15 de janeiro de 2010

Estrelas são amores que morrem

Sabe, eu descobri que esse brilho que te enfeita o olhar quando tu me olhas é estrela. Estrela verde, ainda no pé. Olhos são ninhos de amor e pomares de estrelas. Outro dia, caminhando na rua e olhando pro céu, encontrei uma estrela da cor dos teus olhos. Primeiro sorri - senti o vento me envolver e pensei no teu abraço -, mas depois senti uma estranha tristeza nascer em meu peito e crescer, como fosse me engolir por dentro. Fiquei sem entender o porquê daquela angústia, a razão daquela súbita vontade de chorar, até que olhei novamente a estrela cor-de-teus-olhos e reconheci o teu olhar manhoso; aquele de quando tu queres colo, de quanto tu estás carente. Naquele momento eu soube que aquela estrela era tua. Ela brilhou nos teus olhos como esse brilho que te enfeita o olhar quando tu me olhas hoje, mas por outra pessoa. Estrelas são amores que morrem. E meu medo é deixar de ser brilho nos teus olhos pra ser estrela no teu céu.

13 de janeiro de 2010

Ob.sessão da Noite.

Era por uma janela que ele a espiava todas as noites. Sentava-se na varanda, abastecia-se de suprimentos, binóculos, e esperava que ela, em algum momento, abrisse a cortina. Quando as noites eram de lua cheia, colocava também uma música instrumental para orquestrar a tão esperada aparição. Sim, porque nessas noites – em especial – a aparição era definitivamente devastadora: a persiana se abria lentamente, revelando inicialmente apenas fatias aleatórias da mulher; mas à medida que a cortina ia sendo puxada, um corpo feminino completamente nu ia se revelando, como uma lua crescente que crescesse em questão de segundos. Não era todo dia que se via duas luas assim, uma ao lado da outra, competindo para ver quem tinha o brilho mais ofuscante.
Naquela noite de lua cheia, entretanto, ela não apareceu. Ele se levantou da cadeira, sentindo uma mistura de decepção e preocupação, e conferiu o calendário na porta da geladeira: não era domingo, nem segunda, nem quinta, portanto ela não estava no Ballet, na academia ou jogando baralho com seu grupo de amigos fúteis e desocupados. Os pais dela já estavam mortos, e também não havia irmãos ou tios que pudessem importuná-la tão tarde da noite.
Teria arranjado um novo namorado? Mulheres bonitas, como ela, eram sempre cheias de admiradores, como ele, e não seria de se estranhar que algum deles houvesse se declarado. E menos de se estranhar ainda que ela houvesse aceitado, já que andava muito triste e carente desde a morte inesperada do seu último namorado. O coitado fora atropelado por um opala antigo na saída do trabalho. Os policiais não encontraram o responsável, pois o veículo fora rapidamente abandonado e não havia placa ou digitais que pudessem identificar o proprietário. Testemunhas oculares afirmaram ter visto um homem bastante gordo, só de cueca e careca caminhar pelas redondezas, mas afirmaram também que seria impossível que alguém daquela largura tivesse saltado do carro com tamanha agilidade, a ponto de não ser flagrado por ninguém. Os policiais prometeram não desistir do caso, uma vez que ela aparecera aos prantos na delegacia, usando uma calça legging e um top de ginástica – era segunda feira, dia de academia. Desde então, ela só vestia preto e não parava de ouvir as músicas muito ruins que o falecido namorado gostava de ouvir, que ela costumava odiar, e cujos CDs desapareceram misteriosamente – ela tivera que comprar todos novamente. Portanto, realmente não seria de se estranhar se ela tivesse decidido romper com o luto, e seria até bom que ela voltasse a usar lingerie vermelhas, mas ele preferia não pensar na idéia de sua musa estar com outro rapaz tão cedo.
Ainda frustrado, ele abriu a geladeira. Retirou uma torta de chocolate particularmente apetitosa e devorou metade dela em alguns minutos, enquanto mantinha o olhar fixo em algum ponto nulo na parede da cozinha. Ela tinha que ter escolhido aquela noite para não aparecer? Justamente aquela noite, pela qual esperou ansiosamente desde a manhã anterior, quando acordara imerso em suor. Ele sonhara com ela. Sonhara que ela vinha à sua casa vender biscoitos para arrecadar fundos para a formatura. Ela usava um short curto de barra desfiada e uma blusa branca. Lembrava-se de ter desejado – no sonho – que começasse a chover ali mesmo, no corredor do prédio, só para que pudesse notar os mamilos dela se enrijecendo. Contudo, na falta da chuva, ele a tomou nos braços e carregou até o chuveiro, deixando rastros de biscoito por toda casa. Depois disso, ele só lembrava de ouvi-la gritando desesperadamente, chamando-o de ogro tarado. Em outro momento ele se sentiria ofendido e provavelmente se afastaria, envergonhado de si mesmo, mas ele olhou pra aquele corpo sinuoso, tão próximo ao seu – volumoso e pesado –, e todo receio foi embora pelo ralo, junto à água quente que caía do chuveiro enchendo o banheiro de vapor.
Assim que ele engoliu o ultimo pedaço de torta, sua visão foi gradativamente recuperando o foco, e todas as imagens esfumaçadas que preenchiam sua mente, em forma de sonho, foram se tornando mais nítidas; as lembranças foram se tornando cada vez mais reais. Subitamente os olhos dele se arregalaram. A garganta se fechou para que toda a torta, animalescamente devorada, não voltasse à boca de uma só vez. Em um surto de tremedeira, ele cambaleou até o banheiro, apoiando-se nas paredes. Abriu a porta devagar – como se procurasse uma fenda no tempo. O ranger das dobraduras assemelhavam-se aos ruídos que advinham do seu próprio cérebro, que maquinava freneticamente, tentando assimilar o redemoinho de informações que se revelava de forma tão inesperada. Quando a porta finalmente se abriu, o choque: o corpo dela, esparramado sobre os azulejos encardidos do banheiro. As roupas estavam rasgadas, as pernas em uma posição no mínimo improvável (até mesmo para a melhor das bailarinas). E por fim, o rosto branco com olhos saltados às órbitas confirmaram a total ausência de vida.
Desesperado, ele se afastou do cômodo. Chocou-se ainda com a parede antes de correr para o quarto  e pegar um molho de chaves. Desceu para o estacionamento exatamente como estava: apenas com roupas de baixo. Com as mãos trêmulas, escolheu a chave para um dos carros antigos que fazia parte da sua coleção. Entrou no veículo, girou a chave na ignição e foi embora, ouvindo uma música muito ruim.

18 de dezembro de 2009

Síndrome de Raul

Sou a mosca na sua sopa
Sou a roupa daquela moça
Que você sempre quis ver nua

Sou a mosca no seu ouvido
Sou o zumbido insuportável
Que o impede de dormir

Sou a mosca na sua merda
Que pousa na sua comida
E lhe provoca indigestão

Sou a mosca morta
Parada na sua porta
Implorando por seus restos

Mas você nunca me nota.


16 de dezembro de 2009

Kiss me

Eu tinha dezesseis anos. Todas as minhas amigas já tinham beijado, menos eu. Não porque eu fosse feia e nenhum garoto quisesse me beijar, mas porque eu tinha muito medo.
Eu sabia todos os passos, desde o grau de inclinação da cabeça à altura de elevação do pé. Eu já tinha assistido centenas de filmes, treinava com gelo, laranja, manga, e fazia todos os testes de “você está preparada pra beijar?” da Capricho, Atrevida, Tititi e qualquer outra revista teen que pudesse me alienar do mundo. No espelho eu ficava ensaiando uma forma sexy de fechar os olhos - sem forçar demais, pra não parecer que não estava gostando, mas sem forçar de menos, pra não ficar piscando. Eu sabia que não podia fazer muito biquinho pra não parecer iniciante, e não podia ficar girando a língua feito hélice de helicóptero também. Levava na bolsa pastilhas de menta, hortelã e canela, além de escova de dentes e fio dental. Quando saía, nunca comia coisas com cebola, alho ou ovo. E o principal: eu sabia de cor a lista de meninos que eu supostamente havia beijado, porque se assumir como “BV” é suicídio pra meninas de dezesseis anos.

Eu tinha passado os últimos quatro anos evitando qualquer aproximação com o sexo oposto. Sempre que algum garoto demonstrava interesse em mim, eu inventava um namorado lindo que morava no acre. Isso até conhecer Marcos Alexandre, o novo amigo do meu irmão mais velho. Ele não era bobo como os meninos da minha sala. Era alto, forte, e tinha barba. Toda vez que eu olhava pra ele, eu imaginava a barba dele roçando no meu rosto, me fazendo cócegas, enquanto ele sussurrava barbaridades em meu ouvido. Quando eu pensava nisso dava um arrepio no corpo todo, uma agonia quente que vinha subindo desde o pé, e eu tinha que cruzar as pernas pra conter a onda de... tesão. Eu sei que é estranho uma menina que nunca beijou falar em tesão, mas eu tenho pra mim que sexo é bem mais fácil que beijo (e espero que seja mesmo).

As coisas com Marcos Alexandre ficaram mais complicadas quando ele começou a reparar em mim. Ele passava na minha casa à procura do meu irmão, mas quando meu irmão não estava, em vez de ir embora, ele ficava conversando comigo durante horas. Nós ríamos muito, e quase nos beijamos uma vez, mas eu não tive coragem. Me fiz de doida e virei o rosto. Fiquei me sentindo uma idiota na hora, mas depois achei que tinha sido melhor assim. Eu estava há muito tempo sem escovar os dentes, e nós tínhamos comido amendoim com casca enquanto assistíamos à sessão da tarde – imagina se tivesse uma casca de amendoim bem no meu dente?

Um dia Marcos Alexandre me chamou pra ir a uma festa com ele. Na hora eu fiquei surpresa que um homem de vinte e um anos quisesse aparecer em público com uma menina de dezesseis. Isso me fez pensar que ele gostava mesmo de mim, o que era um sério problema, porque eu também gostava muito dele, e não queria de jeito nenhum perder a chance de dar meu primeiro beijo em alguém que eu gostasse. Prometi pra mim mesma que não teria mais medo. Vesti um vestido vermelho super decotado, prendi o cabelo – pra que ele pudesse beijar meu pescoço depois – e coloquei perfume nos lugares mais estratégicos. Escovei os dentes tantas vezes que minha boca ficou dormente, enchi minha bolsa de trident, e fiquei cantarolando uma música da Sixpence None The Richer até ele chegar.

Ele me pegou em casa, e quase nos beijamos novamente quando entramos no carro, mas eu quebrei o clima pra avisar que eu tinha que estar em casa antes das duas da manhã. Marcos Alexandre riu. Tenho quase certeza que ele já estava arrependido por ter chamado a mim pra acompanhá-lo, em vez de uma menina madura que o deixasse beijar em paz. Mas se ele estava mesmo arrependido, não demonstrou. Quando chegamos, e eu vi toda aquela gente se beijando, eu decidi que precisava de uma ajudinha. Esperei o garçom passar com as bebidas e virei um copo inteirinho de sei-lá-o-quê. Eu nunca tinha bebido na vida, então fiquei tonta na mesma hora, mas senti uma sensação tão boa de “eu sou dona do mundo” que virei mais três copos depois. Marcos Alexandre, que parecia impressionado com a minha performance de adolescente irresponsável, me chamou pra tomar um ar lá fora. Eu fui. Fui andando atrás dele, pra dar tempo de colocar um trident na boca, e quando chegamos à varanda – a noite estava linda – ele colocou a mão em volta da minha cintura e avisou: “vou te beijar agora”.

Parecia que um elefante dançava no meu estômago quando ele disse isso. Eu achei estranho que não fossem borboletas, como nos livros, mas só entendi o porquê quando senti todo o meu café da manhã, almoço e jantar subirem pelo meu esôfago diretamente pra minha boca. Marcos Alexandre já estava bem próximo a mim quando eu o empurrei pra frente e vomitei nos nossos pés.

Aquele foi o momento mais constrangedor da minha vida. Olhei-o como uma criança que acaba de quebrar o jarro mais caro da mãe, cobri o rosto e comecei a chorar, implorando – entre um soluço e outro – que ele me perdoasse por ter estragado seus sapatos. Foi quando eu senti uma mão erguendo meu queixo. Ele retirou minhas mãos, me puxou contra si, e me surpreendeu com o melhor primeiro beijo com gosto de vômito e temperado com lágrimas que alguém poderia me dar. Eu não tive tempo para fechar os olhos, meu pé estava nojento demais pra fazer qualquer movimento, e Marcos Alexandre, que nunca fazia a barba, decidira fazê-la justo naquela noite. Mas começou a tocar aquela música da Sixpence, e nós dançamos juntinhos sobre um chão de vômito que mais parecia um chão de estrelas... 
“Oh, kiss me beneath the milky twilight
lead me out on the moonlit floor
lift up your open hand
strike up the band and make the fireflies dance
Silver moon's sparkling, so kiss me”.

14 de dezembro de 2009

Passional

Permanece nos lábios
O asco de um novo último beijo
Talvez o último dos últimos
Talvez ainda não
Mesmo o primeiro, fora uma vez o último
O último primeiro
O primeiro último beijo
Incerto como tudo em ti

Meus dedos te tocam e não te sentem
Só tu me sentes
[como lava crepitando em tuas veias]
Mas saber do teu prazer me é prazer suficiente
Ainda que não permeie tua alma
Ainda que não transponha a muralha
Que tu ergueste em tua volta
Para que ninguém o faça
Senão ela

Ela que te faz invisível
Quando és na verdade tudo que se vê
Quando estás por toda parte
Tu e teu cheiro entorpecente
[que excita e transmuta meu corpo]

Colônia, suor
Reconheço-te pairando no ar
Adentrando cada um dos meus poros
Impondo sobre mim a tua presença insubistancial
Ora cravada em meu peito
Ora fluindo em minha mente
Que vai minguando devagar
Até saciar-se de pensar em ti

Em teus braços sou somente tua
E até quando nos braços dele
Sou também um pouco tua
Porque quando tu te vais
Sumido dentro da tua retração amarga
Levas contigo um pouco de mim
Que vai se perdendo nos outros seios em que tu te afogas
Nas outras bocas que tu beijas
No conhaque que tu insiste beber

E eu vou ficando vazia
Vazia que mim e de ti
Das vezes que tu não voltas

10 de dezembro de 2009

Do remorso

I
Remói o cérebro
ébrio do tormento etílico
típico do poeta inventado
interpretado no desejo decadente
de ser regente da própria vida
vendida a preço de banana
porque a grana é curta
e o olho é grande.

II
Enfarto fulminante da paz
que jaz na fumaça do fumo
- consumo que mata
consumindo a fome de morrer
- cadáver do sossego
no aconchego da mentira
e na mira da verdade.

III
Mordaça na boca da mente
dormente no silêncio
da iminência de falar
e entregar o pensamento mudo
com medo que os ouvidos do mundo
escutem os segredos imundos
entalados na boca do estômago.

9 de dezembro de 2009

Noites de um verão qualquer

Era uma noite escura de verão, quase não havia vento, e o mar dormia tranqüilo, coberto pelo manto negro. Mas algo me tirava o sono. Abri a escotilha para espiar a estrela do norte: ela brilhava no céu de poucas nuvens, olhando por mim como uma protetora silenciosa.
Como não conseguisse dormir, eu subi ao convés. Fingi para mim mesmo que queria apenas ver minha estrela guia mais de perto, mas eu sabia que não era isso. Meu corpo todo se arrepiava apesar da ausência de vento, meu coração batia na ponta dos dedos e minha respiração ofegava sem qualquer motivo aparente. Eu pensei que fosse algum pressentimento ruim; uma tempestade silenciosa que se aproximava, um monstro marinho faminto por minha carne dura. Pensei até em fazer uma prece – nesses momentos, acreditar em Deus parece conveniente –, mas minha atenção foi absorvida pelo canto que me inundou de repente. Era um canto diferente de tudo que eu já tinha ouvido. Não era doce, nem agressivo, nem melodioso, não era sequer afinado, era apenas uma profusão de notas e subnotas, indo e vindo dentro da minha cabeça, como ondas do mar. Era isso. O canto não me adentrou os ouvidos hora nenhuma, ele estava dentro da minha cabeça o tempo todo, feito fosse minha consciência acalentando meu cérebro cansado.
Eu sei o que vocês estão pensando. Eu também pensei que estivesse ficando louco. Não precisava ser grande intelectual pra saber o que aquele canto significava e pra saber que era impossível. Mas impossível é uma palavra abstrata, sem valor algum. Tudo é possível, mas o egocentrismo do homem transformou em mentira tudo aquilo que ele não sabe explicar, nomeou de impossível todas as possibilidades mais fantásticas. Mas eu sei disso agora. Naquela noite eu nada sabia.
O barco foi seguindo um rumo próprio, movimentando-se rápido e só, contra o vento e contra a correnteza, contrariando todas as leis físicas que eu tinha como certas. Eu vi a estrela do norte ficando pra trás e soube imediatamente que deveria fazer algo para impedir. Mas o canto em minha cabeça me chamava, e eu ia como um rato farejando queijo, mesmo ciente de que estava indo direto para a ratoeira. Era uma consciência inconsciente, entende? Não adianta saber das coisas, se não há força para resistir e controlar a situação.
O mar a noite é escuro, nada se vê através das águas negras senão o reflexo da lua. Mas naquela noite sem lua, outro astro tomou seu lugar. Era uma estrela-do-mar, por assim dizer. Uma fada das águas, meio peixe, meio gente. A lenda que todo pescador sonha em encontrar, e estava ali, diante de mim, flutuando sobre as águas. Os cabelos dela eram de uma cor entre marrom e o dourado, a pele era branca feito folha de papel, e os olhos eram notívagos e hipnóticos. Eu a olhei por um minuto – que passou lento como se fosse um ano –, e quando o fiz o canto ficou mais alto e mais claro. Ela estava tentando me dizer algo, embora sua boca nem fizesse menção de se abrir.
“Feche os olhos” Eu a ouvi dizer dentro da minha cabeça. E assim eu fiz. Fechei os olhos pensando que ia ver tudo preto, mas minhas pálpebras pareciam que eram transparentes. Eu estava de olhos fechados, mas continuava a vê-la. Seus cabelos dançavam no vento, e os reflexos nas gotas de água que espirravam em volta dela lembravam confete de carnaval recortado em papel laminado. Eu estava maravilhado, quando percebi que ela se aproximava de mim, mais e mais. Senti que uma escola de samba passava no meu peito, quando os lábios dela tocaram os meus. Tinha o gosto do meu doce preferido, e os cabelos dela, que se enroscaram no meu corpo todo, tinham cheiro de praia. Ela me envolveu naqueles braços finos e eu me entreguei como uma virgem que se submete ao macho impassível.
Acordei estirado na areia, com o sol cegando meus olhos. Meu barco nunca foi encontrado, e ninguém sabe como eu cheguei á costa. Mas eu ainda sinto na boca o gosto do meu doce preferido, e quando fecho os olhos imagino a figura dela, sugando a minha existência para algum paraíso secreto nos sete mares. Sei que jamais a encontrarei novamente. Sereias são promíscuas, se aninham nos braços de qualquer pescador e roubam seus corações para si. Ela ficou com o meu. E eu fiquei apenas com a lembrança de uma noite de verão.
Essa não é mais uma história de pescador. Aconteceu de verdade comigo. Mas eu sei que você não vai acreditar...
"A paixão pode ser avassaladora.
Muitos amores começam logo os gatos saem a noite,
e acabam-se com o canto do cotovia"

Desafio coletivo: um amor de verão.
Leia também as histórias de Pâmela, Maria Fernanda,  
Andrey, Fernanda, Matheus, Charlie e Alan Félix.

Quer participar também? Escreva e avisa pra gente.

4 de dezembro de 2009

Abiótico

No meu sonho mais lunático
Moro em território desértico
Onde tudo que nasce é de plástico
Onde todo sorriso é sarcástico
E todo amor é hipotético
Porque todo sentimento é bélico
Todo cristão é cético
Todo abraço é sintético
Todo mentiroso é mágico
Todo pagode é clássico
Todo mundo é estético
E o mundo todo é estático
O sexo é prático
O afeto é lógico
O coração é cáustico
Calcificado e analítico
Feito discurso de político
De partido democrático
Que promete ser fantástico
Mas deixa o cenário caótico
Pro povo se tornar mais católico
E ajudar o membro eclesiástico
Que vai ter um encontro orgástico
Com Jesus, o menino simpático
Que tem um pai neurótico
Por querer ser poético
Em território desértico
Onde ninguém é romântico
Onde o trabalho é robótico
O tráfico é público
O preconceito é pudico
O bom-senso séptico
E o anti-séptico é técnico
Consertando o nervo ótico
Pra perder o olhar crítico
E viver no automático.

2 de dezembro de 2009

Variações sobre um mesmo tema

Alice conheceu Renato e se apaixonou. Renato era alto e forte, apesar de meio burro. Mas sua falta de inteligência era compensada pelo romantismo. Ele mandava mensagens no meio da noite, flores no meio da tarde, e a acordava com muitos beijos e muito carinho. Era tudo perfeito. Mas alguma coisa aconteceu e Renato ficou distante. Ele não ligava mais, não mandava mais presentes, até os beijos perderam a intensidade. Era como se a paixão tivesse esfriado e o amor tivesse acabado como o leite em pó de uma lata. Alice então chorou. Chorou tanto, que seu travesseiro mais parecia uma esponja. Ela prometeu que não amaria novamente, até que

Alice conheceu Paulo e se apaixonou. Paulo também era alto, mas era muito magro. Sua falta de músculos, entretanto, era compensada pela alegria contagiante que ele expirava. Com Paulo, mesmo nos dias mais cinzas e mais tristes, havia sempre razão para sorrir. Ele fazia surpresas e a levava ao parque. Eles comiam algodão doce, pipoca, chocolate, maçã-do-amor, e voltavam para casa rindo da imensa vontade que tinham de vomitar um no outro. Era tudo perfeito. Mas alguma coisa aconteceu, e o sorriso de Paulo foi minguando. Ele já não fazia piadas, eles não já não faziam passeios divertidos, nem comiam mais doces juntos. Era como se a paixão tivesse morrido, e o amor se escondido atrás de uma nuvem escura que não chovia nunca. Alice então gritou. Gritou tanto que perdeu a voz, mas prometeu, em silêncio, que não se envolveria com mais ninguém, até que

Alice conheceu José e se apaixonou. José era um rapaz humilde, vindo do interior. Era baixo, meio entroncado, mas tinha força e inteligência. Eles estudavam juntos a tarde inteira, e era tão bom que parecia que tinham passado a tarde fazendo sexo. Era uma espécie de orgasmo mental. Ele tirava todas as dúvidas dela, e quando as notas eram boas, ambos eram recompensados com beijos, abraços e amassos de tirar o fôlego. Era tudo perfeito. Mas alguma coisa aconteceu e José mudou. Ele agora dizia que preferia estudar só, porque aprendia mais; também não tinha paciência para tirar dúvidas, e se não havia notas boas, não havia recompensa. Era como se a paixão tivesse fugido do coração atrofiado pelo crescimento do cérebro. Alice então sofreu. Sofreu dias a fio, mas prometeu que seria a última vez, até que

Alice conheceu Gabriel e se apaixonou. Gabriel era evangélico fanático, andava sempre com a bíblia embaixo do braço. Mas seu dinheiro compensava qualquer infortúnio causado pela promessa de virgindade. Ele a levava para os restaurantes mais caros da cidade, e enviava vestidos, sapatos e colares dos mais variados tipos, para que ela usasse em seus encontros, enquanto uma orquestra particular tocava para eles uma serenata. Era tudo perfeito. Mas alguma coisa aconteceu, e Gabriel ficou diferente. Ele passou a reclamar dos gastos, e fazia pregações diariamente, tentando encaixar Jesus em suas vidas. Era como se Jesus jogasse água na paixão toda vez que ela esquentava. Alice então rezou. Rezou muito para que Deus a poupasse de mais uma desilusão, e prometeu jogar São Pedro no lixo, até que

Alice conheceu Adamastor e se apaixonou. Adamastor, de feio, só tinha o nome. Ele parecia um Deus grego, um galã de novela recém saído da revista caras. Era o sonho de qualquer mulher, e era uma máquina na cama – e na mesa, no chão, na parede, no balcão, e etecetra e tal. Era tudo perfeito. Mas alguma coisa aconteceu: Adamastor conheceu Gabriel e se converteu. Agora não tinha mais sexo, nem abraço e nem mesmo beijo, porque ele estava em fase de purificação. Era como se a paixão tivesse sido enviada para queimar no fogo do inferno por algum pecado que cometeu. Alice então ficou irada. Ficou irada e abandonada, enchendo a cara de cachaça e vomitando pela casa, mas prometeu que assim o porre acabasse, entraria num convento. Até que

Alice conheceu Penélope, irmã de Renato, ex-namorada de Paulo, vizinha de José, da igreja de Gabriel e conhecida de Adamastor. Penélope era feia e chata: tinha cabelo estirado, dentes tortos, barriga de cerveja, hálito de cigarro e papo de gente bêbada. Mas Alice se apaixonou.

1 de dezembro de 2009

Cher Antoine (após o bip)


Encontrei um recado na geladeira
Com sua declaração de amor
A sua secretária me mandou seus beijos
O delivery entregou o escargot
Que eu comi sozinha
Na nossa mesa de seis lugares
Com nossos talheres de prata
Usando um dos novos colares
Que sua mãe escolheu.

Recebi sua mensagem na minha caixa postal
Não se preocupe com a passagem
Vou trocar por uma viagem
De presente de natal
Que vou passar sozinha
Com a nossa árvore montada
Vendo as luzes da escada
Piscarem sobre meu vestido decotado
Que você não vai ver.

Descontei o cheque que você enviou
De aniversário de casamento
O gerente mandou lembranças
Sinto não poder entregá-las pessoalmente
É que eu vou pegar o seu dinheiro
E fugir com o carteiro
Que me come toda quarta
Enquanto eu leio suas cartas
Que algum poeta escreveu.

Quem me segue (se perde comigo)