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30 de outubro de 2009

Extra-ordinário

Este tem sido um dia extraordinariamente ordinário!

Às vezes acontece de, após uma sucessão de dias especiais (entenda especial como qualquer coisa que nos tire da rotina), você se encontra olhando para um dia que não tem nada a oferecer, e fica aliviado por poder simplesmente não se importar.

Você pode almoçar e jantar, sem se preocupar com o horário; você verifica seus e-mails; você conversa com alguns amigos; liga para o seu namorado e cai na risada por não ter nada a dizer; você deita na grama com uma pessoa que você vê todos os dias, mas nunca tem tempo de conversar... E lentamente, tudo derrete.
Você acha conveniente ignorar os mosquitos e esperar até que o céu que você está olhando se torne o papel de parede das suas pálpebras, dando a ilusão de que elas ainda estão abertas. Quando você fica sonolento, uma melodia familiar desaponta no fundo da sua inconsciência, e você quase pode sentir seu corpo dançar.

Isto é quando o ordinário é extraordinário. Casa não são apenas quatro paredes e um teto. Casa é uma sensação de proteção omnipresente (você pode se sentir em casa nos braços de uma pessoa amada), onde nada é desconhecido... Tudo está dentro de você, ali. Queria que alguém pudesse entender! Euforia se aproxima de definir, talvez...

24 de outubro de 2009

Fé cega, faca amolada

É muito fácil culpar alguém pelos erros que nós mesmos cometemos. E, em verdade, todos fazemos isso uma vez ou outra, de forma menos ou mais freqüente. Seja pelo receio do remorso, para lidar com uma dor, ou simplesmente por covardia, essa atitude é geralmente justificada pelo desejo egoísta de sentir-se melhor (mais leve). Feliz ou infelizmente, nem sempre funciona. Na maioria das vezes, conseguimos nos ressalvar apenas do julgamento alheio, mas continuamos sujeitos ao julgamento pungente da nossa própria consciência - que pode ser muito intransigente.
Entretanto, há quem faça isso tão bem, que acaba convencendo não somente os outros, como a si mesmo. Bom, enganar a si próprio é burrice [como podemos aprender com os nossos erros sem reconhecê-los como nossos?]. Mas, fazer alguém inocente acreditar que é culpado, não é muita crueldade? Se aproveitar da inocência e ingenuidade de um coração que não vê maldade em ninguém; usar a fragilidade do outro em benefício próprio... para mim, isso é inadmissível. Se é para jogar sujo, que seja com pessoas sujas, que talvez até mereçam provar um pouco do próprio remédio. Mas deveria existir uma lei que proibisse magoar as boas pessoas, enquanto as boas pessoas ainda existem.

17 de setembro de 2009

Narcisismo

Eu sempre conheci e usei a palavra "narcisismo", mas nunca havia parado para ler sobre sua origem. Eu sabia que havia uma lenda sobre Narciso, e sabia, apenas por osmose, que ele fora alguém que se apaixonara pela própria imagem. No entanto, hoje - há alguns minutos - eu recebi um e-mail com essa história. Na verdade eu não costumo ler meus e-mails, minha caixa de entrada é sempre lotada e eu tenho muita preguiça, mas eu estava no MSN quando subiu o aviso de recebimento de um e-mail de uma antiga professora minha. Eu abri apenas por curiosidade, e me deparei com um daqueles e-mails de power point, com uma tradicional música de relaxamento ao fundo e com aquelas imagens retiradas do google. Eu geralmente nem vejo esses e-mails [com exceção dos enviados por minha mãe, que - não sei como - sempre seleciona mensagens de caráter telepático ou profético], mas resolvi ver esse e me surpreendi.
A história é praticamente o que eu imaginava... Narciso era um rapaz muito belo e todos os dias contemplava o reflexo da sua própria beleza em um mesmo lago. Um dia, fascinado consigo mesmo, ele cai no lago e morre afogado. Depois disso, o lago, que era doce, transforma-se em um "cântaro de lágrimas salgadas". Aparecem então as Oreiades, Deusas do Bosque, perguntando ao lago a razão de suas lágrimas. O lago responde que chora por Narciso, tal qual as Oreiades imaginavam, mas as surpreende com uma indagação: "Mas Narciso era belo?" pergunta ele. Logo ele que, supostamente, vira por tanto tempo a imagem do rapaz em suas águas. E então ele completa com a passagem mais significativa da lenda: "Choro por Narciso porque, todas as vezes que ele se deitava sobre minhas próprias margens eu podia ver, no fundo dos seus olhos, minha própria beleza refletida."
Eu sei que até agora nada que eu escrevi faz sentido. Mas isso porque a minha mente está a mil, e quando eu fico assim, pensando demais, tenho vontade de fazer com que todos entendam meu ponto de vista. Isso, aliás, comprova o que eu estou pensando. Penso que, no fundo, todos nós somos narcisistas - em menor ou maior proporção. Inventamos nomes bonitos como "afinidade" e "identificação", mas a verdade é que a maioria de nós se apaixona pela imagem de si mesmo que há nos outros. É muito fácil amar alguém quando esse alguém possui as mesmas convicções que nós, os mesmos gostos, as mesmas crenças. É claro que depois o verdadeiro amor se desenvolve, e transpõe às barreiras da afinidade, mas eu realmente acho que ele começa na gente. Quantas vezes não conhecemos uma pessoa e dizemos para nós mesmos: "poxa, fulando é muito legal, ele entende exatamente o que eu sinto"? Em geral, queremos ouvir apenas aquilo que nós mesmos diríamos [se coubesse a nós dizer], e queremos que os outros sintam e amem da mesma forma que nós amamos, porque, na nossa cabeça, o nosso jeito é o jeito certo.
Quantos relacionamentos não acabam sob aquele clichê: "éramos diferentes demais"? Não é à toa que as pessoas mais presunçosas têm dificuldade de encontrar alguém; é que eles estão tão preocupados em enxergar sua própria beleza nos outros, e se julgam tão superiores, que acabam esquecendo de reparar que esses outros também possuem sua própria beleza. Cai, portanto, a velha teoria de que opostos se atraem. Opostos não se atraem, opostos se completam, mas para que as metades se encaixem é preciso bem mais que amor. É preciso tolerância, disposição para compreender que às diferenças não são necessariamente ruins, e até um pouco de bom senso para perceber que, se fosse para ter alguém igual a nós, bastaria um espelho.

17 de agosto de 2009

Teorema do copo d'água.

Assistindo Mais Você, eu ouvi algo interessante. Ouvi que, se você segurar um copo descartável [do pequeno] com água, você vai achar ele leve. Claro, porque ele é realmente leve. Entretanto, em segurando esse mesmo copo por duas horas, por exemplo, sua mão vai começar a ficar dormente, seus dedos vão começar a fraquejar, e aquele copo de água, que era leve, vai ficar gradativamente mais pesado. Agora imagine segurar esse copo de água durante dias/meses, sem soltar por nenhum instante? Vai chegar um momento em que ele vai ficar tão pesado que você não vai mais suportar. Sua mão vai ficar incontrolavelmente lânguida e o copo vai cair, provavelmente provocando uma bela lambança.
Eis pois o que acontece com todo peso que decidimos carregar conosco por tempo indeterminado. Seja um medo, uma preocupação, um segredo, tudo que exige de nós um certo esforço, mesmo que a princípio pareça pouco, nos desgasta se prolongado demais. Por isso, eu agora estou largando os pesos. Vou colocar meu copo de água sobre a mesa, e só vou pegar quando estiver com sede.

12 de junho de 2009

Dia dos [des]namorados.

Eu tava assistindo MTV quando começou o "LAB - toca aí" especial do dia dos namorados. Não fiquei surpresa quando Fresno apareceu para escolher a primeira música, mas chorei horrores com a música que eles escolheram. Always. Aquela do Bon Jovi... quem já não curtiu uma fossa com aquela música? quem já não reviveu uma dor de cotovelo adormecida? No meu caso, o buraco é mais embaixo. Quem me conhece a mais tempo sabe que ela é minha música preferida ever! e que, inclusive, marcou o meu último namoro sério. Lembro que logo que o namoro acabou, eu fiquei com medo de não conseguir ouvi-la novamente sem lembrar das coisinhas ruins que, eventualmente, os finais de relações trazem consigo. Felizmente, aconteceu exatamente o contrário. Eu consegui apagar da minha mente tudo que, na época, me machucou por dentro, e só restaram as boas lembranças. Entre elas, o dia dos namorados. Até hoje eu tenho a cesta enorme que eu ganhei cheia de trufas. É claro que não sobraram trufas, mas a lembrança está guardada, perto das minhas bonecas e ursinhos de pelúcia. Sim, eu ainda tenho bonecas; gosto de manter sempre à vista os pedacinhos do meu passado, para que eu olhe ao redor e lembre de que o que eu sou hoje, é a união de tudo que eu já fui um dia. Mas bom, eu comecei a falar disso com um propósito. É que, com todas essas lembranças, eu percebi que o dia dos namorados é bem mais marcante para os que não tem namorado. Afinal, quando se tem namorado, o dia 12 não passa de um dia para trocar presentes, além de – o mais importante – ser também um ótimo pretexto para lembrar à pessoa amada do quanto ela é especial. Mas quando há amor de verdade, todo dia é dia disso (não necessáriamente envolvendo presentes)! Entretanto, aos que não tem a quem dedicar serenatas e declarações, esse dia parece interminável e incrivelmente solitário. Nós (solteiros) nos perguntamos porque estamos sozinhos; e alguns até inventam aquelas desculpas "de encalhados"... "estou só por opção", ou "estou me dedicando aos estudos agora". Mas a verdade é que, se pudéssemos mesmo escolher, escolheriamos ter sempre alguém conosco; alguém que nos fizesse sentir amados, desejados, amparados; alguém para escrever cartas de amor e ligar de madrugada só pra dizer "estou pensando em você". E o mais complicado... na maioria das vezes, esse alguém tem nome e endereço, e nós apenas não temos coragem de procurá-los, ou não somos correspondidos, ou somos correspondidos e não sabemos. Por isso, o dia dos namorados para os solteiros é ficar olhando os casais se abraçando na rua, no parque, no cinema; e é pensar que seria realmente muito bom ter (aquele) alguém para, pelo menos, andar de mãos dadas por aí. [Um feliz dia dos namorados (para os que tem). E para os que não tem... muito chocolate! rs.]

31 de março de 2009

Ciranda

A vida hoje me pregou uma peça. E parece que é sempre assim; ela (a vida) se diverte nos fazendo de bobos. E os tiros saem pela culatra, a verdade se contradiz, os sentimentos se invertem, e (aí) a trama toda se complica; e o mocinho vira vilão, o príncipe vira sapo, a princesa cai da torre e o dragão a segura, voando pelos céus com suas asas de anjo (que caiu). Se esperamos demais por algo, surge a decepção, vinda não sei de onde, só pra atazanar. E quando já estamos cansados dela, desmotivados e decididos a jogar tudo pro alto, acontece "aquela coisa" que faz tudo mudar. É nessa hora que as cores se tornam mais intensas, e até o preto parece mais cinza, o branco quase vira luz. De repente, toda música que toca, toca pra você; e os cheiros te lembram os cheiros daqueles outros cheiros que você sentiu e gostou.

Acho que é daí que vem aquela idéia de pensamento reverso; de ficar pensando no não para ver se vem um sim... mas eu não acredito nisso. Minha teoria é que tudo são pontos de vista, e só. Quando o contentamento é grande, o brilho dos olhos ofusca “aquelas coisinhas” que seriam “grandes coisas” se pudéssemos enxergá-las. Chamo isso de ponto cego. E qual a solução? Não tem. E pra que solução? É tão bom quando a peça que a vida prega é a peça que estava faltando para nosso quebra-cabeça! (que quebra, e fica de ponta cabeça, e muda conforme a gente muda) Eu aconselho escrever um livro, pra relembrar quantas vezes der na telha o gosto daquela velha surpresa, e esperar por mais. E quando o mais não vier, e a decepção chegar, blá blá blá blá, pois eis que chega a roda viva... e tudo volta pro lugar.

18 de março de 2009

Semáforo


Acho que, sem perceber, nós passamos a viver no automático. Não olhamos mais pela janela, pois já conhecemos a paisagem; e, se não olhamos, não percebemos que a paisagem nunca é a mesma. São tantos detalhes que deixamos de ver, tanta coisa que deixamos de viver por presunção, por achar que o nosso tempo é precioso demais para gastar com capítulos repetidos, que esquecemos que sempre há segredos escondidos nas entrelinhas das histórias... segredos que poderiam mudar nosso dia, e porque não nossa vida? Talvez haja, entre aqueles tantos personagens coadjuvantes dos nossos dias, um protagonista escondido; e tudo que precisamos é notar o seu sorriso. Pense nisso. Pense no semáforo! E aproveite para diminuir os acidentes de trânsito rs.

14 de março de 2009

São sentimentos.

Quando estamos tristes, parece que há uma bomba de sucção dentro do nosso peito, sugando todas as boas emoções e sensações, sem nos deixar senti-las ou vivê-las. Entretanto, acho que a culpa é nossa. Nós nos apegamos tanto à nossa tristeza que ela, de repente, parece maior e mais forte. É como numa queda infinda: chega um ponto que nós paramos de gritar, mas continuamos a ouvir os ecos do nosso próprio desespero, quando ele na verdade já se foi, e somos somente nós e a gravidade. Mas se formos pensar, cair não é tão ruim... é só colocar o mundo de cabeça pra baixo e pronto, estamos subindo! Há sempre duas versões pra tudo, dois pontos de vista, ou até mesmo mais. O que nos falta é, afinal, um pouco mais de fé para acreditar que nada é vão, embora assim pareça quando estamos tristes ou magoados demais. O segredo é inverter as coisas. Como seres pessimistas que somos, mesmo quando estamos no auge de um grande amor, surge aquela duvida chata, alfinetando a nossa felicidade instantânea: “e quando o amor acabar?” Temos sempre um pouco de medo de nos entregar, por saber (mesmo sem saber que sabemos) que as coisas na vida são muito efêmeras. Hoje estamos loucamente apaixonados, amanhã descobrimos que aquela pessoa não era para nós. Porque não fazer o contrário, então? Pensar que o amor é pra sempre e que a tristeza pode acabar a qualquer momento? É disso que eu estou falando: de prolongar coisas boas e resumir as ruins; de aproveitar o que a vida oferece de bom e aprender com o que há de ruim, sem essa de pensar que vai ser ruim pra sempre. Conhece o jogo do contente? Se não, posso resumi-lo em uma palavra: otimismo. A verdade é que sentimentos são mesmo fáceis de mudar, e nós somos mesmo umas metamorfoses ambulantes. Contudo, como tudo, nós sempre podemos esperar que mudem para melhor, não é?

21 de fevereiro de 2009

Cantiga de escarnio

Eu não sei porque cargas d’água as pessoas querem ser todas iguais umas as outras. De repente, todo mundo tem os mesmos gostos, todos os gostos tem um mesmo mundo. Havaianas, todo mundo usa. Itaú, com você em todos os momentos. Volkswagen, você conhece, você confia. Entretanto, ninguém escuta por aí frases como “saúde pública, todo mundo tem”, “segurança, você merece”, “educação para todos, conhecimento não tem preço”. Mas também... pra que todas essas coisas, não é mesmo? Pra que se preocupar com a maior parte da população que está dormindo nas calçadas e tomando banhos no canais? Ah, faça-me o favor... viva o lado coca-cola da vida! saia para beber com seus amigos descolados, compre um cigarro para poluir seus pulmões, gaste seu dinheiro com roupas e sapatos, mas não esqueça de botar a mão no joelho e balançar a bundinha, hem? Oh, desculpe, isso está ultrapassado! a moda agora é o creu, é abrir o som do porta mala e chamar a nega pra dançar, é aproveitar a fossa ouvindo aquelas músicas repetitivas que fazem do amor um lugar comum e rendendo lucros para o mercado de bebidas alcoólicas. A propósito, beba, beba muito, encha a cara, morra de cirrose hepática, mas não dirija, ok? porque números não mentem, e não pega bem todo mundo ficar sabendo que metade das mortes diárias do nosso país acontecem porque somos irresponsáveis o bastante para colocar cinco propagandas de cerveja a cada intervalo de sete minutos que você assiste na tv... e sabe como é, bêbado rende um lucro empurrado! Menos os bêbados pobres né? Porque esses só fazem lotar os hospitais públicos e dormir das paradas, importunando a população de respeito... esses podem morrer que ninguém vai nem sentir falta. Mas tudo bem, não se preocupe com isso, afinal, é carnaval! Vá dançar frevo até o sol nascer, subir e descer ladeiras... quem sabe assim você não faz um pouco de exercício físico? Mas não faça muito não, viu? Porque nós precisamos que você enfarte para que os médicos possam ganhar dinheiro salvando sua vida, senão precisaremos deixar as mulheres ainda mais paranóicas com seus corpos, para que imitem as celebridades e arranquem uma ou duas costelinhas para ficarem com cintura fina. Aliás, seja toda fina, hem? Porque a moda é ser magro. Se você não é, comece logo a vomitar depois das refeições, é tiro e queda! Melhor até que aquele shake que você comprou na propaganda da recorde. Comprem, trabalham, troquem seus carros, entupam suas veias, venerem seus ídolos, assistam novelas. Marchem, soldados, marchem! Que vocês são parte do nosso incrível exercito de alienados.

20 de fevereiro de 2009

destino.

O destino não toma decisões por ninguém, apenas oferece as opções. Mas ele também não admite trapaças. Se você escolhe um caminho, tem que ir até o fim... não vale parar no meio, não adianta voltar atrás. Nas páginas velhas e secas do livro da nossa vida, nossos passos são como letras e nossas escolhas são como nossa sombra ao meio dia: fogem pra debaixo dos nossos pés e andam juntinho com a gente, pé ante pé.

16 de fevereiro de 2009

Lentes de aumento

Há dois anos, eu enxergava bem. Franzia um pouco a testa para olhar pra longe, estreitava um pouco os olhos para ler coisas muito pequenas, mas enxergava tudo. Eu até pensei em fazer um exame de vista, mas só porque vi uns óculos muito bonitos numa vitrine uma vez; ele tinha as hastes vermelhas e, se eu não me engano, um coração em auto-relevo na lateral. No entanto, como era de se esperar, acabei esquecendo dos óculos e nem fiz exame nem nada... acho até que encontrei algo mais interessante para gastar o meu dinheiro.
Um ano mais tarde, comecei a sentir fortes dores de cabeça. Eu ainda estreitava os olhos para ler, mas agora não fazia muito efeito; eu precisava caminhar para perto do escrito para enxergar melhor. Passei a sentar na primeira cadeira no colégio, e tive que começar a acordar mais cedo por isso, já que (é incrível como) todos querem sentar na primeira banca(!). Eu, sinceramente, não gosto muito; meu pescoço dói de ficar olhando pra cima, e os professores decoram suas feições e pedem seus cadernos emprestados para ver onde pararam na aula anterior. O problema eles nunca pediam o meu caderno quando a matéria estava em dia, mas bastava eu passar a aula escrevendo bobagens que me escolhiam... aposto como era de propósito! Mas isso não vem ao caso. Fato é que eu não agüentei sentar na primeira fileira por muito tempo, e como sentar mais atrás me custava um grande esforço ocular, eu acabei procurando um oftalmologista. Lembro até que o médico era super bonitinho, acho que era recém-formado, tinha olhos cor de mel-de-abelha e disse que eu era “muito esperta”. Não que seja o tipo de elogio que eu gosto de receber de alguém que acho bonito, mas ficou marcado. De qualquer forma, ele descobriu que sou míope; um grau pequeno, na verdade, era provável que nem me causasse nenhum desconforto, se eu não forçasse tanto os olhos, assistindo tantas aulas e passando tantas horas na frente de um computador. Contudo, não sendo o caso, ele me aconselhou o uso de óculos. No final de semana que se seguiu fui com minha mãe ao shopping... aqueles óculos que eu tinha gostado haviam sido vendidos e eu acabei comprando outros, também vermelhos, mas em vez de coração, eram orelhas do coelhinho da playboy da lateral. Não me deixei abalar por isso; estava na promoção e, com o dinheiro que economizei, comprei um livro novo para eu ler no ônibus e no elevador.
Bom, mais eu contei tudo isso só pra dizer que passei a enxergar bem melhor com os óculos. Tudo parecia mais claro, e os rostos das pessoas pareciam mais nítidos, os sorrisos mais brancos e, principalmente, as letras pareciam mais legíveis. Achei incrível quando eu consegui ler a mensagem que a nossa coordenadora sempre colocava na porta, mesmo sentada na última banca. A mensagem dizia: “é lindo um por-do-sol visto da praia, mas, mais lindo, é ver a trilha que você deixou na areia para vê-lo mais de perto”.
Às vezes a gente precisa de lentes de aumento para ver melhor as coisas, mas só descobrimos isso quando sentimos os sintomas da cegueira. Às vezes, é alguém do nosso lado que não tá vendo, e nós sabemos disso, mas não podemos emprestar a eles as nossas lentes de aumento, porque elas só fariam com que eles vissem as coisas de forma distorcida.
Cada um necessita de um grau diferente e cada um leva seu tempo para descobrir qual é. E vai ver você nem necessita! Vai ver é só vista cansada...

4 de fevereiro de 2009

de veneta.

Hoje foi um dia estranho e tumultuado. Caminhei por tantas ruas, entrei em tantas lojas, passei por tanta gente, falei com tantos estranhos, sorri para tantos motoristas, atravessei tantos semáforos e, entretanto, não fiz nenhuma diferença. Nem para mim, nem para ninguém. Eu apenas me deixei embalar pelo chacoalhar monótono do ônibus, fixei o olhar num horizonte imaginário, e passei o dia alienada sobre qualquer acontecimento a minha volta. Não lembro de ter reparado em nenhuma pessoa especial, nem mesmo num rapaz mais garboso que me houvesse cruzado o caminho. Não ajudei nenhum senhor(a) a atravessar a rua e, por incrível que pareça, ninguém me pediu um trocado na parada, ninguém me vendeu uma pipoca doce na faixa de pedestres. Ninguém.
Sinto-me como se eu existisse, e só. Mas, sob o meu ponto de vista, existir não basta. É preciso coexistir. De que valem os sorrisos que se sorri automaticamente? São apenas reflexos espontâneos com os quais meu cérebro já está habituado; como desejar bom dia aos vizinhos, falar sobre o tempo com o porteiro e perguntar ao padeiro se o pão está quentinho.
Odeio essa sensação de saber o que vai acontecer comigo. Gosto de ser pega de surpresa pela chuva. Gosto de encontrar, por acaso, uma pessoa que eu não via há muito tempo. Gosto de receber uma ligação inesperada. E gosto até de perder o ônibus de vez em quando... É como se fosse uma prova de que eu ainda não sou dona do tempo, que eu ainda não posso controlá-lo. O que não é de toda verdade, contudo. Eu sei que, se eu ligar a televisão de madrugada, metade dos canais vão estar fora do ar, mas na globo passa desenho animado. Sei que, se eu sair de casa às 6:30h, chego rapidamente ao meu destino; mas que se eu esperar para sair às 7:00h, provavelmente pegarei um trânsito do inferno e me atrasarei. Sei que o restaurante em frente ao meu antigo colégio abre para almoço às 11:30 e renovam a comida de meia em meia hora, até às 13:30; depois disso você tem que se contentar com os restos. Eu sei que a agência de banco tem uma fila imensa depois das 14hs e que fecha exatamente às 16h; não importa se você ficou esperando até 15:59, se na sua vez estiver dando 16h, volte outro dia! Eu sei que às 19hs em ponto começa a “voz do Brasil” no rádio. Sei que minha locadora não fecha às 22h, como diz no folheto, mas às 22:30h. Sei a duração dos filmes que vou assistir, a duração das músicas que vou ouvir, sei que se eu extrapolar os 200 minutos que tenho direito para ligações interurbanas, a conta de telefone vai vir mais cara. E sei de tudo, porque tudo é previsível. Todos são previsíveis. Eu sou previsível.
Como eu disse, hoje foi um dia estranho. Acho que, afinal, não passo de uma espectadora; eu assisto da poltrona o show da vida passar e avançar rápidamente. E enquanto os protagonistas vão fazendo história, eu fico aqui, escrevendo para não ficar de fora.

22 de janeiro de 2009

Se o silêncio falasse,

seria como um sopro atônito de desabafo.
Um som sincopado disposto entre códigos e ecos, uma mistura de todas as mágoas antes abarcadas e absorvidas. Ele choraria a morte de todos aqueles que imploraram pela vida, naquele ultimo momento, quando a voz está cava e trêmula demais para ser ouvida, quando parece que há um bolo na garganta impedindo que o ar siga o seu fluxo inato.
Ele choraria a desilusão de todos os amores perdidos, que, mudos, foram se perdendo no tempo, entre os vilões da mentira e do egoísmo, que estão sempre a sussurrar ao ouvido dos mais fracos. Sussurros, embora baixos, são ouvidos; enquanto o silêncio, que não tem voz nem nada, resigna-se em apenas tocar nas almas, como dedos de seda resvalando pelo espírito. Alguns sentem o arrepio e entendem... outros, porém, colocam a culpa no vento que, às vezes, ressoa como trombetas para que o silêncio se sufoque no vazio da própria impessoalidade.
Ah, não deve ser fácil ser sempre impessoal e imparcial... ter que ficar sempre quieto e calado, como uma parede sem olhos nem ouvidos. Também não deve ser fácil ouvir os lamentos de todos sem nunca se queixar, sem nunca se lamentar também...
E se o silêncio já houver se apaixonado? Deve nos invejar, quando nos ouve declamar um poema, confessar uma paixão, cantar aquela musiqueta chata que, embora seja mesmo chata, nos lembra daquele velho amor de verão.
Se nos sentimos sozinhos, abraçamos o silêncio. Se estamos com medo, o acusamos de fúnebre. Se o barulho nos incomoda, clamamos por ele. E quando ele vem, o chamamos solidão...
Se o silêncio falasse, eu o ouviria quietinha, até que ele se cansasse e adormecesse em meus braços, assim como eu (tantas vezes) o fiz.

30 de dezembro de 2008

Sobre classificações.

Classificados, classificáveis e eliminados.
Pelo menos temos CLASSE.
(E os excluídos?)

5 de novembro de 2008

Contagem progressiva (!)

Sabe, se eu morasse no Sul ou no Sudeste do Brasil, nesse momento eu estaria recebendo mensagens, scraps e até ligações de algumas pessoas. Entretanto, como aqui não tem horário de verão, faltam ainda 39 nove minutos para que isso aconteça. E se você pensar, isso é muito estranho. 39 minutos são suficientes para determinar se eu tenho ou não maturidade para arcar com meus atos numa prisão? ou para encher a cara em um bar? ou para pegar o carro dos meus pais e sair dirigindo pela cidade? E o que significa, afinal, completar 18 anos? Ouço dizer que a maioridade trás consigo responsabilidades e independências. Mas eu, sinceramente, não entendo como isso pode ser. Até 39 minutos atrás eu não tinha responsabilidades? E porque os números têm tanta importância? Conta-se as horas, a idade, os anos. Conta-se as cédulas, as moedas, o saldo no banco. Conta-se os andares do prédio, o zeros do seu salário mínimo, os noves da sua operadora telefônica. Conta-se os setes nos boletins, os acertos numa prova, a nota no vestibular. Conta-se o número do nosso RG, do CPF, do título de eleitor. Conta-se as ruas, os quarteirões. Conta-se para calcular o gasto no taxi, para mudar de canal. Conta-se os dias que restam para o fim de semana, para o fim do mes, para o fim do ano. Mas não se conta mais contos, nem se canta mais cantos. Só se conta. Então vamos lá, faça as contas: quanto vale os números da sua certidão de nascimento? Quem sabe se você der um desconto, alguém queira te comprar

Nota: Parabéns Marina! Não pude falar com você, mas tenha certeza que eu lembrei. Te desejo tudo de melhor! E não seja um número rsrs.

Quem me segue (se perde comigo)