Era por uma janela que ele a espiava todas as noites. Sentava-se na varanda, abastecia-se de suprimentos, binóculos, e esperava que ela, em algum momento, abrisse a cortina. Quando as noites eram de lua cheia, colocava também uma música instrumental para orquestrar a tão esperada aparição. Sim, porque nessas noites – em especial – a aparição era definitivamente devastadora: a persiana se abria lentamente, revelando inicialmente apenas fatias aleatórias da mulher; mas à medida que a cortina ia sendo puxada, um corpo feminino completamente nu ia se revelando, como uma lua crescente que crescesse em questão de segundos. Não era todo dia que se via duas luas assim, uma ao lado da outra, competindo para ver quem tinha o brilho mais ofuscante.
Naquela noite de lua cheia, entretanto, ela não apareceu. Ele se levantou da cadeira, sentindo uma mistura de decepção e preocupação, e conferiu o calendário na porta da geladeira: não era domingo, nem segunda, nem quinta, portanto ela não estava no Ballet, na academia ou jogando baralho com seu grupo de amigos fúteis e desocupados. Os pais dela já estavam mortos, e também não havia irmãos ou tios que pudessem importuná-la tão tarde da noite.
Teria arranjado um novo namorado? Mulheres bonitas, como ela, eram sempre cheias de admiradores, como ele, e não seria de se estranhar que algum deles houvesse se declarado. E menos de se estranhar ainda que ela houvesse aceitado, já que andava muito triste e carente desde a morte inesperada do seu último namorado. O coitado fora atropelado por um opala antigo na saída do trabalho. Os policiais não encontraram o responsável, pois o veículo fora rapidamente abandonado e não havia placa ou digitais que pudessem identificar o proprietário. Testemunhas oculares afirmaram ter visto um homem bastante gordo, só de cueca e careca caminhar pelas redondezas, mas afirmaram também que seria impossível que alguém daquela largura tivesse saltado do carro com tamanha agilidade, a ponto de não ser flagrado por ninguém. Os policiais prometeram não desistir do caso, uma vez que ela aparecera aos prantos na delegacia, usando uma calça legging e um top de ginástica – era segunda feira, dia de academia. Desde então, ela só vestia preto e não parava de ouvir as músicas muito ruins que o falecido namorado gostava de ouvir, que ela costumava odiar, e cujos CDs desapareceram misteriosamente – ela tivera que comprar todos novamente. Portanto, realmente não seria de se estranhar se ela tivesse decidido romper com o luto, e seria até bom que ela voltasse a usar lingerie vermelhas, mas ele preferia não pensar na idéia de sua musa estar com outro rapaz tão cedo.
Ainda frustrado, ele abriu a geladeira. Retirou uma torta de chocolate particularmente apetitosa e devorou metade dela em alguns minutos, enquanto mantinha o olhar fixo em algum ponto nulo na parede da cozinha. Ela tinha que ter escolhido aquela noite para não aparecer? Justamente aquela noite, pela qual esperou ansiosamente desde a manhã anterior, quando acordara imerso em suor. Ele sonhara com ela. Sonhara que ela vinha à sua casa vender biscoitos para arrecadar fundos para a formatura. Ela usava um short curto de barra desfiada e uma blusa branca. Lembrava-se de ter desejado – no sonho – que começasse a chover ali mesmo, no corredor do prédio, só para que pudesse notar os mamilos dela se enrijecendo. Contudo, na falta da chuva, ele a tomou nos braços e carregou até o chuveiro, deixando rastros de biscoito por toda casa. Depois disso, ele só lembrava de ouvi-la gritando desesperadamente, chamando-o de ogro tarado. Em outro momento ele se sentiria ofendido e provavelmente se afastaria, envergonhado de si mesmo, mas ele olhou pra aquele corpo sinuoso, tão próximo ao seu – volumoso e pesado –, e todo receio foi embora pelo ralo, junto à água quente que caía do chuveiro enchendo o banheiro de vapor.
Assim que ele engoliu o ultimo pedaço de torta, sua visão foi gradativamente recuperando o foco, e todas as imagens esfumaçadas que preenchiam sua mente, em forma de sonho, foram se tornando mais nítidas; as lembranças foram se tornando cada vez mais reais. Subitamente os olhos dele se arregalaram. A garganta se fechou para que toda a torta, animalescamente devorada, não voltasse à boca de uma só vez. Em um surto de tremedeira, ele cambaleou até o banheiro, apoiando-se nas paredes. Abriu a porta devagar – como se procurasse uma fenda no tempo. O ranger das dobraduras assemelhavam-se aos ruídos que advinham do seu próprio cérebro, que maquinava freneticamente, tentando assimilar o redemoinho de informações que se revelava de forma tão inesperada. Quando a porta finalmente se abriu, o choque: o corpo dela, esparramado sobre os azulejos encardidos do banheiro. As roupas estavam rasgadas, as pernas em uma posição no mínimo improvável (até mesmo para a melhor das bailarinas). E por fim, o rosto branco com olhos saltados às órbitas confirmaram a total ausência de vida.
Desesperado, ele se afastou do cômodo. Chocou-se ainda com a parede antes de correr para o quarto e pegar um molho de chaves. Desceu para o estacionamento exatamente como estava: apenas com roupas de baixo. Com as mãos trêmulas, escolheu a chave para um dos carros antigos que fazia parte da sua coleção. Entrou no veículo, girou a chave na ignição e foi embora, ouvindo uma música muito ruim.
