13 de janeiro de 2010

Ob.sessão da Noite.

Era por uma janela que ele a espiava todas as noites. Sentava-se na varanda, abastecia-se de suprimentos, binóculos, e esperava que ela, em algum momento, abrisse a cortina. Quando as noites eram de lua cheia, colocava também uma música instrumental para orquestrar a tão esperada aparição. Sim, porque nessas noites – em especial – a aparição era definitivamente devastadora: a persiana se abria lentamente, revelando inicialmente apenas fatias aleatórias da mulher; mas à medida que a cortina ia sendo puxada, um corpo feminino completamente nu ia se revelando, como uma lua crescente que crescesse em questão de segundos. Não era todo dia que se via duas luas assim, uma ao lado da outra, competindo para ver quem tinha o brilho mais ofuscante.
Naquela noite de lua cheia, entretanto, ela não apareceu. Ele se levantou da cadeira, sentindo uma mistura de decepção e preocupação, e conferiu o calendário na porta da geladeira: não era domingo, nem segunda, nem quinta, portanto ela não estava no Ballet, na academia ou jogando baralho com seu grupo de amigos fúteis e desocupados. Os pais dela já estavam mortos, e também não havia irmãos ou tios que pudessem importuná-la tão tarde da noite.
Teria arranjado um novo namorado? Mulheres bonitas, como ela, eram sempre cheias de admiradores, como ele, e não seria de se estranhar que algum deles houvesse se declarado. E menos de se estranhar ainda que ela houvesse aceitado, já que andava muito triste e carente desde a morte inesperada do seu último namorado. O coitado fora atropelado por um opala antigo na saída do trabalho. Os policiais não encontraram o responsável, pois o veículo fora rapidamente abandonado e não havia placa ou digitais que pudessem identificar o proprietário. Testemunhas oculares afirmaram ter visto um homem bastante gordo, só de cueca e careca caminhar pelas redondezas, mas afirmaram também que seria impossível que alguém daquela largura tivesse saltado do carro com tamanha agilidade, a ponto de não ser flagrado por ninguém. Os policiais prometeram não desistir do caso, uma vez que ela aparecera aos prantos na delegacia, usando uma calça legging e um top de ginástica – era segunda feira, dia de academia. Desde então, ela só vestia preto e não parava de ouvir as músicas muito ruins que o falecido namorado gostava de ouvir, que ela costumava odiar, e cujos CDs desapareceram misteriosamente – ela tivera que comprar todos novamente. Portanto, realmente não seria de se estranhar se ela tivesse decidido romper com o luto, e seria até bom que ela voltasse a usar lingerie vermelhas, mas ele preferia não pensar na idéia de sua musa estar com outro rapaz tão cedo.
Ainda frustrado, ele abriu a geladeira. Retirou uma torta de chocolate particularmente apetitosa e devorou metade dela em alguns minutos, enquanto mantinha o olhar fixo em algum ponto nulo na parede da cozinha. Ela tinha que ter escolhido aquela noite para não aparecer? Justamente aquela noite, pela qual esperou ansiosamente desde a manhã anterior, quando acordara imerso em suor. Ele sonhara com ela. Sonhara que ela vinha à sua casa vender biscoitos para arrecadar fundos para a formatura. Ela usava um short curto de barra desfiada e uma blusa branca. Lembrava-se de ter desejado – no sonho – que começasse a chover ali mesmo, no corredor do prédio, só para que pudesse notar os mamilos dela se enrijecendo. Contudo, na falta da chuva, ele a tomou nos braços e carregou até o chuveiro, deixando rastros de biscoito por toda casa. Depois disso, ele só lembrava de ouvi-la gritando desesperadamente, chamando-o de ogro tarado. Em outro momento ele se sentiria ofendido e provavelmente se afastaria, envergonhado de si mesmo, mas ele olhou pra aquele corpo sinuoso, tão próximo ao seu – volumoso e pesado –, e todo receio foi embora pelo ralo, junto à água quente que caía do chuveiro enchendo o banheiro de vapor.
Assim que ele engoliu o ultimo pedaço de torta, sua visão foi gradativamente recuperando o foco, e todas as imagens esfumaçadas que preenchiam sua mente, em forma de sonho, foram se tornando mais nítidas; as lembranças foram se tornando cada vez mais reais. Subitamente os olhos dele se arregalaram. A garganta se fechou para que toda a torta, animalescamente devorada, não voltasse à boca de uma só vez. Em um surto de tremedeira, ele cambaleou até o banheiro, apoiando-se nas paredes. Abriu a porta devagar – como se procurasse uma fenda no tempo. O ranger das dobraduras assemelhavam-se aos ruídos que advinham do seu próprio cérebro, que maquinava freneticamente, tentando assimilar o redemoinho de informações que se revelava de forma tão inesperada. Quando a porta finalmente se abriu, o choque: o corpo dela, esparramado sobre os azulejos encardidos do banheiro. As roupas estavam rasgadas, as pernas em uma posição no mínimo improvável (até mesmo para a melhor das bailarinas). E por fim, o rosto branco com olhos saltados às órbitas confirmaram a total ausência de vida.
Desesperado, ele se afastou do cômodo. Chocou-se ainda com a parede antes de correr para o quarto  e pegar um molho de chaves. Desceu para o estacionamento exatamente como estava: apenas com roupas de baixo. Com as mãos trêmulas, escolheu a chave para um dos carros antigos que fazia parte da sua coleção. Entrou no veículo, girou a chave na ignição e foi embora, ouvindo uma música muito ruim.

26 comentários:

Natália Corrêa disse...

[Confesso que eu não tinha a mínima intenção de postar esse conto, mas um amigo me convenceu. Não sejam muito cruéis comigo]

Pâmela Marques. disse...

Acontece desse jeito mesmo. Já vi.

Sem mais Natália. Mexeu comigo demais.

The Owl disse...

Cruéis por quê? Eu gostei muito do conto!Faz meu estilo.

Bom, com aquele obsessão toda, boa coisa não podia dar...

Mais um imundo no mundo impuro. disse...

Você tem o dom menina, cade detalhe impressiona!

Tiago Fagner disse...

:O
Oh my god! Assassino passional! Ele roubou a personalidade do ex-dela para tentar conquistá-la.
Ah, e o post ruim que você tinha colocado, excluiu foi???
Pq esse aqui ficou ótimooooo!

PS: Ainda n acredito no destino dela. Medoooo :S

Franklin Catan disse...

Putz, esse lugar aqui é foda em, muito interessante.. já estou seguindo e estão de parabéns é muito bom mesmo! Adorei..
Um grande abrço!

Elizabeth disse...

amiga *.*
adorei, uma coisa meio "epifania" enquanto o cara comia torta de chocolate, sei lá, me lembrei de "Janela Secreta".

P.S: vooolta nati!

zornshapesthevoid disse...

Muito bom, prende até o fim, sensual e mórbido.
Só acho que faltou atmosfera descritiva que correspondesse.

Tatiane Trajano disse...

Fez muito bem em postar esse conto aqui. Eu gosto sempre do que leio por aqui..

Tava com saudades!!!

Beijos
=***

Felipe Braga disse...

Que bom que resolveu postar!
Seria quase uma heresia guardar um texto como este sem mostrá-lo.

Parabéns!
Bela narrativa, belo conto.

Beijos.

Vitória Kubitz disse...

Putz,que conto mais íncrivel!
Cara,sem palavras!
Ele prende o leitor,tem mistérios e te surpreende no final.
Você tem muito talento.
Beijos,
;***

César Fernández disse...

Droga, eu gostava de pensar que era o único a ter lido esse conto.

Juliana Marques. disse...

seria um crime não postá-lo. FATO!

Natália Corrêa disse...

Amor, você foi o único por um tempo, mas como não disse nada, eu fiquei com medo de perguntar e mandei pra algumas outras pessoas menos exigentes =P

Pâmela Marques. disse...

http://postcoletivo.blogspot.com/2010/01/proxima-postagem-20012010.html

Tem votação para a postagem da semana que vem, Natália.
Caso você queira avisar outros blogueiros, fique a vontade.

Ah, eu nem gosto de micaretas. Muito menos de axé, mas tenho uma paixão enorme pelo Araketu.

Alan Félix disse...

Caralho, muito bom o conto. Ótimo suspense, você é boa nisso já falei.

Seria um crime não tê-lo postado.

Alan Félix disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Erica Vittorazzi disse...

Natália, você é muito talentosa, acho até que já te falei. Muito bom este conto.

Luciana disse...

Que legal!! Comecei a ler sem muita atenção, mas fui ficando presa e adorei o que li.
Esse conto ficou ótimo, Nat!

Isso dele "apagar" e do nada lembrar de tudo me fez lembrar o filme "Efeito Borboleta", que eu amo!

Gostei demais.
Beijão!

Marcel Hartmann disse...

Que cruel, o quê, ficou demais! Adorei, ficou muito fluído, não ficou estancado, forçado, sabe? Adorei.

beijo

disse...

Nossa! Que bom qe voce resolveu dividí-lo conosco.

ótima criação.

Uriálisson disse...

seu amigo tava certo,muito boa a historia.
tinha lhe adcionado no msn,e entro sempre,não sei porque não nos vimos,deve ter dado algum erro.Mas ja add de novo,caso não apareça, o meu é uri_matos@hotmail.com . Falei por aqui porque vc falou que não vê email sempre,rs

A Magia da Noite disse...

há quem perca a noite a observa a sua obsessão.

Charlie B. disse...

Eu estou chocado, abismado, pasmo, sem saber o que pensar. De fato é uma de suas melhores histórias, ainda penso em Margarida com seu cheiro de pão, na menina que vivia se apaixonando, ah, são boas e belas histórias. Acho que encontrei a versão jovem e feminina de Stephen King, incrivlemente temida.

Beijos Mademouseile Nat!

Charlie B.

Erica Ferro disse...

Tu és o talento em pessoa!

Que final surpreedente!

Parabéns, a cada dia fico mais fã de ti.

Beijo.

Luciana disse...

esse texto prende vc até o final, que eh supreendente!

Quem me segue (se perde comigo)