esse papo de "não quero falar" não cola mais, nem esse seu jeitinho esquisito de dizer não dizendo sim. Do que você tem medo afinal? De se entregar a uma dança até seus pés se encherem de calos? De deixar seus cabelos emaranhados com o vento? ou que sua maquiagem escorra? Eu tenho um conselho. Saia detrás dessa sua máscara, toda essa base que você usa está te deixando branca demais. e você já reparou em quantas pessoas se deitam sob o sol para pegarem uma cor? fiz isso há pouco tempo, fiquei vermelha e ardida, mas continuo sendo a branquela do papai. sabe o que isso significa? as mascaras sempre caem, e algumas nem mesmo duram tempos o bastante para serem acreditadas. Em outras, só você acredita. Ou apenas quer acreditar? Dane-se. São apenas sacrifícios vãos que as pessoas vazias fazem para se sentirem mais preenchidas. Mas sabe o que mais? Não seja vazia. Sorria mais, perdoe mais, cante mais, sinta o cheiro da chuva mais vezes, e de repente você vais e sentir cheia de amor. Amor para dar. Amor que lhe foi dado. Porque as pessoas gostam de amar! Amam artistas, canções, animais de estimação e até mesmo dia das semanas. Porque não amariam você? Não precisa mudar. Procure o que há de bonito em você, mas não esconda o que há de feio com base. Não amenize as verdades com mentiras. Não deixe de sonhar para não acordar. Não deixe de se apaixonar pra não sofrer. Não deixe de andar de avião pra não cair. Voe alto, minha querida.
15 de janeiro de 2009
Apenas mais uma de amor.
Era uma sala pequena, mas a tintura branquíssima emprestava ao âmbito uma amplidão e uma placidez que não condiziam ao local. Quanto desespero já não se passara entre as paredes daquele hospital? Perguntava-se uma jovenzinha pálida de cabelos extremamente vermelhos, cujas pequeninas mãos repousavam sobre um livro de capa grossa e chamativa. Era um romance épico. Anastácia sorria para si mesma, imaginando em como os sentimentos eram intensos naquele tempo — ou pelo menos em como os artistas acreditavam nisso. Acreditar é o primeiro passo para conquistar, dizia ela ao seu irmão mais velho, quando ele demonstrava laivos de desapontamento para com a vida. Mas não era verdade? As pessoas morriam por amor, porque acreditavam em sua força. Agora, entretanto, morriam apenas por desastres, acidentes, homicídios ou mesmo suicídios. Tão triste, pensava ela. O sorriso em seu gosto parecia que ia se esvaindo aos poucos, enquanto os olhos dela se embebiam da agonia daquelas pessoas que, estando numa mesma sala, sequer pensavam em compartilhar sua dor uns com os outros. Todos fechados em seus casulos, ocupados demais com suas próprias amarguras.
Anastácia relanceou os olhos, e suas íris esmeralda recaíram novamente sobre o livro. Abriu-o. Folheou-o. Naquelas palavras encontrava o alento que a realidade não oferecia. E que seus pés, impossibilitados de se moverem, não podiam partir em busca.
Somente quando o som de ranger da porta se propagou pelas paredes da sala, Anastácia retornou a realidade. Esboçava um sorriso sereno nos lábios, um ar de quem desperta de um sonho bom e faz uma prece silenciosa para que seja verdade.
Estivera em Roma, na Era em que homens enfrentavam leões para provarem seu amor. E Havia um rapaz: Benjamim Lourenço, o nome dele. Integrava o exercito de Marco Aurélio, um dos melhores cavaleiros, e acabara de regressar de uma guerra sangrenta contra os Germanos.
Agora ele estava indo de encontro à sua secreta e amada Juliett, filha do imperador. Uma paixão proibida, certamente. Mas quando há amor verdadeiro, uma faísca transforma-se em fogaréu intenso num conciso piscar de olhos; e quando menos se espera, já não se ouve mais a voz da razão ou do bom senso, apenas as batidas violentas de um coração aflito de tanta saudade.
Ele cruzou, em passos céleres, a grande multidão que festejava a volta vitoriosa dos cavaleiros de Roma. Havia uma imensa profusão de danças e bebidas; as mulheres felizes por seus maridos terem voltado em paz da guerra. Das que os haviam perdido, entretanto, pouco se lembrava. Mesmo naquele tempo, a alegria da maioria já ofuscava a tristeza dos poucos; dos parcos e opacos eremitas.
Quando Benjamim transpôs os portões, estava a sorrir. Era um homem jovem e bonito, de tez trigueira, olhos negros como a noite que os acobertava quando fugiam para verem, juntos, a lua se posicionar no ponto mais alto do céu. Grande céu. Sendo ele (o céu) tão extenso, como as estrelas não se perdem? Indagava Juliett a si mesma, debruçada na janela, a esperar seu amado e amante, seu guerreiro e herói, ou, somente, seu querido Ben.
Ela olhou-o se aproximar pelos jardins. E como eram lindos os jardins! Flores de todas as qualidades e cores; rosas, heliotrópios, lírios grandes e pequenos. Uma imensidão verdejante circundando o palácio colossal, erguido em mármore, coberto de hera.
Benjamim se aproximou mais dos muros do palácio. Era o momento em que Juliett — enrolando os cabelos nas pontas dos dedos — sorri-lo-ia com suas feições de anjo, e confessaria ter orado todas as noites por sua volta. Anastácia sabia porque já lera aquele mesmo livro outras nove vezes (não possuía dinheiro para novos); em cada uma delas, imaginava novos detalhes no cenário, nas expressões, nas palavras... Era como se pudesse mergulhar mais profundamente nas páginas, se as folheasse o bastante. Mas, naquele momento, parara de folhear. O ranger da porta parecia ter se introduzido no curso da história, sobrepujando todos os outros sons.
Anastácia fechou o livro, acariciando delicadamente a capa, e meneou a cabeça na direção da porta.
Foi imediata, sua reação. Seus olhinhos verdes se estreitaram um pouco, ela pestanejou descrente. O insubstancial cheiro de flores que ainda respirava fora substituído por um cheiro amargo e agressivo de óleo dísel. Mas em despeito à drástica mudança de aromas, ela sorveu longos haustos de ar: era bom. Era como se sentisse o cheiro peculiar dos cavalos de Benjamim, aquela mistura entre suor e pólvora que era estranhamente entopercente, como um vício que não se quer largar. A surpresa maior veio em seguida, entretanto. Um homem fora o causador do ranger, ele adentrou a sala de espera apoiando-se das paredes. A camisa dele estava manchada de sangue na altura do ombro, e as mãos pareciam trêmulas e sem força. Quando Anastácia fitou-lhe o rosto pálido (de quem perdera muito sangue), sobressaltou-se. Aqueles olhos, tão escuros e profundos que mais pareciam buracos negros, eram embaraçosamente familiares, a pele morena, naturalmente bronzeada e castigada pelo sol; tudo e cada mínimo detalhe era igualmente belo e hipnotizante, como Benjamim na história.
Anastácia, por curiosidade ou preocupação, deteve-se naquela figura por alguns instantes. Criara um homem no recôndito dos seus pensamentos e agora ele estava ali, à sua frente, cambaleando para junto de si.
Quis ajudá-lo, mas não havia nada que pudesse fazer. Amaldiçoou seus pés inválidos por não poderem levá-la a ele, por privarem-na na honra de apoiá-lo em um dos seus ombros.
— Benjamim! — clamou angustiada, ao vê-lo desabar ao chão, quase tocando seus (amaldiçoados) pés. — Ajudem-no, por favor! — implorou a ninguém em especial.
Mas todos ainda pareciam demasiadamente alheados à realidade para se moverem. Apenas um senhor, já meio encurvado pela idade, ousou se manifestar. Ajoelhou-se diante do homem caído e ergueu-o o máximo que pôde. Um rapaz bem moço também se levantou depois, e, um minuto mais tarde, já havia cinco novas pessoas a ajudar. Postaram o misterioso numa cadeira ao lado de Anastácia. Ela mostrou-lhe os dentes brancos, tocando-lhe suavemente a tez grosseira do rosto dele.
— Do que você me chamou? — a voz dele parecia gorgolejar, quando falava. E ele soltou um suspiro, como se estivesse muito, muito cansando; como se somente falar custasse-lhe um esforço enorme.
— Benjamim.
— É esse o nome que você dá a estranhos? — com os olhos fechados, ele retorceu os lábios num sorriso cheio de dor.
— Não, esse nome é especialmente seu, estranho. Mas agora fique quieto, precisa poupar suas forças. Você levou um tiro? — ao perceber que sua pergunta exigiria dele uma resposta, acrescentou: — ora que tola eu sou, não responda, apenas descanse.
“Benjamim” deve ter achado graça na forma como Anastácia se repreendia, mas não pode sorrir. Engasgou e começou a tossir sangue. Parecia que seus ossos chacoalhavam dentro dele, cada vez que seus pulmões expeliam rajadas de hemorragia interna.
— Por favor, continue falando comigo. — ele implorou com suas últimas forças, e seus olhos se fecharam novamente. Estava mesmo muito, muito cansado.
— Sim, claro. — e se pôs a contá-lo sobre Roma, sobre os cavaleiros destemidos e os leões. Contou-o sobre Benjamim e Juliett, sobre como o amor deles resistira até mesmo a repressão imperial e sobre como os finais felizes deveriam ser reais.
Se ele ouvia, não demonstrava qualquer traço de atenção. Mas ela continuou a falar.
Anastácia relanceou os olhos, e suas íris esmeralda recaíram novamente sobre o livro. Abriu-o. Folheou-o. Naquelas palavras encontrava o alento que a realidade não oferecia. E que seus pés, impossibilitados de se moverem, não podiam partir em busca.
Somente quando o som de ranger da porta se propagou pelas paredes da sala, Anastácia retornou a realidade. Esboçava um sorriso sereno nos lábios, um ar de quem desperta de um sonho bom e faz uma prece silenciosa para que seja verdade.
Estivera em Roma, na Era em que homens enfrentavam leões para provarem seu amor. E Havia um rapaz: Benjamim Lourenço, o nome dele. Integrava o exercito de Marco Aurélio, um dos melhores cavaleiros, e acabara de regressar de uma guerra sangrenta contra os Germanos.
Agora ele estava indo de encontro à sua secreta e amada Juliett, filha do imperador. Uma paixão proibida, certamente. Mas quando há amor verdadeiro, uma faísca transforma-se em fogaréu intenso num conciso piscar de olhos; e quando menos se espera, já não se ouve mais a voz da razão ou do bom senso, apenas as batidas violentas de um coração aflito de tanta saudade.
Ele cruzou, em passos céleres, a grande multidão que festejava a volta vitoriosa dos cavaleiros de Roma. Havia uma imensa profusão de danças e bebidas; as mulheres felizes por seus maridos terem voltado em paz da guerra. Das que os haviam perdido, entretanto, pouco se lembrava. Mesmo naquele tempo, a alegria da maioria já ofuscava a tristeza dos poucos; dos parcos e opacos eremitas.
Quando Benjamim transpôs os portões, estava a sorrir. Era um homem jovem e bonito, de tez trigueira, olhos negros como a noite que os acobertava quando fugiam para verem, juntos, a lua se posicionar no ponto mais alto do céu. Grande céu. Sendo ele (o céu) tão extenso, como as estrelas não se perdem? Indagava Juliett a si mesma, debruçada na janela, a esperar seu amado e amante, seu guerreiro e herói, ou, somente, seu querido Ben.
Ela olhou-o se aproximar pelos jardins. E como eram lindos os jardins! Flores de todas as qualidades e cores; rosas, heliotrópios, lírios grandes e pequenos. Uma imensidão verdejante circundando o palácio colossal, erguido em mármore, coberto de hera.
Benjamim se aproximou mais dos muros do palácio. Era o momento em que Juliett — enrolando os cabelos nas pontas dos dedos — sorri-lo-ia com suas feições de anjo, e confessaria ter orado todas as noites por sua volta. Anastácia sabia porque já lera aquele mesmo livro outras nove vezes (não possuía dinheiro para novos); em cada uma delas, imaginava novos detalhes no cenário, nas expressões, nas palavras... Era como se pudesse mergulhar mais profundamente nas páginas, se as folheasse o bastante. Mas, naquele momento, parara de folhear. O ranger da porta parecia ter se introduzido no curso da história, sobrepujando todos os outros sons.
Anastácia fechou o livro, acariciando delicadamente a capa, e meneou a cabeça na direção da porta.
Foi imediata, sua reação. Seus olhinhos verdes se estreitaram um pouco, ela pestanejou descrente. O insubstancial cheiro de flores que ainda respirava fora substituído por um cheiro amargo e agressivo de óleo dísel. Mas em despeito à drástica mudança de aromas, ela sorveu longos haustos de ar: era bom. Era como se sentisse o cheiro peculiar dos cavalos de Benjamim, aquela mistura entre suor e pólvora que era estranhamente entopercente, como um vício que não se quer largar. A surpresa maior veio em seguida, entretanto. Um homem fora o causador do ranger, ele adentrou a sala de espera apoiando-se das paredes. A camisa dele estava manchada de sangue na altura do ombro, e as mãos pareciam trêmulas e sem força. Quando Anastácia fitou-lhe o rosto pálido (de quem perdera muito sangue), sobressaltou-se. Aqueles olhos, tão escuros e profundos que mais pareciam buracos negros, eram embaraçosamente familiares, a pele morena, naturalmente bronzeada e castigada pelo sol; tudo e cada mínimo detalhe era igualmente belo e hipnotizante, como Benjamim na história.
Anastácia, por curiosidade ou preocupação, deteve-se naquela figura por alguns instantes. Criara um homem no recôndito dos seus pensamentos e agora ele estava ali, à sua frente, cambaleando para junto de si.
Quis ajudá-lo, mas não havia nada que pudesse fazer. Amaldiçoou seus pés inválidos por não poderem levá-la a ele, por privarem-na na honra de apoiá-lo em um dos seus ombros.
— Benjamim! — clamou angustiada, ao vê-lo desabar ao chão, quase tocando seus (amaldiçoados) pés. — Ajudem-no, por favor! — implorou a ninguém em especial.
Mas todos ainda pareciam demasiadamente alheados à realidade para se moverem. Apenas um senhor, já meio encurvado pela idade, ousou se manifestar. Ajoelhou-se diante do homem caído e ergueu-o o máximo que pôde. Um rapaz bem moço também se levantou depois, e, um minuto mais tarde, já havia cinco novas pessoas a ajudar. Postaram o misterioso numa cadeira ao lado de Anastácia. Ela mostrou-lhe os dentes brancos, tocando-lhe suavemente a tez grosseira do rosto dele.
— Do que você me chamou? — a voz dele parecia gorgolejar, quando falava. E ele soltou um suspiro, como se estivesse muito, muito cansando; como se somente falar custasse-lhe um esforço enorme.
— Benjamim.
— É esse o nome que você dá a estranhos? — com os olhos fechados, ele retorceu os lábios num sorriso cheio de dor.
— Não, esse nome é especialmente seu, estranho. Mas agora fique quieto, precisa poupar suas forças. Você levou um tiro? — ao perceber que sua pergunta exigiria dele uma resposta, acrescentou: — ora que tola eu sou, não responda, apenas descanse.
“Benjamim” deve ter achado graça na forma como Anastácia se repreendia, mas não pode sorrir. Engasgou e começou a tossir sangue. Parecia que seus ossos chacoalhavam dentro dele, cada vez que seus pulmões expeliam rajadas de hemorragia interna.
— Por favor, continue falando comigo. — ele implorou com suas últimas forças, e seus olhos se fecharam novamente. Estava mesmo muito, muito cansado.
— Sim, claro. — e se pôs a contá-lo sobre Roma, sobre os cavaleiros destemidos e os leões. Contou-o sobre Benjamim e Juliett, sobre como o amor deles resistira até mesmo a repressão imperial e sobre como os finais felizes deveriam ser reais.
Se ele ouvia, não demonstrava qualquer traço de atenção. Mas ela continuou a falar.
12 de janeiro de 2009
Avante, errante!
Eu não sou, estou. Estou vivendo da forma mais errada que posso. Passo a madrugada acordada, durmo durante o dia. Digo o que não devo dizer, me faço de surda quando não quero ouvir. Ignoro quando me criticam, me empertigo quando me elogiam. Tenho medo do que não conheço, mas não conheço quase nada. Às vezes quebro promessas, às vezes prometo o que não posso cumprir. Sorrio quando estou triste, choro quando devia sorrir. Brigo quando estou de mau humor, fico de mau humor quando durmo pouco, durmo pouco quando tenho insônia, tenho insônia quando estou confusa, fico confusa quando tento me entender, tento me entender quando não entendo mais nada, não entendo nada quando deixo tudo para o ultimo momento, deixo tudo para o ultimo momento quando começo a hesitar, hesito quando não tenho certeza e não tenho certeza de nada que envolve sentimentos, acordes e números. Entretanto, dou tiros certos em alguns corações, canto alto algumas canções, e resolvo muitas equações. Estou vivendo da forma mais errada que posso porque, em meio a tantos erros, hei de um dia acertar.
Clara mente
– O que é esse tal de sol?
– É a lâmpada do mundo.
– E o amor?
– A energia elétrica.
Ah se você soubesse...
Sou aquele abajur empoeirado na sua estante, que cria mais sombra que ilumina.
Mas quem se importa? Você tem luz pra nós dois.
Deve ser incandescente. Sem duvidas, é quente.
E eu sou só fluorescente. Brilho no escuro, quando não tem mais ninguém pra se ver.
Seria invisível, se não fosse você.
(...)
Acho que você sabe, sou como a lua refletindo a cor do seu sol.
Mas quando você se distrai... Ah, eu te pesco com meu anzol!
– É a lâmpada do mundo.
– E o amor?
– A energia elétrica.
Ah se você soubesse...
Sou aquele abajur empoeirado na sua estante, que cria mais sombra que ilumina.
Mas quem se importa? Você tem luz pra nós dois.
Deve ser incandescente. Sem duvidas, é quente.
E eu sou só fluorescente. Brilho no escuro, quando não tem mais ninguém pra se ver.
Seria invisível, se não fosse você.
(...)
Acho que você sabe, sou como a lua refletindo a cor do seu sol.
Mas quando você se distrai... Ah, eu te pesco com meu anzol!
30 de dezembro de 2008
Sobre classificações.
Classificados, classificáveis e eliminados.
Pelo menos temos CLASSE.
(E os excluídos?)
25 de dezembro de 2008
There is always H.O.P.E
Onde está o chão?
A vida às vezes é como areia movediça: quanto mais a gente se move, mais tende a afundar. É triste, pensar que de uma hora pra outra tudo fica diferente; os sorrisos se transformam em lágrimas como em um pestanejar.
A vida às vezes é como areia movediça: quanto mais a gente se move, mais tende a afundar. É triste, pensar que de uma hora pra outra tudo fica diferente; os sorrisos se transformam em lágrimas como em um pestanejar.
É a mágica do tempo. O tempo nunca para. Mas às vezes parece que passa tão devagar... e quando queremos que pare, ele voa.
Acho que o tempo é do contra. Mas eu já fui chamada do contra também; e, na verdade, eu só estava tentando fazer a coisa certa. Talvez o tempo também tenha a coisa certa a fazer, e nem sempre o que é certo é o fácil.
Acho que o tempo é do contra. Mas eu já fui chamada do contra também; e, na verdade, eu só estava tentando fazer a coisa certa. Talvez o tempo também tenha a coisa certa a fazer, e nem sempre o que é certo é o fácil.
E o que fazer quando a areia é tanta que não nos deixa respirar?
Bom, você pode ficar parado e esperar que alguém apareça pra te salvar. Pode ser que apareça cedo. Pode ser que não apareça nunca. Ou você pode cavar. Cavar com toda sua força. E quem sabe você não chega ao Japão?
Quem espera, cansa. Quem anda, alcança. Esse é o meu lema.
Não pare. Não espere para se afogar na areia. Não morra na praia. Levante as mangas da camisa e cave. Eu posso te ajudar, se você quiser. E então, eu garanto, encontraremos um chão para voltar a caminhar.
Um Feliz Natal para todos, e um ano cheio de muita paz e equilíbrio. E um Feliz Natal especial para o André. Meu amor, Raul Seixas já dizia: “Não pense que a vitória está perdida. Tenha fé em Deus, tenha fé na vida” Você pode não acreditar em Deus, mas ele acredita em você. E eu também.
Quem espera, cansa. Quem anda, alcança. Esse é o meu lema.
Não pare. Não espere para se afogar na areia. Não morra na praia. Levante as mangas da camisa e cave. Eu posso te ajudar, se você quiser. E então, eu garanto, encontraremos um chão para voltar a caminhar.
Um Feliz Natal para todos, e um ano cheio de muita paz e equilíbrio. E um Feliz Natal especial para o André. Meu amor, Raul Seixas já dizia: “Não pense que a vitória está perdida. Tenha fé em Deus, tenha fé na vida” Você pode não acreditar em Deus, mas ele acredita em você. E eu também.
5 de novembro de 2008
Contagem progressiva (!)
Sabe, se eu morasse no Sul ou no Sudeste do Brasil, nesse momento eu estaria recebendo mensagens, scraps e até ligações de algumas pessoas. Entretanto, como aqui não tem horário de verão, faltam ainda 39 nove minutos para que isso aconteça. E se você pensar, isso é muito estranho. 39 minutos são suficientes para determinar se eu tenho ou não maturidade para arcar com meus atos numa prisão? ou para encher a cara em um bar? ou para pegar o carro dos meus pais e sair dirigindo pela cidade? E o que significa, afinal, completar 18 anos? Ouço dizer que a maioridade trás consigo responsabilidades e independências. Mas eu, sinceramente, não entendo como isso pode ser. Até 39 minutos atrás eu não tinha responsabilidades? E porque os números têm tanta importância? Conta-se as horas, a idade, os anos. Conta-se as cédulas, as moedas, o saldo no banco. Conta-se os andares do prédio, o zeros do seu salário mínimo, os noves da sua operadora telefônica. Conta-se os setes nos boletins, os acertos numa prova, a nota no vestibular. Conta-se o número do nosso RG, do CPF, do título de eleitor. Conta-se as ruas, os quarteirões. Conta-se para calcular o gasto no taxi, para mudar de canal. Conta-se os dias que restam para o fim de semana, para o fim do mes, para o fim do ano. Mas não se conta mais contos, nem se canta mais cantos. Só se conta. Então vamos lá, faça as contas: quanto vale os números da sua certidão de nascimento? Quem sabe se você der um desconto, alguém queira te comprar
Nota: Parabéns Marina! Não pude falar com você, mas tenha certeza que eu lembrei. Te desejo tudo de melhor! E não seja um número rsrs.
Nota: Parabéns Marina! Não pude falar com você, mas tenha certeza que eu lembrei. Te desejo tudo de melhor! E não seja um número rsrs.
18 de agosto de 2008
(Mirelando)
Temos toda uma vida para entender que uma vida é pouco tempo para dizer mais do que as palavras são capazes de expressar. Mas enquanto me restar vida, eu vou tentando, e talvez, tentando, eu descubra que a lei da relatividade existe de fato, e descubra que não há pouco tempo ou tempo muito, há apenas o tempo, que passa conforme o compasso dos passos, mas não pára para esperar os ponteiros parados.
Quem sabe eu não te levo para uma viagem por entre as estrelas? Dizem que lá esse tempo se demora. Poderíamos nos segurar na calda dos cometas, pisar os pés descalços nas nuvens e saltar de planeta em planeta, até que eu encontrasse novas palavras que fossem além das palavras inventadas. Ou talvez nós não precisemos ir tão longe. Afinal, quem inventou as palavras? E se esse alguém pôde, porque eu não poderia fazê-lo também? Portanto, a partir de hoje, 18 de agosto de 2008, decreto por meio deste escrito – escrito com palavras já escritas por outros tantos escritores – que há agora um novo dicionário. Um dicionário diferente, onde as palavras não são apenas junções aleatórias de consoantes e vogais; mas a sentimentalização (?) das letras. Não, e não se trata de neologismos.
Com vocês, Senhoras e Senhores, minha primeira criação:
S.F. – Mi.re.le: Cativar incondicionalmente. Trazer sorrisos aos rostos dos que estão tristes, e lágrimas de saudade aos rostos dos que estão longe. Mas, principalmente, fazer feliz todas as Natáia’s Corrêa Prota dos Santos Reinaldo, que sofrem por não poder dar um abraço apertado, de feliz aniversário, na melhor amiga do mundo e dizê-la, com seu novo dicionário, o quão especial é sua amizade.
Eis aqui, amigos, o que eu lhes garanto: Se cada um Mirelasse sua Natália como a minha Mirele me Mirela, o mundo seria, tal qual nós duas somos, muito mais amor.
Quem sabe eu não te levo para uma viagem por entre as estrelas? Dizem que lá esse tempo se demora. Poderíamos nos segurar na calda dos cometas, pisar os pés descalços nas nuvens e saltar de planeta em planeta, até que eu encontrasse novas palavras que fossem além das palavras inventadas. Ou talvez nós não precisemos ir tão longe. Afinal, quem inventou as palavras? E se esse alguém pôde, porque eu não poderia fazê-lo também? Portanto, a partir de hoje, 18 de agosto de 2008, decreto por meio deste escrito – escrito com palavras já escritas por outros tantos escritores – que há agora um novo dicionário. Um dicionário diferente, onde as palavras não são apenas junções aleatórias de consoantes e vogais; mas a sentimentalização (?) das letras. Não, e não se trata de neologismos.
Com vocês, Senhoras e Senhores, minha primeira criação:
S.F. – Mi.re.le: Cativar incondicionalmente. Trazer sorrisos aos rostos dos que estão tristes, e lágrimas de saudade aos rostos dos que estão longe. Mas, principalmente, fazer feliz todas as Natáia’s Corrêa Prota dos Santos Reinaldo, que sofrem por não poder dar um abraço apertado, de feliz aniversário, na melhor amiga do mundo e dizê-la, com seu novo dicionário, o quão especial é sua amizade.

Eis aqui, amigos, o que eu lhes garanto: Se cada um Mirelasse sua Natália como a minha Mirele me Mirela, o mundo seria, tal qual nós duas somos, muito mais amor.
Que não exista o pra sempre,
mas que sempre exista você.
Parabéns, Mirele Andrade.
15 de junho de 2008
Táxi Lunar.
_ Querida, o dia já amanheceu.
Acordar cedo lhe era uma raridade. Manhãs, para ela, eram fastiosas demais para que representassem algum valor. Para que ver o sol nascer, se este perdura por todo decorrer do dia? Só o efêmero a atraía. Quanto mais fugaz uma paixão, mas ardente ela seria. Quando mais curto um beijo, mais inesquecível ele se tornaria. Quem se sacia, priva-se do desejo. E que seria da vida sem desejos?
Por isso, as nesgas de claridade que lhe invadiam o quarto não possuíam beleza, eram apenas infortúnios. E o cantar tênue os pássaros, apenas rompiam o sublime silêncio da alvorada. Porque os pássaros não cantavam ao entardecer? Oh, doce tarde. O ápice das vinte e quatro horas – quase eternas – que preenchiam o vazio dos seus dias. Quentes, cheias duma luz firme. Não dessas luzes fracas que oscilam com qualquer rastro fino de nuvem. Mas a luz incandescente do meio-dia, que faz semi-cerrar os olhos ao mirar o céu, e lavar o rosto para secar o suor. Sim, a luz forte que logo dava lugar ao anoitecer. Oh sim, o horizonte todo pincelado em tons alaranjados... Como era bonito de ver os pedaços de sol escondendo-se detrás das montanhas.
E então, quando pensava ter esvaído do firmamento tudo que poderia despertá-la louvor, um olhar tímido, cinza-prateado, surge sobre a terra. É ela: a deusa dos amores impossíveis, que acende as chamas adormecidas, bombeadas por corações. A lua sim, era verdadeiramente bela. Tão bela que em apenas poucas horas, banha as ruas com seu fulgor, e enche de paixão os casais sentados à praça. Humilde, divide sua brilhância com outras crianças: aqueles pontinhos claros do negro que, carinhosamente, ela chamou de estrelas. E ainda, temendo enfastiar os amores com o marasmo da sua luz branca, a lua desaparece por um tempo. E mesmo quando todos parecem dormir, esquecê-la em sua penumbra, ela não chora. Apenas cresce, incha. E deslumbra até ser notada.
_ Deixa-me mamãe! Acorda-me apenas quando a noite chegar, pois correrei a beira mar, e esperarei por um táxi lunar.
_ Não seja tola, minha criança. Não existe esse táxi que dizes. Levanta-te e vai banhar-te de sol. Vai banhar-te de vida, menina!
_ Oh, então tu não sabes? Não es tu, minha verdadeira mãe. Eu sou uma estrela! Não te lembras quando eu cheguei por cá? Não te lembras duma estrela que caía quando imploraste aos Deuses por uma menina para criar?
_ Não te enganes, meu bem. Fui eu quem contou para ti essa estória. Não fantasies além da conta. Desgostas-te dos meus valores? Não me olhes desta forma. Oh, agora entendo! Queres deixar-me, desembestar pelas estradas como teu irmão! Não vês que meu coração não agüenta outro filho perdido no mundo? Tu não tens piedade da tua pobre mãe?
Ela quis decrescer devagar, tal qual a lua mingua para alcançar a fase nova. Era tão errado ansiar por outro mundo? Um mundo onde as criaturas brilham livres, e as que não brilham, vestem-se do brilho doutros. E os outros, sempre bons, não cobram dinheiro ou favores; apenas sorriam alegres com raios de puro cetim, por estarem disseminando em seu mundo, um pedacinho a mais de si.
Sentia-se, porém, mesmo uma tola. Como podia ser uma estrela, se não possuía brilho próprio nem irmãos para emprestá-lo? Sua mãe estava certa (mães estão sempre certas). Ela era mulher. Mulher de corpo, de carne. Ah! – um sorriso surgiu. Corpo, carne, mas não de alma! Ela nascera de um ventre, mas tinha alma de astro. Não podia seu Deus, dar-lhe, uma chance que fosse, de conhecer a lua mais de perto? Uma noite lhe seria mais que suficiente! Queria apenas olhar no íntimo dos olhos prata que a espiavam. E queria saltitar no algodão doce das nuvens, esconder-se nos buracos negros e inspirar poeira cósmica. Queria abraçar as estrelas e olhar a terra de longe. Os oceanos, tão azuis, vibrando, enérgicos, com a chegada da chuva.
Mas Deus não parecia ouvi-la, ou ouvia e não lhe dava importância. Estaria chamando-a de tola também? Oh! A chuva que banharia os rios, tornou-se salina, tocou-lhe o lábio. Era uma lágrima. Uma lágrima gelada de angústia, por saber que estrelas não choram.
_ Perdoa-me mamãe. Não hei de importuná-la novamente com minhas asneiras.
_ Isso! Levanta-te dessa cama e deixa que tanto alvoroço. Aceita-te de uma vez e acalma meu coração de mãe. Quero-te feliz, criança! Quero-te muito feliz!
Ser feliz? Em que consiste felicidade? Não são os sonhos que a constroem? Pois se assim for, a felicidade dela estaria agora em pedaços, e cingia mortiça sob seus pés, como cacos de vidro estraçalhado. E em cada estilhaço uma cor, uma imagem, um sorriso. As cores que, um dia, lhe tingiram o mundo; as imagens que, um dia, lhe ocupavam a mente; e o sorriso – aquele sorriso - que, um dia, lhe luzira nos lábios. Tudo, porém, se fora com a brisa. Todo o tudo que importava: os sonhos.
_ De que me vale viver agora, meu Deus?
Ela clamava aos céus. As lágrimas ressumando na face deixava-lhe vazia, como fosse sangue escorrendo por suas veias. E os pés, cortados do vidro infeliz, doíam conforme encontravam-se com areia fina. Lá estava ela, a beira mar, deixando-se guiar por tudo que lhe restava. Como é mesmo que chamam? Sim, esperança.
O horizonte, aos poucos, pincelou-se dum vermelho amarelado, e as aves, em bandos, voavam com o vento, buscando por seus iguais.
A menina, sozinha, secando uma gota cristalina vertente em suas feições cândidas de meninas, sentou-se defronte ao imenso azul que, em algum lugar no infinito, unia-se com o negro opressivo que se estendia para um grande abraço. Jogou uma pedra n’água, e círculos formaram-se nela. Um, outro, e mais um. Veio-lhe então uma dúvida: Não poderia ser ele - o mar - seu aliado? Ouvira dizer por aí, por bosques, ruas e avenidas, de uma célebre paixão secreta entre o azul-marinho e o prata-cetim. Seria, então, verdade quem eram amantes? Ou não passava de uma lenda?
Envolveu os próprios joelhos num abraço, e enquanto as lágrimas voltavam a jorrar, implorou, humilde, ao oceano.
_ Tu, poseidon, podes ouvir meu lamento? Leva-me contigo, eu imploro! Leva-me contigo ao firmamento. Prometo - e não duvides de mim - que enquanto for-me permitido viver, rogarei ao Senhor por ti, e pela paixão que faz mover tua maré.
Uma brisa mais forte soprou, e a água, antes quieta, do mar, se agitou.
A menina abraçou-se um pouco mais. Seria uma resposta? Teria o mar, ouvido seu lamento e testemunhado sua dor?
_ Eu sei que tu podes me ouvir! Tuas águas falam por ti! Eu prometo, oh mar! Prometo mesmo rogar por ti.
_ E o que te levas a pensar, criança, que tuas preces farão meu destino mudar? Se, embora tu vivas a orar, nunca conseguiste mudar o teu?
Respondeu o mar. E as ondas vieram banhar-lhe os pés. Estava certa, aquela voz. Como ela, menina que era, poderia fazer acontecer uma paixão alheia, se nem a própria paixão conseguira alcançar? Estava certa, aquela voz. Não havia mais sonhos, pelos quais pudesse lutar.
_ Não te culpo por duvidares da minha fé, pois até eu, que sou dona dela, sinto-me balançar. Porém, diga-me tu, que és tão maior e mais bravo. Porque a tua fé e a tua força, não trouxeram para ti, o teu amado luar?
Por um longo tempo, não houve resposta. E a grande lua, melancólica, que passou a espreitá-los, pela primeira vez, pôs-se a chorar. Chorou rios de raios prateados, que refletiam, sublimes, no espelho silencioso do mar. Reclamava, a mãe gentil, onde esse romance poderia chegar? Luz e água não se tocam! Deveriam, pois, resignar-se no destino ímpio que os designava a apenas se admirar.
A menina, não mais sozinha, chorou também com a alma pesada. Oh, o que sua loucura viera acarretar! A mais bonita das lendas dissipava-se em discussões, e tudo por uma mera tolice, que ousara questionar. E agora? O que seriam das noites, se todo brilho do luar escorresse pelos fios brancos que mergulhavam, ferozes, no mar? E o que seria dela, mulher, sem aquele belo olhar acalentando-a num sono brando e ensinando-a as graças de amar? Ou dela, estrela, sem o fulgor maior de mãe para ensiná-la a brilhar? Só agora via o quanto fora egoísta em arriscar o mais célebre amor do mundo, apenas para continuar a sonhar.
_ Não chores mais, oh! Lua. Não chores mais, meu caro mar. O erro foi meu em julgar tua fé, quando nem mesmo a minha consigo controlar. Porque fraquejam tão certo? Vamos! Digam-me! Não vêem? Não há motivos para lágrimas, pois o amor perdura para sempre, e caso não o saibam... A eternidade os pertence!
_ Quem és tu para falar do eterno, menina? Quem és tu para falar-nos de força? Não foste, justo tu, quem desistiu tão cedo dos teus desejos? Não eras tu quem tanto repudiava o tempo?
_ Sim! Sim! Não nego, minha mãe. Fui cega, oh! Como fui cega! Mas agora eu posso ver... O fugaz tem sua beleza, é verdade, mas o eterno... Oh, o eterno é divino! E se tu, por acaso, quiseres saber, meu coração acaba de inundar-se em esperança novamente. Meu corpo é pura carne. Não vê? Minha pele nada significa! Esperarei, pois, aqui, apreciando os nasceres do seu irmão, o sol. E um dia, tenho fé, me libertarei deste mundo que cá me encontro e adentrarei o teu, se assim for p’ra ser.
Os olhinhos pequenos encheram-se de uma ternura cintilante, que se fez maior quando, ajoelhando-se sobre os grãos de areia, juntou as mãos, cerrou os olhos e clamou aos céus numa oração.
_ Senhor, sei que tu, que tens tantos homens por quem zelar, cansas de tanto me ouvir. Faço-te agora, porém, o meu pedido final: Deixa-me aqui em meu canto, oh Senhor! Aprendendo a ser mulher. Deixa-me viver ofuscada na sombra, sem brilho e até mesmo sem cor. Mas poupa-me de carregar em meus ombros, a morte desse tão grande amor.
Os cabelos da menina dançavam ao sabor dos ventos que haviam vindo do norte apenas para testemunhar aquele momento. Todos conheciam aquela criatura pueril, que mesmo sem conhecer muito da vida, lhes era um exemplo de perseverança. Dentre todos os ambiciosos, fora ela, tão jovem, a mais obstinada. Quem já se viu gente querer ser estrela? Riam-se os planetas lá do alto.
Mas foi Deus, revolto num mar de anjos, que declarou o parecer.
_ Então é verdade que tu, após tanto suplicar, te abstém do teu maior desejo por um amor que, sequer, pertence a ti?
_ Não, Senhor. Abstenho-me do meu maior desejo por um amor que pertence ao mundo. Os homens afogar-se-iam em trevas escuras, sem um luar apaixonado para os guiar.
_ E não são as estrelas, a tua família? Porque te importas com o homem?
_ Fossem pedras, as prejudicadas, ainda assim, eu me importaria.
Os anjos - com suas pequenas asas golpeando o ar – sorriram ao seu Senhor. E uma melodia suave apossou-se do silêncio com versos fáceis que diziam mais ou menos assim:
Acordar cedo lhe era uma raridade. Manhãs, para ela, eram fastiosas demais para que representassem algum valor. Para que ver o sol nascer, se este perdura por todo decorrer do dia? Só o efêmero a atraía. Quanto mais fugaz uma paixão, mas ardente ela seria. Quando mais curto um beijo, mais inesquecível ele se tornaria. Quem se sacia, priva-se do desejo. E que seria da vida sem desejos?

Por isso, as nesgas de claridade que lhe invadiam o quarto não possuíam beleza, eram apenas infortúnios. E o cantar tênue os pássaros, apenas rompiam o sublime silêncio da alvorada. Porque os pássaros não cantavam ao entardecer? Oh, doce tarde. O ápice das vinte e quatro horas – quase eternas – que preenchiam o vazio dos seus dias. Quentes, cheias duma luz firme. Não dessas luzes fracas que oscilam com qualquer rastro fino de nuvem. Mas a luz incandescente do meio-dia, que faz semi-cerrar os olhos ao mirar o céu, e lavar o rosto para secar o suor. Sim, a luz forte que logo dava lugar ao anoitecer. Oh sim, o horizonte todo pincelado em tons alaranjados... Como era bonito de ver os pedaços de sol escondendo-se detrás das montanhas.
E então, quando pensava ter esvaído do firmamento tudo que poderia despertá-la louvor, um olhar tímido, cinza-prateado, surge sobre a terra. É ela: a deusa dos amores impossíveis, que acende as chamas adormecidas, bombeadas por corações. A lua sim, era verdadeiramente bela. Tão bela que em apenas poucas horas, banha as ruas com seu fulgor, e enche de paixão os casais sentados à praça. Humilde, divide sua brilhância com outras crianças: aqueles pontinhos claros do negro que, carinhosamente, ela chamou de estrelas. E ainda, temendo enfastiar os amores com o marasmo da sua luz branca, a lua desaparece por um tempo. E mesmo quando todos parecem dormir, esquecê-la em sua penumbra, ela não chora. Apenas cresce, incha. E deslumbra até ser notada.
_ Deixa-me mamãe! Acorda-me apenas quando a noite chegar, pois correrei a beira mar, e esperarei por um táxi lunar.
_ Não seja tola, minha criança. Não existe esse táxi que dizes. Levanta-te e vai banhar-te de sol. Vai banhar-te de vida, menina!
_ Oh, então tu não sabes? Não es tu, minha verdadeira mãe. Eu sou uma estrela! Não te lembras quando eu cheguei por cá? Não te lembras duma estrela que caía quando imploraste aos Deuses por uma menina para criar?
_ Não te enganes, meu bem. Fui eu quem contou para ti essa estória. Não fantasies além da conta. Desgostas-te dos meus valores? Não me olhes desta forma. Oh, agora entendo! Queres deixar-me, desembestar pelas estradas como teu irmão! Não vês que meu coração não agüenta outro filho perdido no mundo? Tu não tens piedade da tua pobre mãe?
Ela quis decrescer devagar, tal qual a lua mingua para alcançar a fase nova. Era tão errado ansiar por outro mundo? Um mundo onde as criaturas brilham livres, e as que não brilham, vestem-se do brilho doutros. E os outros, sempre bons, não cobram dinheiro ou favores; apenas sorriam alegres com raios de puro cetim, por estarem disseminando em seu mundo, um pedacinho a mais de si.
Sentia-se, porém, mesmo uma tola. Como podia ser uma estrela, se não possuía brilho próprio nem irmãos para emprestá-lo? Sua mãe estava certa (mães estão sempre certas). Ela era mulher. Mulher de corpo, de carne. Ah! – um sorriso surgiu. Corpo, carne, mas não de alma! Ela nascera de um ventre, mas tinha alma de astro. Não podia seu Deus, dar-lhe, uma chance que fosse, de conhecer a lua mais de perto? Uma noite lhe seria mais que suficiente! Queria apenas olhar no íntimo dos olhos prata que a espiavam. E queria saltitar no algodão doce das nuvens, esconder-se nos buracos negros e inspirar poeira cósmica. Queria abraçar as estrelas e olhar a terra de longe. Os oceanos, tão azuis, vibrando, enérgicos, com a chegada da chuva.
Mas Deus não parecia ouvi-la, ou ouvia e não lhe dava importância. Estaria chamando-a de tola também? Oh! A chuva que banharia os rios, tornou-se salina, tocou-lhe o lábio. Era uma lágrima. Uma lágrima gelada de angústia, por saber que estrelas não choram.
_ Perdoa-me mamãe. Não hei de importuná-la novamente com minhas asneiras.
_ Isso! Levanta-te dessa cama e deixa que tanto alvoroço. Aceita-te de uma vez e acalma meu coração de mãe. Quero-te feliz, criança! Quero-te muito feliz!
Ser feliz? Em que consiste felicidade? Não são os sonhos que a constroem? Pois se assim for, a felicidade dela estaria agora em pedaços, e cingia mortiça sob seus pés, como cacos de vidro estraçalhado. E em cada estilhaço uma cor, uma imagem, um sorriso. As cores que, um dia, lhe tingiram o mundo; as imagens que, um dia, lhe ocupavam a mente; e o sorriso – aquele sorriso - que, um dia, lhe luzira nos lábios. Tudo, porém, se fora com a brisa. Todo o tudo que importava: os sonhos.
_ De que me vale viver agora, meu Deus?
Ela clamava aos céus. As lágrimas ressumando na face deixava-lhe vazia, como fosse sangue escorrendo por suas veias. E os pés, cortados do vidro infeliz, doíam conforme encontravam-se com areia fina. Lá estava ela, a beira mar, deixando-se guiar por tudo que lhe restava. Como é mesmo que chamam? Sim, esperança.
O horizonte, aos poucos, pincelou-se dum vermelho amarelado, e as aves, em bandos, voavam com o vento, buscando por seus iguais.
A menina, sozinha, secando uma gota cristalina vertente em suas feições cândidas de meninas, sentou-se defronte ao imenso azul que, em algum lugar no infinito, unia-se com o negro opressivo que se estendia para um grande abraço. Jogou uma pedra n’água, e círculos formaram-se nela. Um, outro, e mais um. Veio-lhe então uma dúvida: Não poderia ser ele - o mar - seu aliado? Ouvira dizer por aí, por bosques, ruas e avenidas, de uma célebre paixão secreta entre o azul-marinho e o prata-cetim. Seria, então, verdade quem eram amantes? Ou não passava de uma lenda?
Envolveu os próprios joelhos num abraço, e enquanto as lágrimas voltavam a jorrar, implorou, humilde, ao oceano.
_ Tu, poseidon, podes ouvir meu lamento? Leva-me contigo, eu imploro! Leva-me contigo ao firmamento. Prometo - e não duvides de mim - que enquanto for-me permitido viver, rogarei ao Senhor por ti, e pela paixão que faz mover tua maré.
Uma brisa mais forte soprou, e a água, antes quieta, do mar, se agitou.
A menina abraçou-se um pouco mais. Seria uma resposta? Teria o mar, ouvido seu lamento e testemunhado sua dor?
_ Eu sei que tu podes me ouvir! Tuas águas falam por ti! Eu prometo, oh mar! Prometo mesmo rogar por ti.
_ E o que te levas a pensar, criança, que tuas preces farão meu destino mudar? Se, embora tu vivas a orar, nunca conseguiste mudar o teu?
Respondeu o mar. E as ondas vieram banhar-lhe os pés. Estava certa, aquela voz. Como ela, menina que era, poderia fazer acontecer uma paixão alheia, se nem a própria paixão conseguira alcançar? Estava certa, aquela voz. Não havia mais sonhos, pelos quais pudesse lutar.
_ Não te culpo por duvidares da minha fé, pois até eu, que sou dona dela, sinto-me balançar. Porém, diga-me tu, que és tão maior e mais bravo. Porque a tua fé e a tua força, não trouxeram para ti, o teu amado luar?
Por um longo tempo, não houve resposta. E a grande lua, melancólica, que passou a espreitá-los, pela primeira vez, pôs-se a chorar. Chorou rios de raios prateados, que refletiam, sublimes, no espelho silencioso do mar. Reclamava, a mãe gentil, onde esse romance poderia chegar? Luz e água não se tocam! Deveriam, pois, resignar-se no destino ímpio que os designava a apenas se admirar.
A menina, não mais sozinha, chorou também com a alma pesada. Oh, o que sua loucura viera acarretar! A mais bonita das lendas dissipava-se em discussões, e tudo por uma mera tolice, que ousara questionar. E agora? O que seriam das noites, se todo brilho do luar escorresse pelos fios brancos que mergulhavam, ferozes, no mar? E o que seria dela, mulher, sem aquele belo olhar acalentando-a num sono brando e ensinando-a as graças de amar? Ou dela, estrela, sem o fulgor maior de mãe para ensiná-la a brilhar? Só agora via o quanto fora egoísta em arriscar o mais célebre amor do mundo, apenas para continuar a sonhar.
_ Não chores mais, oh! Lua. Não chores mais, meu caro mar. O erro foi meu em julgar tua fé, quando nem mesmo a minha consigo controlar. Porque fraquejam tão certo? Vamos! Digam-me! Não vêem? Não há motivos para lágrimas, pois o amor perdura para sempre, e caso não o saibam... A eternidade os pertence!
_ Quem és tu para falar do eterno, menina? Quem és tu para falar-nos de força? Não foste, justo tu, quem desistiu tão cedo dos teus desejos? Não eras tu quem tanto repudiava o tempo?
_ Sim! Sim! Não nego, minha mãe. Fui cega, oh! Como fui cega! Mas agora eu posso ver... O fugaz tem sua beleza, é verdade, mas o eterno... Oh, o eterno é divino! E se tu, por acaso, quiseres saber, meu coração acaba de inundar-se em esperança novamente. Meu corpo é pura carne. Não vê? Minha pele nada significa! Esperarei, pois, aqui, apreciando os nasceres do seu irmão, o sol. E um dia, tenho fé, me libertarei deste mundo que cá me encontro e adentrarei o teu, se assim for p’ra ser.
Os olhinhos pequenos encheram-se de uma ternura cintilante, que se fez maior quando, ajoelhando-se sobre os grãos de areia, juntou as mãos, cerrou os olhos e clamou aos céus numa oração.
_ Senhor, sei que tu, que tens tantos homens por quem zelar, cansas de tanto me ouvir. Faço-te agora, porém, o meu pedido final: Deixa-me aqui em meu canto, oh Senhor! Aprendendo a ser mulher. Deixa-me viver ofuscada na sombra, sem brilho e até mesmo sem cor. Mas poupa-me de carregar em meus ombros, a morte desse tão grande amor.
Os cabelos da menina dançavam ao sabor dos ventos que haviam vindo do norte apenas para testemunhar aquele momento. Todos conheciam aquela criatura pueril, que mesmo sem conhecer muito da vida, lhes era um exemplo de perseverança. Dentre todos os ambiciosos, fora ela, tão jovem, a mais obstinada. Quem já se viu gente querer ser estrela? Riam-se os planetas lá do alto.
Mas foi Deus, revolto num mar de anjos, que declarou o parecer.
_ Então é verdade que tu, após tanto suplicar, te abstém do teu maior desejo por um amor que, sequer, pertence a ti?
_ Não, Senhor. Abstenho-me do meu maior desejo por um amor que pertence ao mundo. Os homens afogar-se-iam em trevas escuras, sem um luar apaixonado para os guiar.
_ E não são as estrelas, a tua família? Porque te importas com o homem?
_ Fossem pedras, as prejudicadas, ainda assim, eu me importaria.
Os anjos - com suas pequenas asas golpeando o ar – sorriram ao seu Senhor. E uma melodia suave apossou-se do silêncio com versos fáceis que diziam mais ou menos assim:
Volta para nós, doce criança, que já sofreste por demais.
Voe junto com os pássaros, venha cá, encontrar seus iguais.
Mesmo na ausência dos sonhos, aprendeste tua lição.
Aprendeste que, o maior dos brilhos, fulge dentro do teu coração.
Voe junto com os pássaros, venha cá, encontrar seus iguais.
Mesmo na ausência dos sonhos, aprendeste tua lição.
Aprendeste que, o maior dos brilhos, fulge dentro do teu coração.
Harpas, violinos e violões. Fadas, elfos e Gnomos. Sois, luas e planetas. Mar, vento e areia. Todos pararam para testemunhar.
_ É um milagre! – Disse um anjo.
_ Não pode ser! – Replicou saturno.
Mas a menina, com o sorriso maior do mundo, começava a minguar, como houvesse uma cortina de nuvem, encobrindo-lhes o olhar. E ela diminuiu tanto, mas tanto, que transformou-se num único ponto. Um ponto claro, branco e brilhante, que, numa ascensão constante, emanava uma luz fraquinha, como uma rosa a desabrochar.
E não é que chegava, enfim, por lá, o tão esperado táxi lunar?
Dizem que a menina-estrela, depois de encontrar seus verdadeiros irmãos, dedicou-se em olhar por todos os homens: Seus irmãos coração.
_ É um milagre! – Disse um anjo.
_ Não pode ser! – Replicou saturno.
Mas a menina, com o sorriso maior do mundo, começava a minguar, como houvesse uma cortina de nuvem, encobrindo-lhes o olhar. E ela diminuiu tanto, mas tanto, que transformou-se num único ponto. Um ponto claro, branco e brilhante, que, numa ascensão constante, emanava uma luz fraquinha, como uma rosa a desabrochar.
E não é que chegava, enfim, por lá, o tão esperado táxi lunar?
Dizem que a menina-estrela, depois de encontrar seus verdadeiros irmãos, dedicou-se em olhar por todos os homens: Seus irmãos coração.
14 de junho de 2008
Amor postal
meus olhos observam calados
teus sorrisos de quem nada sabe
teus dedos, teu corpo, teus traços
teu mundo que não mais me cabe
minha boca entao se entreabre
sedenta por seus lábios carmim
e minhas mãos fecham-se suadas
pelo olhar tu envias a mim
teus sorrisos de quem nada sabe
teus dedos, teu corpo, teus traços
teu mundo que não mais me cabe
minha boca entao se entreabre
sedenta por seus lábios carmim
e minhas mãos fecham-se suadas
pelo olhar tu envias a mim
mas embora meus olhos te sorvam
e minha boca de ti, se sacie
não te desejo como outras desejam
quero apenas que tu me aprecies
deixa-me então, querido
tocar-te a pele, entregar-me à pelo
dê-me um sorriso e respire
depois beija-me em forma de selo.
e minha boca de ti, se sacie
não te desejo como outras desejam
quero apenas que tu me aprecies
deixa-me então, querido
tocar-te a pele, entregar-me à pelo
dê-me um sorriso e respire
depois beija-me em forma de selo.
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