Passional
5 ouvintes Published 14 de dezembro de 2009 by Natália Corrêa in Lirismo transbordadoO asco de um novo último beijo
Talvez o último dos últimos
Talvez ainda não
Mesmo o primeiro, fora uma vez o último
O último primeiro
O primeiro último beijo
Incerto como tudo em ti
Meus dedos te tocam e não te sentem
Só tu me sentes
[como lava crepitando em tuas veias]
Mas saber do teu prazer me é prazer suficiente
Ainda que não permeie tua alma
Ainda que não transponha a muralha
Que tu ergueste em tua volta
Para que ninguém o faça
Senão ela
Ela que te faz invisível
Quando és na verdade tudo que se vê
Quando estás por toda parte
Tu e teu cheiro entorpecente
[que excita e transmuta meu corpo]
Colônia, suor
Reconheço-te pairando no ar
Adentrando cada um dos meus poros
Impondo sobre mim a tua presença insubistancial
Ora cravada em meu peito
Ora fluindo em minha mente
Que vai minguando devagar
Até saciar-se de pensar em ti
Em teus braços sou somente tua
E até quando nos braços dele
Sou também um pouco tua
Porque quando tu te vais
Sumido dentro da tua retração amarga
Levas contigo um pouco de mim
Que vai se perdendo nos outros seios em que tu te afogas
Nas outras bocas que tu beijas
No conhaque que tu insiste beber
E eu vou ficando vazia
Vazia que mim e de ti
Das vezes que tu não voltas
Do remorso
36 ouvintes Published 10 de dezembro de 2009 by Natália Corrêa in Lirismo transbordadoébrio do tormento etílico
típico do poeta inventado
interpretado no desejo decadente
de ser regente da própria vida
vendida a preço de banana
porque a grana é curta
e o olho é grande.
que jaz na fumaça do fumo
- consumo que mata
consumindo a fome de morrer
- cadáver do sossego
no aconchego da mentira
e na mira da verdade.
dormente no silêncio
da iminência de falar
e entregar o pensamento mudo
com medo que os ouvidos do mundo
escutem os segredos imundos
entalados na boca do estômago.
Noites de um verão qualquer
19 ouvintes Published 9 de dezembro de 2009 by Natália Corrêa in Só sei que foi assim.Muitos amores começam logo os gatos saem a noite,
e acabam-se com o canto do cotovia"
Leia também as histórias de Pâmela, Maria Fernanda,
Andrey, Fernanda, Matheus e Alan Félix.
Quer participar também? Escreva e avisa pra gente.
Abiótico
39 ouvintes Published 4 de dezembro de 2009 by Natália Corrêa in Lirismo transbordadoNo meu sonho mais lunático
Moro em território desértico
Onde tudo que nasce é de plástico
Onde todo sorriso é sarcástico
E todo amor é hipotético
Porque todo sentimento é bélico
Todo cristão é cético
Todo abraço é sintético
Todo mentiroso é mágico
Todo pagode é clássico
Todo mundo é estético
E o mundo todo é estático
O sexo é prático
O afeto é lógico
O coração é cáustico
Calcificado e analítico
Feito discurso de político
De partido democrático
Que promete ser fantástico
Mas deixa o cenário caótico
Pro povo se tornar mais católico
E ajudar o membro eclesiástico
Que vai ter um encontro orgástico
Com Jesus, o menino simpático
Que tem um pai neurótico
Por querer ser poético
Em território desértico
Onde ninguém é romântico
Onde o trabalho é robótico
O tráfico é público
O preconceito é pudico
O bom-senso séptico
E o anti-séptico é técnico
Consertando o nervo ótico
Pra perder o olhar crítico
E viver no automático.
Variações sobre um mesmo tema
32 ouvintes Published 2 de dezembro de 2009 by Natália Corrêa in Só sei que foi assim.Alice conheceu Paulo e se apaixonou. Paulo também era alto, mas era muito magro. Sua falta de músculos, entretanto, era compensada pela alegria contagiante que ele expirava. Com Paulo, mesmo nos dias mais cinzas e mais tristes, havia sempre razão para sorrir. Ele fazia surpresas e a levava ao parque. Eles comiam algodão doce, pipoca, chocolate, maçã-do-amor, e voltavam para casa rindo da imensa vontade que tinham de vomitar um no outro. Era tudo perfeito. Mas alguma coisa aconteceu, e o sorriso de Paulo foi minguando. Ele já não fazia piadas, eles não já não faziam passeios divertidos, nem comiam mais doces juntos. Era como se a paixão tivesse morrido, e o amor se escondido atrás de uma nuvem escura que não chovia nunca. Alice então gritou. Gritou tanto que perdeu a voz, mas prometeu, em silêncio, que não se envolveria com mais ninguém, até que
Alice conheceu José e se apaixonou. José era um rapaz humilde, vindo do interior. Era baixo, meio entroncado, mas tinha força e inteligência. Eles estudavam juntos a tarde inteira, e era tão bom que parecia que tinham passado a tarde fazendo sexo. Era uma espécie de orgasmo mental. Ele tirava todas as dúvidas dela, e quando as notas eram boas, ambos eram recompensados com beijos, abraços e amassos de tirar o fôlego. Era tudo perfeito. Mas alguma coisa aconteceu e José mudou. Ele agora dizia que preferia estudar só, porque aprendia mais; também não tinha paciência para tirar dúvidas, e se não havia notas boas, não havia recompensa. Era como se a paixão tivesse fugido do coração atrofiado pelo crescimento do cérebro. Alice então sofreu. Sofreu dias a fio, mas prometeu que seria a última vez, até que
Alice conheceu Gabriel e se apaixonou. Gabriel era evangélico fanático, andava sempre com a bíblia embaixo do braço. Mas seu dinheiro compensava qualquer infortúnio causado pela promessa de virgindade. Ele a levava para os restaurantes mais caros da cidade, e enviava vestidos, sapatos e colares dos mais variados tipos, para que ela usasse em seus encontros, enquanto uma orquestra particular tocava para eles uma serenata. Era tudo perfeito. Mas alguma coisa aconteceu, e Gabriel ficou diferente. Ele passou a reclamar dos gastos, e fazia pregações diariamente, tentando encaixar Jesus em suas vidas. Era como se Jesus jogasse água na paixão toda vez que ela esquentava. Alice então rezou. Rezou muito para que Deus a poupasse de mais uma desilusão, e prometeu jogar São Pedro no lixo, até que
Alice conheceu Adamastor e se apaixonou. Adamastor, de feio, só tinha o nome. Ele parecia um Deus grego, um galã de novela recém saído da revista caras. Era o sonho de qualquer mulher, e era uma máquina na cama – e na mesa, no chão, na parede, no balcão, e etecetra e tal. Era tudo perfeito. Mas alguma coisa aconteceu: Adamastor conheceu Gabriel e se converteu. Agora não tinha mais sexo, nem abraço e nem mesmo beijo, porque ele estava em fase de purificação. Era como se a paixão tivesse sido enviada para queimar no fogo do inferno por algum pecado que cometeu. Alice então ficou irada. Ficou irada e abandonada, enchendo a cara de cachaça e vomitando pela casa, mas prometeu que assim o porre acabasse, entraria num convento. Até que
Alice conheceu Penélope, irmã de Renato, ex-namorada de Paulo, vizinha de José, da igreja de Gabriel e conhecida de Adamastor. Penélope era feia e chata: tinha cabelo estirado, dentes tortos, barriga de cerveja, hálito de cigarro e papo de gente bêbada. Mas Alice se apaixonou.
Cher Antoine (após o bip)
33 ouvintes Published 1 de dezembro de 2009 by Natália Corrêa in Lirismo transbordado
Encontrei um recado na geladeira
Com sua declaração de amor
A sua secretária me mandou seus beijos
O delivery entregou o escargot
Que eu comi sozinha
Na nossa mesa de seis lugares
Com nossos talheres de prata
Usando um dos novos colares
Que sua mãe escolheu.
Recebi sua mensagem na minha caixa postal
Não se preocupe com a passagem
Vou trocar por uma viagem
De presente de natal
Que vou passar sozinha
Com a nossa árvore montada
Vendo as luzes da escada
Piscarem sobre meu vestido decotado
Que você não vai ver.
Descontei o cheque que você enviou
De aniversário de casamento
O gerente mandou lembranças
Sinto não poder entregá-las pessoalmente
É que eu vou pegar o seu dinheiro
E fugir com o carteiro
Que me come toda quarta
Enquanto eu leio suas cartas
Que algum poeta escreveu.
[a]Margarida
14 ouvintes Published by Natália Corrêa in Só sei que foi assim.Depois daquele dia, eu virei o maior comprador de pão daquela padaria, que nem era perto da minha casa. Eu tinha entrado lá por acaso, pra me esconder do meu irmão mais velho, que queria bater em mim. Meu irmão mais velho sempre batia em mim para aliviar as tensões, e ele estava bem tenso naquela semana, porque – eu descobri ouvindo ele falar no telefone – ia ter um encontro com uma menina linda. Sorte a minha que ele não me alcançou, porque assim eu pude ver Margarida, o que se tornou um ritual para mim. Todo dia eu ia vê-la, não importava o que eu estivesse fazendo.
Mas um dia ela não apareceu na padaria. Eu fiquei esperando a tarde toda, porque era comum ela se atrasar, mas foi em vão. A padaria fechou sem que Margarida comprasse pão, e foi como uma noite sem estrelas pra mim. Cheguei em casa cabisbaixo, borocoxô que só eu, quando ouvi um grito vindo do andar de cima.
“Por favor, pare, por favor” Eu ouvi alguém gritando, e soube imediatamente de quem se tratava. Eu não podia estar enganado, porque eu sempre sonhava com Margarida sussurrando palavras começadas em “P” no meu ouvido. Era ela. Eu larguei a mochila no chão e subi as escadas correndo, correndo muito, como se minha vida dependesse daquilo. Mas era tarde demais. Quando eu entrei no quarto, Margarida estava encolhida no chão, com as roupas meio rasgadas, e chorando bem baixinho – quase não dava para ouvir. Eu olhei pra frente e vi meu irmão com mais dois amigos rindo alto e fechando o zíper da calça. Eu não sei o que me deu, mas me subiu uma fúria tão grande, mas tão grande, que eu pensei que fosse matar aqueles três ali mesmo, à abajurzadas (foi o primeiro objeto que eu vi). E, na verdade, eu realmente teria feito isso, se não fosse pequeno e fraco demais. Me odiarei o resto da vida, por não ter conseguido dar a eles a lição que eles mereciam. No final do acontecido, eu também estava encolhido no chão, com a impressão de que meus ovos tinham sido arrancados a dentadas, mas eu chorava alto e soluçava. Ainda assim, chorando e soluçando, eu ajudei Margarida a se levantar. Peguei uma roupa pra ela e liguei pra ambulância, porque o chão tava cheio de sangue.
No outro dia eu fiquei sabendo que ela não estava ferida, e que o sangue não era nada demais. Mas Margarida nunca mais voltou a ser a mesma. Nem eu. Nós nos tornamos amigos, e eu pedi desculpa milhares de vezes, por não ter chegado a tempo. Ela sempre dizia que não tinha sido minha culpa, mas eu sei que foi. Eu sabia que meu irmão ia sair com uma menina linda, e o conhecia bem o bastante para saber o que ele pretendia, mas eu fui omisso e não fiz nada. Eu simplesmente pensei “coitada dessa menina linda que vai sair com ele”, e não fiz nada. Nada, nada, nada.
Agora Margarida não planta mais sorrisos, nem vai mais a padaria. Margarida agora passa os dias em casa, assistindo televisão, fazendo costura. Ela engordou, entristeceu, nunca casou. Margarida perdeu a graça, caiu em desgraça. E ninguém nem lembra dela, de como ela costumava ser, apenas reclamam dela ser amarga e rabugenta, e de não deixar as crianças brincarem em seu quintal. Agora Margarida só tem a mim. Eu, que olho pra ela e vejo, no fundo dos olhos, aquela moça bonita, que ganhou meu coração comprando pão.
Camisa Xadrez – A resposta.
35 ouvintes Published 28 de novembro de 2009 by Natália Corrêa in Demasiadamente prolixo, Qualquer intençãoBom, talvez eu tenha inventado essa cena. Mas eu sempre lembro dela como se já tivesse visto, e sempre me dá um arrepio no pé do cabelo. Eu sei que não ficaria “extremamente sexy” com uma camisa folgada e amarrotada, mas ainda acho que seria uma situação bastante provocante, só pelo fato da camisa ser dele. Aquele cheiro de homem roçando na pele... Aquele cheiro, que mesmo depois de uma centena de banhos não sai, porque está ali sem estar ali, está na cabeça, tatuado no olfato, assim como o gosto de um beijo pode ficar na boca durante dias.
De qualquer forma, eu costumava vestir uma camisa do meu irmão e ficar fazendo caras e bocas na frente do espelho. Eu ensaiava aquele olhar de donzela em perigo e o soluço surpreso, de quando o dono da camisa me tomasse nos braços e me girasse, jogando-me no sofá. Aos mais ousados, isso vai parecer meio precoce – considerando que eu não tinha mais de 14 anos quando fazia isso –, mas essa não era uma cena de filme erótico. Era uma cena de comédia romântica com censura de 12 anos, onde o telefone sempre toca nos momentos mais quentes, ou a mãe de um dos personagens aparece. A magia não está na consumação do sexo, está no desejo mútuo que fica flutuando entre os protagonistas... Aquele desejo quase palpável de tão denso.
Depois que eu cresci eu parei de alimentar essas fantasias. Eu passei a vestir as camisas do meu irmão como camisola, e já não imaginava loucuras quando me olhava no espelho. Isso até eu vê-lo com aquela camisa xadrez. A camisa xadrez que eu conhecia sem jamais ter visto, a camisa xadrez que você desejava ver em uma linda mulher. Naquele momento eu quis ser a sua linda mulher. E agora fico eu, com dezenove anos, fazendo caras e bocas na frente do espelho, ensaiando um olhar de donzela em perigo, para que você me devore com olhos de fome, e me ame.
Pintura íntima II
27 ouvintes Published 27 de novembro de 2009 by Natália Corrêa in Lirismo transbordadoE pintei meu coração com seu corante
Entreguei-me a sua boca faminta
Fotografei nosso melhor instante
Fui tela branca pro seu pincel
Deslizando sobre mim como se eu fosse um papel
Apaguei-me do jeito antigo
Pra me desenhar de um jeito novo contigo
Joguei fora todo o solvente do seu ateliê
Rasguei as telas do seu estoque
Pra que ninguém me apague de você
Pra que você nunca me troque
Pendurei meu quadro em seu pescoço
Nossa foto em seu mural
Faça do meu corpo o seu esboço
Da minha pele, seu avental.
Caindo
23 ouvintes Published 26 de novembro de 2009 by Natália Corrêa in Só sei que foi assim.- Ah, e veja só o céu... Não parece um mar de cabeça pra baixo? Tudo pode parecer mar. E o azul é tão tranqüilo... Azul é definitivamente a minha cor favorita.

