24 de janeiro de 2010

A cidade insone



O sono desce as avenidas
Banhadas do sangue inocente
De algum indigente
Esquecido na sarjeta
Quem sabe, com um tiro na cabeça,
Esperando pela morte
Já que a sorte não vem

Sem freio, o sono se esconde
Nas esquinas
Sob a saia das meninas
Que as tiram por qualquer tostão
Pra qualquer barão
Que minta bem
E troque falsas esperanças
Por uma trepada de graça

Tangido pela fome,
O sono some nas vielas
Em busca de abrigo,
Mas o céu chove sobre as pontes
E as crianças debaixo delas
Choram com frio e com medo
De que o resto de suas vidas
Seja um beco sem saída

O sol já vai surgindo,
Mas o sono ainda vaga
Entre as putas humilhadas
E os pobres exilados
Que dormem nas calçadas
Onde os gritos sussurrados
E as atrocidades impunes
Só a cidade testemunha
Em suas madrugadas insones.

19 comentários:

Charlie B. disse...

Ácida, poesia ácida com doses de insultos, realidade, rancor, ador e toque humano, comecei o meu dia lendo-a, maravilha!

Beijo,

Charlie B.

Ps. Votou pra casa já? Disse que tinha ido para um lugar perdido no nada, rs. beijo.

The Owl disse...

Texto forte. Um dos melhores que vc já escreveu! Adorei a imagem tb.

Luana Gabriela disse...

Putz, acho simplesmente demais quem consegue lidar com esta realidade dessa forma poética. Transformar tristeza pura em poesia assim, social. Eu nunca conseguiria.

Muito bom, parabéns!

Alan Félix disse...

Realidade social brasileira.

Fechamos os olhos e ignoramos para viver melhor.

César Fernández disse...

Você escreveu um poema tão urbano pra quem tá na roça... Muito bom!
:*

Mais um imundo no mundo impuro. disse...

Gosto disso, usar a poesia para fazer uma denúncia social, a arte também promove mudança.

Tiago Fagner disse...

É tudo tão cru que incomoda. A verdade nas palavras, e embebida de poesia, torna a realidade mais suportável do que aquela que os olhos veem e o coração finge que não sente.

Bju Nat, arrazou de novo!

Marcel Hartmann disse...

putz, olha só, eu já cansei de te elogiar e tal hahaha então eu só vou comentar sobre a poesia. cada realidade é uma realidade e cada um vive na sua como lhe for melhor.

beijão

Márcio Vandré disse...

A cidade nunca fecha os olhos! E essa frase teve uma belíssima interpretação nesse seu texto!
Meus parabéns!
Um beijo!

R disse...

esta poesia que você faz, para mim é uma das melhores: com ácidez e insultos a sociedade mas que mesmo assim consegue transformar em algo muito poetico -porque essa realidade não tem nada de linda.

●๋• тнαi иαรciмєитσ disse...

As megacidades são, antes de tudo, uma contradição: ao mesmo tempo em que comtemplamos prédios suntuosos podemos tocar essa realidade mais obscura.

Parabéns pelo poema!

Vital disse...

queria uma coisa boa pra dizer se isso pudesse transmitir o que causou-me.

Erica Ferro disse...

Um belo poema de uma realidade nem tão bonita assim.

Beijo.

Mikaele Tavares disse...

Quando parte da sociedade vai dormir outra vive ainda mais a sua fria realidade.
Belo poema.

Beijos

Marilia Oliveira disse...

muito bom! adorei...

Uriálisson disse...

doce,violento e intenso...

Luciana disse...

intenso :)

Por que você faz poema? disse...

A cidade não dorme, a cidade espera.

Clara disse...

incrível!!
adorei esse texto, adoro seu blog (acho que já tinha passado por aqui antes).
volto sempre
p.s: a primeira foto do meu blog, que você perguntou, não é de filme, é do Syd Barret, já foi um membro do Pink Floyd (minha banda predileta), não sei se você conhece.
beijo

Quem me segue (se perde comigo)