Passional


Permanece nos lábios
O asco de um novo último beijo
Talvez o último dos últimos
Talvez ainda não
Mesmo o primeiro, fora uma vez o último
O último primeiro
O primeiro último beijo
Incerto como tudo em ti

Meus dedos te tocam e não te sentem
Só tu me sentes
[como lava crepitando em tuas veias]
Mas saber do teu prazer me é prazer suficiente
Ainda que não permeie tua alma
Ainda que não transponha a muralha
Que tu ergueste em tua volta
Para que ninguém o faça
Senão ela

Ela que te faz invisível
Quando és na verdade tudo que se vê
Quando estás por toda parte
Tu e teu cheiro entorpecente
[que excita e transmuta meu corpo]

Colônia, suor
Reconheço-te pairando no ar
Adentrando cada um dos meus poros
Impondo sobre mim a tua presença insubistancial
Ora cravada em meu peito
Ora fluindo em minha mente
Que vai minguando devagar
Até saciar-se de pensar em ti

Em teus braços sou somente tua
E até quando nos braços dele
Sou também um pouco tua
Porque quando tu te vais
Sumido dentro da tua retração amarga
Levas contigo um pouco de mim
Que vai se perdendo nos outros seios em que tu te afogas
Nas outras bocas que tu beijas
No conhaque que tu insiste beber

E eu vou ficando vazia
Vazia que mim e de ti
Das vezes que tu não voltas

Do remorso


I
Remói o cérebro
ébrio do tormento etílico
típico do poeta inventado
interpretado no desejo decadente
de ser regente da própria vida
vendida a preço de banana
porque a grana é curta
e o olho é grande.
II
Enfarto fulminante da paz
que jaz na fumaça do fumo
 - consumo que mata
consumindo a fome de morrer
 - cadáver do sossego
no aconchego da mentira
e na mira da verdade.

III
Mordaça na boca da mente
dormente no silêncio
da iminência de falar
e entregar o pensamento mudo
com medo que os ouvidos do mundo
escutem os segredos imundos
entalados na boca do estômago.

Noites de um verão qualquer

Era uma noite escura de verão, quase não havia vento, e o mar dormia tranqüilo, coberto pelo manto negro. Mas algo me tirava o sono. Abri a escotilha para espiar a estrela do norte: ela brilhava no céu de poucas nuvens, olhando por mim como uma protetora silenciosa.
Como não conseguisse dormir, eu subi ao convés. Fingi para mim mesmo que queria apenas ver minha estrela guia mais de perto, mas eu sabia que não era isso. Meu corpo todo se arrepiava apesar da ausência de vento, meu coração batia na ponta dos dedos e minha respiração ofegava sem qualquer motivo aparente. Eu pensei que fosse algum pressentimento ruim; uma tempestade silenciosa que se aproximava, um monstro marinho faminto por minha carne dura. Pensei até em fazer uma prece – nesses momentos, acreditar em Deus parece conveniente –, mas minha atenção foi absorvida pelo canto que me inundou de repente. Era um canto diferente de tudo que eu já tinha ouvido. Não era doce, nem agressivo, nem melodioso, não era sequer afinado, era apenas uma profusão de notas e subnotas, indo e vindo dentro da minha cabeça, como ondas do mar. Era isso. O canto não me adentrou os ouvidos hora nenhuma, ele estava dentro da minha cabeça o tempo todo, feito fosse minha consciência acalentando meu cérebro cansado.
Eu sei o que vocês estão pensando. Eu também pensei que estivesse ficando louco. Não precisava ser grande intelectual pra saber o que aquele canto significava e pra saber que era impossível. Mas impossível é uma palavra abstrata, sem valor algum. Tudo é possível, mas o egocentrismo do homem transformou em mentira tudo aquilo que ele não sabe explicar, nomeou de impossível todas as possibilidades mais fantásticas. Mas eu sei disso agora. Naquela noite eu nada sabia.
O barco foi seguindo um rumo próprio, movimentando-se rápido e só, contra o vento e contra a correnteza, contrariando todas as leis físicas que eu tinha como certas. Eu vi a estrela do norte ficando pra trás e soube imediatamente que deveria fazer algo para impedir. Mas o canto em minha cabeça me chamava, e eu ia como um rato farejando queijo, mesmo ciente de que estava indo direto para a ratoeira. Era uma consciência inconsciente, entende? Não adianta saber das coisas, se não há força para resistir e controlar a situação.
O mar a noite é escuro, nada se vê através das águas negras senão o reflexo da lua. Mas naquela noite sem lua, outro astro tomou seu lugar. Era uma estrela-do-mar, por assim dizer. Uma fada das águas, meio peixe, meio gente. A lenda que todo pescador sonha em encontrar, e estava ali, diante de mim, flutuando sobre as águas. Os cabelos dela eram de uma cor entre marrom e o dourado, a pele era branca feito folha de papel, e os olhos eram notívagos e hipnóticos. Eu a olhei por um minuto – que passou lento como se fosse um ano –, e quando o fiz o canto ficou mais alto e mais claro. Ela estava tentando me dizer algo, embora sua boca nem fizesse menção de se abrir.
“Feche os olhos” Eu a ouvi dizer dentro da minha cabeça. E assim eu fiz. Fechei os olhos pensando que ia ver tudo preto, mas minhas pálpebras pareciam que eram transparentes. Eu estava de olhos fechados, mas continuava a vê-la. Seus cabelos dançavam no vento, e os reflexos nas gotas de água que espirravam em volta dela lembravam confete de carnaval recortado em papel laminado. Eu estava maravilhado, quando percebi que ela se aproximava de mim, mais e mais. Senti que uma escola de samba passava no meu peito, quando os lábios dela tocaram os meus. Tinha o gosto do meu doce preferido, e os cabelos dela, que se enroscaram no meu corpo todo, tinham cheiro de praia. Ela me envolveu naqueles braços finos e eu me entreguei como uma virgem que se submete ao macho impassível.
Acordei estirado na areia, com o sol cegando meus olhos. Meu barco nunca foi encontrado, e ninguém sabe como eu cheguei á costa. Mas eu ainda sinto na boca o gosto do meu doce preferido, e quando fecho os olhos imagino a figura dela, sugando a minha existência para algum paraíso secreto nos sete mares. Sei que jamais a encontrarei novamente. Sereias são promíscuas, se aninham nos braços de qualquer pescador e roubam seus corações para si. Ela ficou com o meu. E eu fiquei apenas com a lembrança de uma noite de verão.
Essa não é mais uma história de pescador. Aconteceu de verdade comigo. Mas eu sei que você não vai acreditar...
"A paixão pode ser avassaladora.
Muitos amores começam logo os gatos saem a noite,
e acabam-se com o canto do cotovia"

Desafio coletivo: um amor de verão.
Leia também as histórias de Pâmela, Maria Fernanda,  
Andrey, Fernanda, Matheus e Alan Félix.

Quer participar também? Escreva e avisa pra gente.

Abiótico

No meu sonho mais lunático
Moro em território desértico
Onde tudo que nasce é de plástico
Onde todo sorriso é sarcástico
E todo amor é hipotético
Porque todo sentimento é bélico
Todo cristão é cético
Todo abraço é sintético
Todo mentiroso é mágico
Todo pagode é clássico
Todo mundo é estético
E o mundo todo é estático
O sexo é prático
O afeto é lógico
O coração é cáustico
Calcificado e analítico
Feito discurso de político
De partido democrático
Que promete ser fantástico
Mas deixa o cenário caótico
Pro povo se tornar mais católico
E ajudar o membro eclesiástico
Que vai ter um encontro orgástico
Com Jesus, o menino simpático
Que tem um pai neurótico
Por querer ser poético
Em território desértico
Onde ninguém é romântico
Onde o trabalho é robótico
O tráfico é público
O preconceito é pudico
O bom-senso séptico
E o anti-séptico é técnico
Consertando o nervo ótico
Pra perder o olhar crítico
E viver no automático.

Variações sobre um mesmo tema

Alice conheceu Renato e se apaixonou. Renato era alto e forte, apesar de meio burro. Mas sua falta de inteligência era compensada pelo romantismo. Ele mandava mensagens no meio da noite, flores no meio da tarde, e a acordava com muitos beijos e muito carinho. Era tudo perfeito. Mas alguma coisa aconteceu e Renato ficou distante. Ele não ligava mais, não mandava mais presentes, até os beijos perderam a intensidade. Era como se a paixão tivesse esfriado e o amor tivesse acabado como o leite em pó de uma lata. Alice então chorou. Chorou tanto, que seu travesseiro mais parecia uma esponja. Ela prometeu que não amaria novamente, até que

Alice conheceu Paulo e se apaixonou. Paulo também era alto, mas era muito magro. Sua falta de músculos, entretanto, era compensada pela alegria contagiante que ele expirava. Com Paulo, mesmo nos dias mais cinzas e mais tristes, havia sempre razão para sorrir. Ele fazia surpresas e a levava ao parque. Eles comiam algodão doce, pipoca, chocolate, maçã-do-amor, e voltavam para casa rindo da imensa vontade que tinham de vomitar um no outro. Era tudo perfeito. Mas alguma coisa aconteceu, e o sorriso de Paulo foi minguando. Ele já não fazia piadas, eles não já não faziam passeios divertidos, nem comiam mais doces juntos. Era como se a paixão tivesse morrido, e o amor se escondido atrás de uma nuvem escura que não chovia nunca. Alice então gritou. Gritou tanto que perdeu a voz, mas prometeu, em silêncio, que não se envolveria com mais ninguém, até que

Alice conheceu José e se apaixonou. José era um rapaz humilde, vindo do interior. Era baixo, meio entroncado, mas tinha força e inteligência. Eles estudavam juntos a tarde inteira, e era tão bom que parecia que tinham passado a tarde fazendo sexo. Era uma espécie de orgasmo mental. Ele tirava todas as dúvidas dela, e quando as notas eram boas, ambos eram recompensados com beijos, abraços e amassos de tirar o fôlego. Era tudo perfeito. Mas alguma coisa aconteceu e José mudou. Ele agora dizia que preferia estudar só, porque aprendia mais; também não tinha paciência para tirar dúvidas, e se não havia notas boas, não havia recompensa. Era como se a paixão tivesse fugido do coração atrofiado pelo crescimento do cérebro. Alice então sofreu. Sofreu dias a fio, mas prometeu que seria a última vez, até que

Alice conheceu Gabriel e se apaixonou. Gabriel era evangélico fanático, andava sempre com a bíblia embaixo do braço. Mas seu dinheiro compensava qualquer infortúnio causado pela promessa de virgindade. Ele a levava para os restaurantes mais caros da cidade, e enviava vestidos, sapatos e colares dos mais variados tipos, para que ela usasse em seus encontros, enquanto uma orquestra particular tocava para eles uma serenata. Era tudo perfeito. Mas alguma coisa aconteceu, e Gabriel ficou diferente. Ele passou a reclamar dos gastos, e fazia pregações diariamente, tentando encaixar Jesus em suas vidas. Era como se Jesus jogasse água na paixão toda vez que ela esquentava. Alice então rezou. Rezou muito para que Deus a poupasse de mais uma desilusão, e prometeu jogar São Pedro no lixo, até que

Alice conheceu Adamastor e se apaixonou. Adamastor, de feio, só tinha o nome. Ele parecia um Deus grego, um galã de novela recém saído da revista caras. Era o sonho de qualquer mulher, e era uma máquina na cama – e na mesa, no chão, na parede, no balcão, e etecetra e tal. Era tudo perfeito. Mas alguma coisa aconteceu: Adamastor conheceu Gabriel e se converteu. Agora não tinha mais sexo, nem abraço e nem mesmo beijo, porque ele estava em fase de purificação. Era como se a paixão tivesse sido enviada para queimar no fogo do inferno por algum pecado que cometeu. Alice então ficou irada. Ficou irada e abandonada, enchendo a cara de cachaça e vomitando pela casa, mas prometeu que assim o porre acabasse, entraria num convento. Até que

Alice conheceu Penélope, irmã de Renato, ex-namorada de Paulo, vizinha de José, da igreja de Gabriel e conhecida de Adamastor. Penélope era feia e chata: tinha cabelo estirado, dentes tortos, barriga de cerveja, hálito de cigarro e papo de gente bêbada. Mas Alice se apaixonou.

Cher Antoine (após o bip)

Encontrei um recado na geladeira
Com sua declaração de amor
A sua secretária me mandou seus beijos
O delivery entregou o escargot
Que eu comi sozinha
Na nossa mesa de seis lugares
Com nossos talheres de prata
Usando um dos novos colares
Que sua mãe escolheu.

Recebi sua mensagem na minha caixa postal
Não se preocupe com a passagem
Vou trocar por uma viagem
De presente de natal
Que vou passar sozinha
Com a nossa árvore montada
Vendo as luzes da escada
Piscarem sobre meu vestido decotado
Que você não vai ver.

Descontei o cheque que você enviou
De aniversário de casamento
O gerente mandou lembranças
Sinto não poder entregá-las pessoalmente
É que eu vou pegar o seu dinheiro
E fugir com o carteiro
Que me come toda quarta
Enquanto eu leio suas cartas
Que algum poeta escreveu.

[a]Margarida

Margarida era a moça mais bonita que meus olhos tiveram o prazer de ver. Pra falar a verdade, depois que eu a vi, aquele dia na padaria, todas as outras moças me pareciam feias e sem graça nenhuma. Margarida não, Margarida tinha graça de sobra. Acho que Deus deu a graça de umas vinte pessoas só a Margarida, e, por isso, por onde ela plantava sorrisos, ela colhia suspiros. Pelo menos comigo era assim. Eu lembro que até esqueci de respirar uma vez, quando a vi se inclinar sobre o balcão para pedir dez pães francês ao padeiro. Aquela voz de veludo, a forma como ela unia os lábios para falar “pão”, era a melhor música do mundo pra mim. Ah, como eu queria que ela falasse “pão” no meu ouvido! Eu queria ter falado com ela, mas quando ela passou por mim, abraçando aquele saco de papel, eu esqueci também como se falava, só pensava em como eu queria ser um saco de papel.

Depois daquele dia, eu virei o maior comprador de pão daquela padaria, que nem era perto da minha casa. Eu tinha entrado lá por acaso, pra me esconder do meu irmão mais velho, que queria bater em mim. Meu irmão mais velho sempre batia em mim para aliviar as tensões, e ele estava bem tenso naquela semana, porque – eu descobri ouvindo ele falar no telefone – ia ter um encontro com uma menina linda. Sorte a minha que ele não me alcançou, porque assim eu pude ver Margarida, o que se tornou um ritual para mim. Todo dia eu ia vê-la, não importava o que eu estivesse fazendo.

Mas um dia ela não apareceu na padaria. Eu fiquei esperando a tarde toda, porque era comum ela se atrasar, mas foi em vão. A padaria fechou sem que Margarida comprasse pão, e foi como uma noite sem estrelas pra mim. Cheguei em casa cabisbaixo, borocoxô que só eu, quando ouvi um grito vindo do andar de cima.

“Por favor, pare, por favor” Eu ouvi alguém gritando, e soube imediatamente de quem se tratava. Eu não podia estar enganado, porque eu sempre sonhava com Margarida sussurrando palavras começadas em “P” no meu ouvido. Era ela. Eu larguei a mochila no chão e subi as escadas correndo, correndo muito, como se minha vida dependesse daquilo. Mas era tarde demais. Quando eu entrei no quarto, Margarida estava encolhida no chão, com as roupas meio rasgadas, e chorando bem baixinho – quase não dava para ouvir. Eu olhei pra frente e vi meu irmão com mais dois amigos rindo alto e fechando o zíper da calça. Eu não sei o que me deu, mas me subiu uma fúria tão grande, mas tão grande, que eu pensei que fosse matar aqueles três ali mesmo, à abajurzadas (foi o primeiro objeto que eu vi). E, na verdade, eu realmente teria feito isso, se não fosse pequeno e fraco demais. Me odiarei o resto da vida, por não ter conseguido dar a eles a lição que eles mereciam. No final do acontecido, eu também estava encolhido no chão, com a impressão de que meus ovos tinham sido arrancados a dentadas, mas eu chorava alto e soluçava. Ainda assim, chorando e soluçando, eu ajudei Margarida a se levantar. Peguei uma roupa pra ela e liguei pra ambulância, porque o chão tava cheio de sangue.

No outro dia eu fiquei sabendo que ela não estava ferida, e que o sangue não era nada demais. Mas Margarida nunca mais voltou a ser a mesma. Nem eu. Nós nos tornamos amigos, e eu pedi desculpa milhares de vezes, por não ter chegado a tempo. Ela sempre dizia que não tinha sido minha culpa, mas eu sei que foi. Eu sabia que meu irmão ia sair com uma menina linda, e o conhecia bem o bastante para saber o que ele pretendia, mas eu fui omisso e não fiz nada. Eu simplesmente pensei “coitada dessa menina linda que vai sair com ele”, e não fiz nada. Nada, nada, nada.

Agora Margarida não planta mais sorrisos, nem vai mais a padaria. Margarida agora passa os dias em casa, assistindo televisão, fazendo costura. Ela engordou, entristeceu, nunca casou. Margarida perdeu a graça, caiu em desgraça. E ninguém nem lembra dela, de como ela costumava ser, apenas reclamam dela ser amarga e rabugenta, e de não deixar as crianças brincarem em seu quintal. Agora Margarida só tem a mim. Eu, que olho pra ela e vejo, no fundo dos olhos, aquela moça bonita, que ganhou meu coração comprando pão.

Camisa Xadrez – A resposta.

Sabe aquelas cenas de filme, quando um casal passa a noite junto, a campainha toca e o homem desce para atender vestindo só uma cueca samba canção (geralmente com alguma estampa bem boba)? A mulher, curiosa, não consegue ficar esperando e vai atrás dele, mas como demoraria muito para vestir sua própria roupa, pega uma camisa dele e desce rapidamente. É claro que a verdadeira intenção dela é espantar qualquer “ex-mulher” que tente marcar território, porque ela sabe que roupas muito folgadas a deixam extremamente sexy e dão uma vontade danada de arrancar. Quando ela chega ao andar de baixo (se não tiver escadas não tem graça), ele já fechou a porta – era o carteiro, ou um vizinho pedindo açúcar, ou algum vendedor de biscoitos. Ela pergunta “quem era?” com um olhar de donzela em perigo, mas ele não responde, porque está muito ocupado, devorando-a com olhos de fome.   

Bom, talvez eu tenha inventado essa cena. Mas eu sempre lembro dela como se já tivesse visto, e sempre me dá um arrepio no pé do cabelo. Eu sei que não ficaria “extremamente sexy” com uma camisa folgada e amarrotada, mas ainda acho que seria uma situação bastante provocante, só pelo fato da camisa ser dele. Aquele cheiro de homem roçando na pele... Aquele cheiro, que mesmo depois de uma centena de banhos não sai, porque está ali sem estar ali, está na cabeça, tatuado no olfato, assim como o gosto de um beijo pode ficar na boca durante dias.

De qualquer forma, eu costumava vestir uma camisa do meu irmão e ficar fazendo caras e bocas na frente do espelho. Eu ensaiava aquele olhar de donzela em perigo e o soluço surpreso, de quando o dono da camisa me tomasse nos braços e me girasse, jogando-me no sofá. Aos mais ousados, isso vai parecer meio precoce – considerando que eu não tinha mais de 14 anos quando fazia isso –, mas essa não era uma cena de filme erótico. Era uma cena de comédia romântica com censura de 12 anos, onde o telefone sempre toca nos momentos mais quentes, ou a mãe de um dos personagens aparece. A magia não está na consumação do sexo, está no desejo mútuo que fica flutuando entre os protagonistas... Aquele desejo quase palpável de tão denso.

Depois que eu cresci eu parei de alimentar essas fantasias. Eu passei a vestir as camisas do meu irmão como camisola, e já não imaginava loucuras quando me olhava no espelho. Isso até eu vê-lo com aquela camisa xadrez. A camisa xadrez que eu conhecia sem jamais ter visto, a camisa xadrez que você desejava ver em uma linda mulher. Naquele momento eu quis ser a sua linda mulher. E agora fico eu, com dezenove anos, fazendo caras e bocas na frente do espelho, ensaiando um olhar de donzela em perigo, para que você me devore com olhos de fome, e me ame.

Resposta a um antigo post do meu amado (de quando ele não era meu): para ler, clique aqui.

Pintura íntima II


Bebi do seu vinho tinta
E pintei meu coração com seu corante
Entreguei-me a sua boca faminta
Fotografei nosso melhor instante

Fui tela branca pro seu pincel
Deslizando sobre mim como se eu fosse um papel
Apaguei-me do jeito antigo
Pra me desenhar de um jeito novo contigo

Joguei fora todo o solvente do seu ateliê
Rasguei as telas do seu estoque
Pra que ninguém me apague de você
Pra que você nunca me troque

Pendurei meu quadro em seu pescoço
Nossa foto em seu mural
Faça do meu corpo o seu esboço
Da minha pele, seu avental.

Caindo

Aquele dia estava sendo realmente ruim. Um dia realmente ruim entre uma seqüência de dias realmente ruins. Na verdade, ele não lembrava a última vez que seu dia fora somente ruim.
Chovia um pouco. O trânsito estava parado na avenida, mas ele não se preocupava com isso, pois seu carro fora tomado na semana anterior, para quitar algumas dívidas. Sua casa também fora hipotecada, e estava por um fio. Ele tinha sido recusado em mais uma entrevista de emprego, enquanto seus antigos amigos estavam casados e bem sucedidos. Seu pai não telefonava há meses, parecia estar decepcionado demais com a ruína do único filho. Sua única namorada fugira com seu primo de segundo grau e o deixara só, mas – de certa forma – ele estava contente por não ter filhos, não queria mesmo propagar sua espécie fracassada.
Sufocado pelas paredes, ele decidiu que precisava de ar fresco. Saiu de casa, ignorando o rapaz de macacão azul que viera cortar a luz, e saiu pela calçada. Há muito tempo já perdera sua verdadeira luz. E há muito tempo perdera também qualquer estímulo para continuar vivendo.
Ele olhou em volta.
E seguiu em frente.
Olhou para os carros, as vitrines, os semáforos.
E seguiu em frente.
Olhou para as pessoas na rua, caminhando alegremente.
E seguiu em frente.
Olhou para casais, amigos, famílias.
E viu como estava tão só.
Foi aí que tudo veio à tona – toda sua dor. Lembrou-se do pai gritando, chamando-o de moleque inútil. Lembrou do seu primeiro F. Da primeira vez que se declarou a uma garota e levou um fora. Lembrou da primeira vez que seu currículo foi devolvido. E perdeu a conta, ao tentar lembrar-se de quantas vezes esse ciclo se repetiu. Ele percebeu que estava cansado de perder. Estava cansado de todo aquele sofrimento. Estava cansado do peso que era carregar a própria existência nas costas, sem nunca receber nada – de bom – em troca. Ele percebeu que estava cansado demais para continuar seguindo em frente.
Inconscientemente, chegou ao prédio da Faculdade (onde havia se formado). A cada andar que subia, tinha mais certeza de que queria acabar de uma vez com tudo.
Ele chegou na cobertura, caminhou até a borda.
E depois caiu...
- Não é bonito?
Ele se virou.
- Como?
- O arco-íris. Não é bonito?
E olhou pra menina que apontava para frente.
- E as árvores? Nem parece que são tantas, lá de baixo. Você não acha esse lugar agradável? Gosto de sentir o vento... E de ver as árvores, é claro. Parece um mar verde, não parece? Verde é uma linda cor. A minha preferida.
- Verde?

- Ah, e veja só o céu... Não parece um mar de cabeça pra baixo? Tudo pode parecer mar. E o azul é tão tranqüilo... Azul é definitivamente a minha cor favorita.
- Azul? Mas...
- É verdade, eu disse que era verde. Mas quer saber? Gosto das duas.
Ela sorriu, e só então ele percebeu que não tinha caído. Tinha apenas olhado pra baixo e imaginado a queda. Esquecera, entretanto, de olhar também o arco-íris, e as árvores, e o céu. Esquecera de sentir o vento. E esquecera até mesmo de olhar em volta para se certificar que não tinha mais ninguém.
De repente ele resolveu olhar pro passado também. O que mais havia deixado de olhar?
E ele viu seu pai ensinando a jogar futebol. Viu a satisfação no rosto da sua mãe quando ele tirou aquele B sofrido no colegial. Viu seu professor aplaudi-lo pelas costas em sua formatura. Viu sua primeira paixão lhe sorrindo. Viu-se entre amigos, jogando conversa fora...
- Porque você não sai daí? Eu sei que a vista é melhor, mas é bem perigoso.
Ele segurou forte a mão que ela estendeu.
E depois seguiram em frente - juntos.

Quem me segue (se perde comigo).