. É, pra Raimundo a morte é que nem bicho; uma fera traiçoeira, perversa, que fareja o medo à quilômetros de distância. Por isso, quando bate aquele aperto no peito, ele volta os olhos pro firmamento e pede força pra enfrentar a fera e suas crias: a fome, o frio, a doença, e ela, a filha preferida da morte - a desistência.
E assim Raimundo vai vivendo. Quando os pés doem demais, ele deita e fica olhando pro céu [ele prefere fazer isso a noite, quando há um milhão de estrelas brilhando para ele, igualzinho aos olhos de sua amada]. Quando a fome aperta, ele pede uma ajuda. E quando é a saúde que balança, ele bebe das lágrimas de algum Deus complacente, que caem sobre ele disfarçadas de chuva. No frio, ele imagina os braços de Luísa à sua volta, e como mágica, o sangue se aquece, e a pele é chaminé para o calor da esperança, que se renova sempre pra que ele não desista nunca.

Boa sorte, Raimundo. Boa fé.

14 de junho de 2009

Do sexto andar.

O vento leste soprava forte na orla. Um sopro gélido, perdido no mormaço habitual da cidade; no calor que irradiava do asfalto para o corpo dos que passavam correndo, para a vida, que comemorava o nascer de mais um dia.
Em algum lugar perto dali, ouvindo o som das ondas que iam e vinham [incansáveis], Zeca ensaiava um sorriso no espelho. Chegara enfim o dia em que declararia seu amor; o dia em que revelaria à Isabela o quanto seu corpo regia apenas com o rastro de perfume que ela deixava no elevador. Ele costumava inspirar todo aquele ar de uma só vez, e prendia-o em seus pulmões pelo maior tempo possível, imaginando que, de alguma forma, aquilo pudesse aproximá-los. Entretanto, daquela manhã em diante, Zeca esperava não ter mais que contentar-se com o ar viciado do elevador - ele queria mais. Queria poder respirá-la de pertinho, sentindo em si as vibrações do ar que passaria dela pra ele, num interminável fluxo de sensações. Ele queria beijar-lhe o pescoço e divagar pelas trilhas que seus lábios percorreriam até explorar-lhe todo o corpo. Ah, Zeca sonhara tanto com este momento, e agora, há instantes de seu triunfo, encontrava-se paralisado, pateticamente estático, ensaiando sorrisos.
Com um longo suspiro, o rapaz dirigiu-se à cozinha. Necessitava de um facilitador, um incentivo; algo que lhe proporcionasse toda a coragem que passara meses reunindo, mas que ainda não dispunha. Abriu a geladeira e retirou uma garrafa meio cheia de Uísque. Serviu-se de uma pequena dose e, em seguida, de outra.
Com o copo na mão, caminhou até a varanda. Ajeitou na parede o velho quadro de mosaico, que estava inclinado; e, de repente, cada fragmento de vidro [colorido] refletia a imagem desejada de Isabela. Ele desviou o olhar o apartamento dela, situado logo ao lado do seu, janela com janela. Odiou-se por amá-la tanto e não ser capaz de dizê-la o quanto. Odiou-se, e odiou-se tanto, que quis jogar-se lá de cima – do sexto andar – só para não ter que se odiar mais. No entanto, uma canção distante o impediu. Era uma sinfonia natural; vento, mar e sol, todos entoando uma cantiga suave, que lhe acalmou o coração. Seus olhos então correram pelo calçadão, pelas árvores, pelos ladrilhos do chão... e depois repousaram sobre um casal sorridente, que se beijava ao sabor daquela melodia.
Zeca então sorriu. Um pouco pra si, um pouco pra ninguém. Sorriu e jogou uma pequena pedra na janela de Isabela. Ele agora tinha coragem.

22 de março de 2009

Homem fiel

Ele estava completamente concentrado em seus relatórios diários quando bateram à porta. Parou por um instante, elevando um pouco o queixo, depois voltou a escrever.
Novamente, bateram à porta.
– Senhor, posso entrar?
Era uma voz feminina, quase sensual. Melíflua, parecia que deslizava nos ouvidos dele. A famosa voz de travesseiro, que, como se feita de pluma, se abraça com o vento e fica dando voltas e voltas até finalmente cair (ou sumir – como um sussurro).
Mesmo sentindo-se tentado, ele se limitou a um “uhum”. Não tinha tempo para comportamentos adolescentes, apesar de sentir-se altamente excitado com a idéia de ter um caso com sua belíssima secretária. Além do mais, era um homem casado, não deveria prestar-se àqueles pensamentos infames.
Ela entrou na sala. Usava uma saia justa – na altura do joelho – e um suéter carmesim. Tinha os cabelos presos, mas alguns fios escapavam ao penteado, emoldurando-lhe o bonito rosto, contemplado com um par de belos olhos verdes. Um semblante impecável, não fossem as olheiras escuras abaixo dos olhos e o nariz levemente corado, como quem andou chorando.
Entretanto, apesar da aparência estonteante da mulher e do impulso devastador de oferecer-lhe algum consolo, ele continuou concentrado na papelada sobre a escrivaninha... Precisava se controlar.
– Senhor, é a terceira vez que sua esposa liga. Ela parecia angustiada... Você não deveria atender a ligação?
– Não. Ela sabe que não deve me incomodar durante o trabalho.
– Mas senhor, parece ser muito importante.
– Pois diga a ela que resolveremos tudo quando eu chegar em casa.
– Mas o senhor sempre chega muito cansado em casa, e acaba dormindo durante as discussões.
– Isso não é de todo verdade. – ele disse, sem desviar a atenção dos papeis, resistindo à atração quase magnética que o decote dela exercia sobre seus olhos. – Me sirva um pouco de café, por favor.
– Realmente, é uma verdade incompleta. O Senhor dorme durante o sexo também! – ela acusou, enquanto enchia um copo na máquina de café expresso.
– Mas isso é um absurdo! Não vou discutir minha vida sexual com minha secretária.
– E sua esposa.
– O que disse?
– Sua secretária e esposa.
Ele olhou-a por cima do copo, com uma sobrancelha arqueada. Parecia furioso.
– Onde você quer chegar? Nós já combinamos que aqui eu sou apenas o seu patrão, e como tal, mereço seu respeito integral. Não posso tolerar esse tipo de comportamento, entendeu?
– Pois eu me demito!
– Está bem. Esse é seu aviso prévio? Quando pretende deixar a empresa?
– Você não entendeu, eu me demito como sua esposa!
O homem pareceu chocado ao ouvi-la, e suas feições passaram por uma seqüência de cores e expressões, entre vermelho-raiva, roxo-indignação e cinza-tristeza.
– Se é o que você quer... Mande seu advogado falar comigo mais tarde para resolvermos a questão do divorcio. Pode ir.
Ela sentiu um aperto na garganta, os olhos ficaram embaçados; a voz saiu embargada de um choro iminente, contido pelo orgulho.
– Sim senhor. Eu... – como não pudesse completar, ela simplesmente deu-lhe as costas para se retirar, mas ele a impediu.
– Espere! - chamou. - Eu e a minha esposa, nós já estamos tecnicamente separados, não é?
– Sim. Você está completamente livre, se é isso que quer saber.
E então um braço forte a envolveu de repente, e seu corpo chocou-se com o corpo másculo do homem, agora de pé à sua frente. Ele ofegava, e ela sentiu uma onda de calor subir por seu corpo quando as mãos dele pousaram-se bruscamente sobre suas pernas, e suas bocas encaixaram-se num beijo faminto, cheio de desejo.

2 de março de 2009

A primeira vista

– Posso me sentar aqui?
A moça de grandes olhos fitou-o por segundos, mas a ele os segundos pareceram se prolongar por uma, duas, quem sabe três horas. Os olhos dela eram como dois imensos buracos negros; tragavam-no e transportavam-no para outra dimensão, onde ele mandava e o tempo atendia.
Embaraçada, ela desviou o olhar e sorriu um sorriso tímido.
Ele se sentou.
– Você tem belos olhos. – e disse se inclinando sobre a mesa, aproximando um pouco mais o rosto do dela. Ela se afastou um pouquinho, o sorriso tímido se alargou, as bochechas, outrora alvas como papel, tornaram-se rubras e quentes.
– Você vem sempre aqui, não é? – ele continuou a falar – oh, por favor, não pense que essa é uma daquelas cantadas baratas. Eu disse isso porque sempre a vejo por aqui, sentada nessa mesma cadeira. Essa não foi a primeira vez que quis me sentar contigo, na verdade, todos os dias eu ensaio palavras pra lhe dizer, fico inventando pretextos para chegar mais perto, qualquer coisa para puxar assunto; até pensei naquele velho truque de esbarrar... mas toda vez que eu lhe via, eu pedia a coragem. Não sei, acho que é esse seu jeito de olhar, que parece que tá me vendo por dentro, que parece que eu to sem roupa, sem pele, se nada; parece que sou apenas um coração acelerado sobre duas pernas trêmulas, falando compulsivamente a cada batimento. Eu sei, você deve está me achando um grande idiota, talvez até esteja prendendo o riso agora, mas eu não me importo; porque eu sou mesmo um grande idiota, mas sou um idiota apaixonado. Sim, você vai dizer que sou muito precipitado, que a gente nem se conhece... mas não é verdade! Eu acredito em amor à primeira vista, sempre acreditei. Aliás, você é meu amor à primeira, segunda, terceira, quarta vista! E será sempre o meu amor, não importa quantas vezes eu a veja.
Houve um silêncio.
Ela se inclinou sobre a mesa, igualzinho a ele, deu-lhe um beijo na boca e foi embora.
E ele ficou lá na cadeira, olhando ela se afastar.
– Você viu? Ela me beijou! Ela me beijou! Acha que ela vai considerar o que eu disse? – perguntou à garçonete, que retirava a xícara meio-cheia que a moça esquecera. Ele estava em estado de êxtase.
– Aquela moça surda? Acho que não.

9 de fevereiro de 2009

Conversação

— Qual o melhor dia para morrer?
— Que papo fúnebre...
— É, ando meio assim.
— Porque?
— Não sei porquê. Qual o melhor dia para morrer?
— Não existe melhor dia para morrer.
— Como não?
— Não existe um dia bom para coisas ruins.
— Você gosta de ir ao médico?
— Não.
— Você vai?
— Vou.
— Qual o melhor dia para ir ao médico?
— Quando estou doente.
— Hm...
— O que?
— Não seria bom se um médico pudesse diagnosticar a morte?
— Não.
— Como não? Poderíamos fazer aquelas coisas que não fazemos por medo, ou por conveniência, ou mesmo por comodismo.
— Não precisamos estar morrendo para fazer essas coisas.
— Mas se fizermos vivos, podemos nos arrepender.
— Quem garante que não há arrependimento pós-morte?
— Hm...
— O que agora?
— Nada, estou só pensando no que você disse.
— Sobre o arrependimento pós-morte?
— Não, sobre fazer as coisas...
— Que coisas você gostaria de fazer?
— Não posso dizer.
— Porque?
— Eu perderia a coragem.
— Então não diga, faça.

[...]

— Você me beijou.
— Você disse para eu fazer.

[...]

— Você também me beijou.
— Foi...
— Você se arrependeu?
— Não.
— Que bom que não estou morrendo.

15 de janeiro de 2009

Apenas mais uma de amor.

Era uma sala pequena, mas a tintura branquíssima emprestava ao âmbito uma amplidão e uma placidez que não condiziam ao local. Quanto desespero já não se passara entre as paredes daquele hospital? Perguntava-se uma jovenzinha pálida de cabelos extremamente vermelhos, cujas pequeninas mãos repousavam sobre um livro de capa grossa e chamativa. Era um romance épico. Anastácia sorria para si mesma, imaginando em como os sentimentos eram intensos naquele tempo — ou pelo menos em como os artistas acreditavam nisso. Acreditar é o primeiro passo para conquistar, dizia ela ao seu irmão mais velho, quando ele demonstrava laivos de desapontamento para com a vida. Mas não era verdade? As pessoas morriam por amor, porque acreditavam em sua força. Agora, entretanto, morriam apenas por desastres, acidentes, homicídios ou mesmo suicídios. Tão triste, pensava ela. O sorriso em seu gosto parecia que ia se esvaindo aos poucos, enquanto os olhos dela se embebiam da agonia daquelas pessoas que, estando numa mesma sala, sequer pensavam em compartilhar sua dor uns com os outros. Todos fechados em seus casulos, ocupados demais com suas próprias amarguras.
Anastácia relanceou os olhos, e suas íris esmeralda recaíram novamente sobre o livro. Abriu-o. Folheou-o. Naquelas palavras encontrava o alento que a realidade não oferecia. E que seus pés, impossibilitados de se moverem, não podiam partir em busca.
Somente quando o som de ranger da porta se propagou pelas paredes da sala, Anastácia retornou a realidade. Esboçava um sorriso sereno nos lábios, um ar de quem desperta de um sonho bom e faz uma prece silenciosa para que seja verdade.
Estivera em Roma, na Era em que homens enfrentavam leões para provarem seu amor. E Havia um rapaz: Benjamim Lourenço, o nome dele. Integrava o exercito de Marco Aurélio, um dos melhores cavaleiros, e acabara de regressar de uma guerra sangrenta contra os Germanos.
Agora ele estava indo de encontro à sua secreta e amada Juliett, filha do imperador. Uma paixão proibida, certamente. Mas quando há amor verdadeiro, uma faísca transforma-se em fogaréu intenso num conciso piscar de olhos; e quando menos se espera, já não se ouve mais a voz da razão ou do bom senso, apenas as batidas violentas de um coração aflito de tanta saudade.
Ele cruzou, em passos céleres, a grande multidão que festejava a volta vitoriosa dos cavaleiros de Roma. Havia uma imensa profusão de danças e bebidas; as mulheres felizes por seus maridos terem voltado em paz da guerra. Das que os haviam perdido, entretanto, pouco se lembrava. Mesmo naquele tempo, a alegria da maioria já ofuscava a tristeza dos poucos; dos parcos e opacos eremitas.
Quando Benjamim transpôs os portões, estava a sorrir. Era um homem jovem e bonito, de tez trigueira, olhos negros como a noite que os acobertava quando fugiam para verem, juntos, a lua se posicionar no ponto mais alto do céu. Grande céu. Sendo ele (o céu) tão extenso, como as estrelas não se perdem? Indagava Juliett a si mesma, debruçada na janela, a esperar seu amado e amante, seu guerreiro e herói, ou, somente, seu querido Ben.
Ela olhou-o se aproximar pelos jardins. E como eram lindos os jardins! Flores de todas as qualidades e cores; rosas, heliotrópios, lírios grandes e pequenos. Uma imensidão verdejante circundando o palácio colossal, erguido em mármore, coberto de hera.
Benjamim se aproximou mais dos muros do palácio. Era o momento em que Juliett — enrolando os cabelos nas pontas dos dedos — sorri-lo-ia com suas feições de anjo, e confessaria ter orado todas as noites por sua volta. Anastácia sabia porque já lera aquele mesmo livro outras nove vezes (não possuía dinheiro para novos); em cada uma delas, imaginava novos detalhes no cenário, nas expressões, nas palavras... Era como se pudesse mergulhar mais profundamente nas páginas, se as folheasse o bastante. Mas, naquele momento, parara de folhear. O ranger da porta parecia ter se introduzido no curso da história, sobrepujando todos os outros sons.
Anastácia fechou o livro, acariciando delicadamente a capa, e meneou a cabeça na direção da porta.
Foi imediata, sua reação. Seus olhinhos verdes se estreitaram um pouco, ela pestanejou descrente. O insubstancial cheiro de flores que ainda respirava fora substituído por um cheiro amargo e agressivo de óleo dísel. Mas em despeito à drástica mudança de aromas, ela sorveu longos haustos de ar: era bom. Era como se sentisse o cheiro peculiar dos cavalos de Benjamim, aquela mistura entre suor e pólvora que era estranhamente entopercente, como um vício que não se quer largar. A surpresa maior veio em seguida, entretanto. Um homem fora o causador do ranger, ele adentrou a sala de espera apoiando-se das paredes. A camisa dele estava manchada de sangue na altura do ombro, e as mãos pareciam trêmulas e sem força. Quando Anastácia fitou-lhe o rosto pálido (de quem perdera muito sangue), sobressaltou-se. Aqueles olhos, tão escuros e profundos que mais pareciam buracos negros, eram embaraçosamente familiares, a pele morena, naturalmente bronzeada e castigada pelo sol; tudo e cada mínimo detalhe era igualmente belo e hipnotizante, como Benjamim na história.
Anastácia, por curiosidade ou preocupação, deteve-se naquela figura por alguns instantes. Criara um homem no recôndito dos seus pensamentos e agora ele estava ali, à sua frente, cambaleando para junto de si.
Quis ajudá-lo, mas não havia nada que pudesse fazer. Amaldiçoou seus pés inválidos por não poderem levá-la a ele, por privarem-na na honra de apoiá-lo em um dos seus ombros.
— Benjamim! — clamou angustiada, ao vê-lo desabar ao chão, quase tocando seus (amaldiçoados) pés. — Ajudem-no, por favor! — implorou a ninguém em especial.
Mas todos ainda pareciam demasiadamente alheados à realidade para se moverem. Apenas um senhor, já meio encurvado pela idade, ousou se manifestar. Ajoelhou-se diante do homem caído e ergueu-o o máximo que pôde. Um rapaz bem moço também se levantou depois, e, um minuto mais tarde, já havia cinco novas pessoas a ajudar. Postaram o misterioso numa cadeira ao lado de Anastácia. Ela mostrou-lhe os dentes brancos, tocando-lhe suavemente a tez grosseira do rosto dele.
— Do que você me chamou? — a voz dele parecia gorgolejar, quando falava. E ele soltou um suspiro, como se estivesse muito, muito cansando; como se somente falar custasse-lhe um esforço enorme.
— Benjamim.
— É esse o nome que você dá a estranhos? — com os olhos fechados, ele retorceu os lábios num sorriso cheio de dor.
— Não, esse nome é especialmente seu, estranho. Mas agora fique quieto, precisa poupar suas forças. Você levou um tiro? — ao perceber que sua pergunta exigiria dele uma resposta, acrescentou: — ora que tola eu sou, não responda, apenas descanse.
“Benjamim” deve ter achado graça na forma como Anastácia se repreendia, mas não pode sorrir. Engasgou e começou a tossir sangue. Parecia que seus ossos chacoalhavam dentro dele, cada vez que seus pulmões expeliam rajadas de hemorragia interna.
— Por favor, continue falando comigo. — ele implorou com suas últimas forças, e seus olhos se fecharam novamente. Estava mesmo muito, muito cansado.
— Sim, claro. — e se pôs a contá-lo sobre Roma, sobre os cavaleiros destemidos e os leões. Contou-o sobre Benjamim e Juliett, sobre como o amor deles resistira até mesmo a repressão imperial e sobre como os finais felizes deveriam ser reais.
Se ele ouvia, não demonstrava qualquer traço de atenção. Mas ela continuou a falar.

Quem me segue (se perde comigo)