Quando o céu escureceu, encoberto por uma espessa camada de nuvens cinza, ele adorou. A chuva era a única coisa que ainda o fazia sentir realmente feliz. Havia algo sobre o cheiro de terra molhada. Havia algo na melodia suave das gotículas de água cortando o vento, beijando o chão. Tudo parecia tão limpo depois da chuva... As monções eram uma das poucas boas lembranças de sua infância. Sua mãe fazia seu prato preferido, seu pai voltava mais cedo pra casa, e o telhado sussurrava canções de ninar a noite inteira. A vida era boa quando chovia. Ele sempre tinha vontade de sair e dançar da chuva, mas era difícil faze-lo, devido ao excesso de proteção em casa. A primeira vez que ele havia dançado na chuva foi – quando estava longe de casa – jogando futebol com os amigos. Definitivamente, a chuva tinha dado a ele os momentos mais memoráveis de sua vida.
Estava chovendo agora. Ele estava sozinho em sua casa – um homem de setenta anos –, sua esposa morrera há vinte anos. Ele a amava muito, mas o destino o traíra – ao leva-la em um acidente cruel. Seu filho estava ocupado demais com sua própria vida para se preocupar muito com um homem mimado de idade, quiçá para pensar em visitá-lo. Ele tinha cansado da vida da cidade e havia se mudado para o campo logo após a aposentadoria. Tinha amigos lá – desde infância. Um deles tinha cansado (ao contrario dele) das colinas, por isso se ofereceu para lhe vender a casa. Era um bangalô calmo – com vista para um pomar de laranja. Ele tinha se apaixonado pela casa a primeira vista e tinha comprado. Além disso, chovia muito por ali...
Era seu aniversário – ele tinha virado um setenta. O cozinheiro (um homem cuja família inteira tinha vindo a servir às gerações da família do velho) tinha preparado sua comida preferida (o cozinheiro era bom, mas não tão bom quanto sua mãe), mas não o fez companhia no jantar. Após a – solitária – refeição, o velho saiu de casa. Foi sentar-se na varanda. O sol se põe cedo nas montanhas, por isso já estava escuro, e o céu começava a se derramar sobre a grama. Ele olhou para as nuvens com um sorriso nos lábios – como quem agradecia pelo presente – e começou a olhar para trás, para sua vida. Ele tinha sido bem sucedido – de fato, muito bem sucedido. Um estudante brilhante, um trabalhador assalariado – muito respeitado – para, em seguida, abrir seu próprio negócio e receber elogios em toda parte. Costumavam falar dele como “o homem com o toque de ouro” –, ele podia transformar quase todo negócio falido em um negócio lucrativo. Mas a morte de sua esposa mudou tudo isso. Ele perdeu o seu toque. Ele perdeu o entusiasmo pela vida, perdeu sua autoconfiança e começou a desistir do seu trabalho. Foi muito irônico: o homem que tinha tudo, perdeu tudo. Dizem que ele foi para o campo para fugir do que perdera – dos fantasmas dele.
As gotinhas continuavam a bater, sem tréguas, contra o gramado a sua frente. Ele olhou-as com um espanto repentino: aquilo era sobre viver em ciclos. A água descia, evaporava, subia, depois descia novamente. Ele fez uma pausa para pensar – “essas gotas nunca se cansam?”.
Uma tempestade estava chegando (ele podia sentir em seus ossos), e o cozinheiro o tinha alertado sobre ficar fora até tarde – mas o velho era persistente. Ele estava indo sentar-se na chuva. Na chuva, que fora uma segunda mãe pra ele.
O vento uivava. O velho tinha deslizado lentamente para o sono, e agora sonhava. Sonhava com sua esposa. Ela estava lá fora, na chuva, chamando-lhe com um sorriso no rosto. Ele queria chegar até ela, mas não conseguia. Ele estava tentando uma e outra vez – mas suas mãos estavam fora de alcance. Seu olhar lentamente mudou para um de desânimo. Não podia suportar perdê-la novamente. Ele fez outra tentativa – de alguma forma, desta vez, ele conseguiu romper a barreira que o puxava de volta e segurou a mão dela. Ela não falava nenhuma palavra – seu sorriso dizia tudo. Ele olhou para o céu e teve a impressão de que as nuvens estavam sorrindo para ele também. Tudo ao seu redor era feliz, e o júbilo invadiu suas feições – outrora desanimadas.
O cozinheiro encontrou seu corpo na manhã seguinte. Ele ainda estava na varanda. Seu corpo estava duro e frio. Seus olhos estavam fechados. Ele tinha partido durante o sono –, pensou o cozinheiro. Mas havia algo estranho em seu rosto. O que era? Sim, tinha que ser aquele sorriso. Era tão extraordinário...
Estava chovendo agora. Ele estava sozinho em sua casa – um homem de setenta anos –, sua esposa morrera há vinte anos. Ele a amava muito, mas o destino o traíra – ao leva-la em um acidente cruel. Seu filho estava ocupado demais com sua própria vida para se preocupar muito com um homem mimado de idade, quiçá para pensar em visitá-lo. Ele tinha cansado da vida da cidade e havia se mudado para o campo logo após a aposentadoria. Tinha amigos lá – desde infância. Um deles tinha cansado (ao contrario dele) das colinas, por isso se ofereceu para lhe vender a casa. Era um bangalô calmo – com vista para um pomar de laranja. Ele tinha se apaixonado pela casa a primeira vista e tinha comprado. Além disso, chovia muito por ali...
Era seu aniversário – ele tinha virado um setenta. O cozinheiro (um homem cuja família inteira tinha vindo a servir às gerações da família do velho) tinha preparado sua comida preferida (o cozinheiro era bom, mas não tão bom quanto sua mãe), mas não o fez companhia no jantar. Após a – solitária – refeição, o velho saiu de casa. Foi sentar-se na varanda. O sol se põe cedo nas montanhas, por isso já estava escuro, e o céu começava a se derramar sobre a grama. Ele olhou para as nuvens com um sorriso nos lábios – como quem agradecia pelo presente – e começou a olhar para trás, para sua vida. Ele tinha sido bem sucedido – de fato, muito bem sucedido. Um estudante brilhante, um trabalhador assalariado – muito respeitado – para, em seguida, abrir seu próprio negócio e receber elogios em toda parte. Costumavam falar dele como “o homem com o toque de ouro” –, ele podia transformar quase todo negócio falido em um negócio lucrativo. Mas a morte de sua esposa mudou tudo isso. Ele perdeu o seu toque. Ele perdeu o entusiasmo pela vida, perdeu sua autoconfiança e começou a desistir do seu trabalho. Foi muito irônico: o homem que tinha tudo, perdeu tudo. Dizem que ele foi para o campo para fugir do que perdera – dos fantasmas dele.
As gotinhas continuavam a bater, sem tréguas, contra o gramado a sua frente. Ele olhou-as com um espanto repentino: aquilo era sobre viver em ciclos. A água descia, evaporava, subia, depois descia novamente. Ele fez uma pausa para pensar – “essas gotas nunca se cansam?”.
Uma tempestade estava chegando (ele podia sentir em seus ossos), e o cozinheiro o tinha alertado sobre ficar fora até tarde – mas o velho era persistente. Ele estava indo sentar-se na chuva. Na chuva, que fora uma segunda mãe pra ele.
O vento uivava. O velho tinha deslizado lentamente para o sono, e agora sonhava. Sonhava com sua esposa. Ela estava lá fora, na chuva, chamando-lhe com um sorriso no rosto. Ele queria chegar até ela, mas não conseguia. Ele estava tentando uma e outra vez – mas suas mãos estavam fora de alcance. Seu olhar lentamente mudou para um de desânimo. Não podia suportar perdê-la novamente. Ele fez outra tentativa – de alguma forma, desta vez, ele conseguiu romper a barreira que o puxava de volta e segurou a mão dela. Ela não falava nenhuma palavra – seu sorriso dizia tudo. Ele olhou para o céu e teve a impressão de que as nuvens estavam sorrindo para ele também. Tudo ao seu redor era feliz, e o júbilo invadiu suas feições – outrora desanimadas.
O cozinheiro encontrou seu corpo na manhã seguinte. Ele ainda estava na varanda. Seu corpo estava duro e frio. Seus olhos estavam fechados. Ele tinha partido durante o sono –, pensou o cozinheiro. Mas havia algo estranho em seu rosto. O que era? Sim, tinha que ser aquele sorriso. Era tão extraordinário...