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8 de fevereiro de 2009

C a t i v a r


O Pequeno Príncipe (Antoine de Saint-Exupéry)

"E foi então que apareceu a raposa:
- Bom dia, disse a raposa.
- Bom dia, respondeu polidamente o principezinho que se voltou mas não viu nada.
- Eu estou aqui, disse a voz, debaixo da macieira...
- Quem és tu? perguntou o principezinho. Tu és bem bonita.
- Sou uma raposa, disse a raposa.
- Vem brincar comigo, propôs o princípe, estou tão triste...
- Eu não posso brincar contigo, disse a raposa. Não me cativaram ainda.
- Ah! Desculpa, disse o principezinho.
Após uma reflexão, acrescentou:
- O que quer dizer cativar ?
- Tu não és daqui, disse a raposa. Que procuras?
- Procuro amigos, disse. Que quer dizer cativar?
- É uma coisa muito esquecida, disse a raposa. Significa criar laços...
- Criar laços?
- Exatamente, disse a raposa. Tu não és para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens necessidade de mim. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás pra mim o único no mundo. E eu serei para ti a única no mundo...
Mas a raposa voltou a sua idéia:
- Minha vida é monótona. E por isso eu me aborreço um pouco. Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei o barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros me fazem entrar debaixo da terra. O teu me chamará para fora como música. E depois, olha! Vês, lá longe, o campo de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelo cor de ouro. E então serás maravilhoso quando me tiverdes cativado. O trigo que é dourado fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento do trigo...
A raposa então calou-se e considerou muito tempo o príncipe:
- Por favor, cativa-me! disse ela.
- Bem quisera, disse o principe, mas eu não tenho tempo. Tenho amigos a descobrir e mundos a conhecer.
- A gente só conhece bem as coisas que cativou, disse a raposa. Os homens não tem tempo de conhecer coisa alguma. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos. Se tu queres uma amiga, cativa-me! Os homens esqueceram a verdade, disse a raposa. Mas tu não a deves esquecer. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas"

16 de janeiro de 2009

Chicobuarcando

Alô, liberdade, desculpa eu vir assim sem avisar, é que eu estava à toa na vida de um sonhador titã, e seus olhos me chuparam feito um zoom. Pede pro tempo marcar seus caminhos, que os galos estão cansados de cantar! Um tempo que refaz o que desfez, recolhe todo o sentimento, e bota no corpo uma outra vez. Sim, vai e diz que o meu desalento já não tem mais fim; mais que na lua ou no comenta, eu entrego os pontos com o sangue impresso na gazeta. Diz que eu estive por pouco, diz que eu estou ficando louco! Os diamantes rolam no chão, o ouro é poeira, a fonte nunca mais que seca, e aquele poço não tem fundo, é um mundo, dentro um mundo. Palmas pra ala dos barões famintos, o bloco dos napoleões retintos e os pigmeus do bulevar. Meu Deus, vem olhar a evolução da liberdade! Uma pirueta, duas piruetas. Bravo! Bravo! Todos juntos somos fortes, somos flecha e somos arco. Mas mesmo calada a boca, resta o peito, e eu quero inventar o meu próprio pecado, quero morrer do meu próprio veneno, e tropeçar no céu como se fosse um bêbado.
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22 de março de 2008

Vamos falar de saudade;

Fagner disse um dia que saudade não se explica, que bate no coração e fica, fica dentro do peito, fica um cheiro, um cheiro de alguém da gente, que arde e dói bem diferente. Uma vez eu li que saudade é uma pagina arrancada, o soluço de uma amada, um navio a naufragar. Mas Chico, o nosso buarque de todos os dias, nos disse em melodia que saudade é um pedaço, uma parte do que ja foi todo. A metade amputada que dói latejada, como uma fisgada no membro que já não se tem, ou o revéz de um parto, ao arrumar o quarto de um filho que já morreu.
Mas a saudade quando invade o coração da gente, pega veia onde corria um grande amor; e não há conversa nem cachaça que dê jeito, nem amigo do peito que segure o chororô. Ô saudade da infância, da época que eu era esperança, que a gente corre, corre e nunca cansa. Ô saudade do abraço, do beijo, sorriso e amasso de quem carrego aqui dentro. Ô saudade, do pasto, do passo e do pato, o pateta que quebra a panela, o uni do dunitê. Ô saudade da maçã, da pera, da uva; da descoberta, da cama, travesseiro e coberta. Ô saudade dos velhos amigos, das velhas piadas, das velhas estórias. Na praça onde a gente namorava, mendigos na calçada e as chaves eu vou deixar numa sacola com as suas roupas perfumadas que me matam de saudade.
E ainda há quem diga que a saudade só castiga aquele que não sabe amar.

(Aos meus amores, minha saudade por vocês é a certeza de que nossos dias de glória, valeram a pena.)

Quem me segue (se perde comigo)